Todo mundo já sabe o resultado: 2 a 0 sobre o Sporting Cristal, liderança do Grupo F da Libertadores retomada com 8 pontos, dois à frente dos peruanos. O que a maioria não parou para calcular é que o Palmeiras chegou a Lima vindo de dois blocos consecutivos de quatro jogos disputados de dois em dois dias — e ainda com dois pedidos de adiamento negados pela CBF no caminho… e aí vem o problema.

A narrativa do futebol pobre e o que os números escondem

Circula nos grupos de WhatsApp e nas mesas de bar uma leitura simplificada: o Palmeiras de Abel Ferreira joga feio, vence por acidente e vive de resultados. É uma narrativa sedutora, mas ela ignora um dado que não cabe em meme. Desde que o técnico português assumiu o clube em novembro de 2020, o Palmeiras chegou a 13 finais — incluindo três de Libertadores, com dois títulos continentais em 2020 e 2021. Nenhum clube brasileiro se aproximou desse índice de presença em decisões no mesmo período.

"O que posso dizer é que nossa equipe é consistente, chegou em 13 finais, é competitiva e entrega tudo que tem", afirmou Abel na coletiva após o jogo em Lima.

A comparação histórica que falta nesse debate é com o Flamengo de Zico nos anos 1980 ou o Santos de Pelé na década anterior: equipes que também foram acusadas de jogar mal em determinadas fases da temporada, mas que foram julgadas — corretamente — pelo acúmulo de títulos e finais. Consistência não é sinônimo de espetáculo; é sinônimo de presença quando a conta fecha.

Os dois pedidos negados e o que a CBF não respondeu

Abel foi além da retórica e apresentou fatos concretos. O Palmeiras solicitou o adiamento de dois jogos à CBF — a partida contra o Red Bull Bragantino pelo Brasileirão e a disputa contra o Jacuipense pela Copa do Brasil — e teve ambos os pedidos recusados. A direção do clube havia optado pelo silêncio sobre o assunto, mas o treinador decidiu falar.

"A direção não quis falar, mas eu falo. Pedimos para antecipar o jogo contra o Bragantino e da Copa do Brasil e nos foi negado. Vínhamos de dois blocos de 4 jogos seguidos de dois em dois dias", declarou o técnico.

O paralelo histórico aqui é inevitável. Em 2005, o São Paulo de Paulo Autuori chegou ao Mundial de Clubes em situação semelhante de acúmulo de jogos, e o clube obteve da CBF um recesso de dez dias antes da viagem ao Japão — recesso que, segundo o próprio Autuori em entrevistas da época, foi decisivo para o título. O Palmeiras de 2026 não teve essa concessão, e Abel cobrou o mínimo: três dias de preparação antes de cada jogo, jogando no quarto dia. Uma demanda que, segundo ele, faz desde que chegou ao Brasil.

A narrativa do futebol pobre e o que os números escondem Abel desmonta a narrati
A narrativa do futebol pobre e o que os números escondem Abel desmonta a narrati

O calendário que ninguém defende mas todos alimentam

A questão do calendário brasileiro não é nova, mas Abel Ferreira a colocou em termos que nenhum técnico havia ousado antes com tanta clareza pública. Ele desafiou a imprensa a apontar um único clube que joga bem de forma consistente sob as condições atuais, citando nominalmente São Paulo, Corinthians, Santos, Cruzeiro e Flamengo como exemplos de equipes que também oscilam.

"Não podemos criar frangos e querer comer picanha", resumiu o treinador, numa metáfora que sintetiza o paradoxo do futebol brasileiro contemporâneo.

O dado mais preocupante que Abel levantou não é tático, é médico. A escalada de lesões musculares nos últimos meses — o atacante Paulinho segue em protocolo de recuperação cujos detalhes o treinador recusou-se a detalhar — é consequência direta da ausência de tempo para treino. O Palmeiras, nas palavras do próprio Abel, não treina: apenas recupera os jogadores para a partida seguinte. Qualquer preparador físico com formação básica sabe que esse ciclo, mantido por meses, produz lesões em série e queda de rendimento técnico.

O Palmeiras volta a campo pelo Brasileirão na próxima rodada, ainda liderando o torneio, com aproveitamento de 71% nos jogos disputados na temporada 2026.