Quando o árbitro apitou o fim do jogo na Nueva Olla, o Palmeiras deixava Assunção com um ponto, sem a liderança do Grupo F da Libertadores e com Abel Ferreira lançando um alerta que vai além do futebol: o calendário está cobrando sua conta. O empate por 1 a 1 com o Cerro Porteño, na noite desta quarta-feira, dia 29 de abril, confirmou o que os números já anunciavam — o Verdão não consegue manter 90 minutos de intensidade dentro de uma maratona de 18 jogos comprimidos em 59 dias.

O jogo de duas faces em Assunção

O Palmeiras escalado por Abel — Carlos Miguel; Giay, Gómez, Murilo e Arthur; Marlon Freitas, Andreas, Allan e Arias; Sosa e Flaco López — começou em ritmo lento e só desbloqueou a partida após a pausa para hidratação, quando o técnico orientou diretamente a seus jogadores: "Tem que ser o Arias e o Allan a romper". Aos 32 minutos do primeiro tempo, o roteiro se cumpriu: Allan avançou contra dois marcadores, tabelou com Flaco e Marlon, rolou para a área e Jhon Arias empurrou de carrinho — 1 a 0. O colombiano marcou seu gol com assistência direta de Allan, que foi o melhor em campo pelo Verdão na etapa inicial.

No segundo tempo, o Palmeiras desapareceu. O Cerro Porteño, equipe que tecnicamente ficou abaixo do adversário durante toda a partida, cresceu à medida que o Verdão perdia gás. O empate saiu em lance infeliz: Iturbe finalizou de fora da área, a bola bateu na trave e voltou nas costas de Carlos Miguel antes de entrar. Um gol contra que resumiu a fragilidade alviverde na etapa final. Nos acréscimos, o goleiro Martín Arias ainda defendeu cabeceio de Murilo e evitou a derrota paraguaia.

Abel escancarou o problema estrutural

Na coletiva pós-jogo, Abel Ferreira não poupou diagnóstico. Quando questionado sobre a maior falha do time, ele desviou do debate sobre efetividade ofensiva e foi direto ao ponto estrutural.

"O grande problema é não termos descanso", afirmou o treinador português.

Abel foi além e citou o impacto psicofísico da sequência: "Não conseguimos recuperar corpo e mente". A frase não é retórica — o jogo contra o Cerro foi o nono de uma série de 18 partidas que o Palmeiras precisa disputar até a parada para a Copa do Mundo. Esse intervalo de 59 dias inclui compromissos pelo Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores, sem margem real de recuperação entre eles.

O treinador também defendeu que o resultado foi injusto estatisticamente.

"Tivemos oportunidades suficientes. Tivemos duas oportunidades muito grandes, poderíamos fazer o segundo para ganhar e não conseguimos", disse Abel, acrescentando que "o Palmeiras deveria ter ganho e não conseguiu."

O impacto físico que os dados revelam

Conforme levantamento do SportNavo, o padrão de queda de rendimento no segundo tempo não é episódico — é sistemático. Contra o Cerro, o Palmeiras jogou bem durante aproximadamente 25 minutos do primeiro tempo e praticamente desapareceu nos 45 minutos finais. O time ainda não conta com Piquerez, Paulinho e Vitor Roque, o que restringe as opções de Abel para administrar a carga entre os titulares. Flaco López, por exemplo, ficou em campo durante toda a partida mesmo sem conseguir finalizar com eficiência após o gol adversário.

Abel também sinalizou incômodo com aspectos organizacionais da CONMEBOL, mas escolheu as palavras com cuidado: "Tenho que ter cuidado com o que falo", declarou, em referência implícita a punições anteriores por críticas à arbitragem. O tom contido não esconde a insatisfação com um calendário que coloca o Palmeiras em desvantagem competitiva frente a equipes sul-americanas que disputam menos partidas no mesmo período.

Situação no grupo e o que vem pela frente

Com cinco pontos após três rodadas, o Palmeiras caiu para o segundo lugar do Grupo F. O Sporting Cristal, do Peru, assumiu a liderança com seis pontos após vencer o Junior Barranquilla por 2 a 0 na mesma rodada. O Cerro Porteño soma quatro pontos e ocupa a terceira posição. A análise do SportNavo aponta que o cenário no grupo ainda é favorável ao Verdão, mas a margem para erros diminuiu consideravelmente.

O Palmeiras volta a campo já no sábado, pelo Campeonato Brasileiro, contra o Santos — mais uma partida dentro dessa janela congestionada. Na sequência, na terça-feira, dia 5 de maio, o Verdão visita o Sporting Cristal em Lima, em duelo que decidirá quem vai à frente no Grupo F. Uma derrota naquele confronto pode complicar a classificação direta às oitavas de final. Antes disso, o time ainda enfrenta o Junior Barranquilla, o que torna cada ponto perdido — como o desta quarta em Assunção — ainda mais custoso.