Quando Abel Ferreira desembarcou no Brasil em outubro de 2020 para assinar com o Palmeiras, ele mesmo reconhecia a improbabilidade do que estava por vir. Em conversa com a esposa Ana Xavier, o português foi categórico: três meses e estaria de volta a Portugal. Não foi assim. No último sábado, Abel completou exatos 2.000 dias à frente do Alviverde — uma marca que coloca o técnico de Fafe em companhia exclusiva na história do futebol nacional, ao lado de nomes que comandaram equipes em décadas muito anteriores ao profissionalismo organizado do esporte.
Um número que o futebol brasileiro não via desde outra era
Para entender a dimensão do feito, é preciso recorrer aos arquivos. Desde a introdução do sistema de pontos corridos no Campeonato Brasileiro, em 2003, nenhum técnico havia permanecido tanto tempo ininterrupto à frente de um clube da elite nacional. Abel é hoje o recordista absoluto desta era moderna. Antes dele, apenas quatro nomes na história inteira do futebol brasileiro ficaram mais tempo: Flávio Costa, que comandou o Flamengo por oito anos entre 1938 e 1946; Henry Welfare, que dirigiu o Vasco por dez anos e sete meses entre 1926 e 1937; o lendário Lula, que esteve no Santos por doze anos e sete meses entre 1954 e 1967 — período em que moldou o Pelé jovem em bicampeão mundial; e o caso absolutamente sui generis de Amadeu Teixeira, no América-AM, por 53 anos. Qualquer comparação com esse quarteto remete inevitavelmente a um futebol de outra civilização.

Conforme levantamento do SportNavo, a média de permanência de técnicos no futebol brasileiro contemporâneo gira em torno de seis meses — e os dados dos principais rivais do Palmeiras no mesmo período de 2.000 dias ilustram com precisão essa volatilidade. Flamengo, Corinthians e São Paulo, três dos maiores clubes do país, passaram por múltiplos treinadores enquanto Abel construía, peça por peça, o projeto mais sólido da última geração alviverde.
"Fiz um estudo muito rápido, minha esposa estava preocupada que eu vinha para cá. E eu disse: calma, três meses me mandam embora. É a média. Se conseguir ficar um ano, é bom. Mas não aguento mais que três meses, as pessoas lá não têm paciência", relatou Abel após conquistar o título Paulista de 2024.
Onze títulos e uma lista de recordes que não para de crescer
O que separa Abel Ferreira de um mero sobrevivente do mercado é simples: títulos. O português acumula 11 taças pelo Palmeiras — quatro Campeonatos Paulistas, dois Brasileiros, duas Libertadores, uma Copa do Brasil, uma Recopa Sul-Americana e uma Supercopa —, número que o coloca à frente de Oswaldo Brandão, até então o técnico mais vencedor da história do clube. As duas conquistas da Libertadores, em 2020 e 2021, foram feitos que o Palmeiras não alcançava desde 1999, quando Luiz Felipe Scolari comandou o histórico título continental. Abel repetiu o feito em sequência, algo sem precedente na história alviverde.
Os números individuais de Abel na Libertadores também impressionam pela comparação histórica: são 64 jogos disputados e 42 vitórias na competição continental, marcas que o tornam o técnico com mais jogos e mais triunfos na história do torneio à frente de um clube brasileiro. No Brasileiro, suas 109 vitórias o colocam isolado no topo do ranking de técnicos mais vencedores do torneio nacional por pontos corridos. No total, são 423 partidas — 249 vitórias, 97 empates e 77 derrotas —, com 717 gols marcados e 341 sofridos. Dentro do Allianz Parque, o antigo Palestra Itália, Abel já comandou o time em 163 partidas, mais do que qualquer outro treinador naquele estádio.
O contraste com os rivais revela uma anomalia positiva
A permanência de Abel ganha contornos ainda mais expressivos quando confrontada com a dança de cadeiras nos clubes rivais. Enquanto o português atravessava os 2.000 dias com projeto contínuo, o Flamengo — maior rival do Palmeiras em popularidade e investimento — viu desfilar por sua banca técnica nomes como Renato Gaúcho, Paulo Sousa, Dorival Júnior, Vítor Pereira e Tite, entre outros. O Corinthians, por sua vez, passou por uma enfileirada ainda mais extensa, com mais de meia dúzia de treinadores desde 2020. O São Paulo, que conquistou o Brasileirão de 2023 sob Dorival Júnior, também não sustentou nenhum trabalho de longo prazo comparável ao do português no Alviverde.

A análise do SportNavo sobre esse período aponta que a estabilidade no Palmeiras não foi resultado de ausência de pressão, mas de uma arquitetura institucional diferente. A presidente Leila Pereira manteve o apoio ao técnico mesmo durante o maior jejum da gestão Abel — praticamente dois anos sem conquistas entre o Paulistão de 2024 e o Estadual de 2026 —, período em que qualquer outro grande clube brasileiro teria provavelmente encerrado o contrato.
O legado de uma exceção que virou referência
Na história do futebol mundial, trabalhos longos e vitoriosos em um único clube formam uma categoria restrita: Pep Guardiola fez quatro anos no Barcelona entre 2008 e 2012, sagrando-se bicampeão da Champions; Alex Ferguson ficou 26 anos no Manchester United; Marcello Lippi passou duas passagens pelo Juventus acumulando cinco títulos italianos. Abel Ferreira ainda está longe desses marcos em anos absolutos, mas, no contexto específico do futebol brasileiro — onde o cargo de técnico tem a estabilidade de uma vela ao vento —, seus 2.000 dias representam uma anomalia positiva de proporções históricas. O Palmeiras retorna ao campo pelo Brasileirão nesta rodada, com Abel buscando ampliar ainda mais a vantagem estatística sobre qualquer treinador desta era no futebol nacional.









