Duzentas e cinquenta vitórias. Em 424 partidas oficiais, com aproveitamento de 66,58% e 11 títulos no currículo, Abel Ferreira atingiu no último fim de semana uma marca que nenhum técnico havia alcançado no Palmeiras com a velocidade e a consistência que o português demonstrou desde outubro de 2020. O triunfo por 1 a 0 sobre o Red Bull Bragantino, em Bragança Paulista, pelo Brasileirão — com Abel suspenso pelo STJD e o auxiliar João Martins à beira do campo —, entrou para o livro de recordes do Allianz Parque.

Um número que exige contexto histórico

Para entender o peso de 250 vitórias, é preciso recuar no tempo. Vanderlei Luxemburgo, o técnico que mais vezes comandou o Palmeiras, somou três passagens pelo clube entre 1993 e 2009, acumulando conquistas como o Brasileiro de 1993 e 1994. No entanto, mesmo em seus melhores ciclos, Luxemburgo não manteve aproveitamento próximo aos 66% por período tão prolongado. Luiz Felipe Scolari, o Felipão, foi campeão paulista e brasileiro em 1993 e 1994, e retornou para ser tricampeão paulista entre 2008 e 2010, mas suas passagens foram marcadas por oscilações que hoje o próprio calendário documental do clube registra. Abel, por sua vez, não interrompeu o ciclo: cinco anos e meio ininterruptos na mesma cadeira, algo extraordinário num futebol brasileiro que trocou de técnico 87 vezes nas 20 equipes da Série A apenas em 2023, segundo dados da CIES Football Observatory.

Um número que exige contexto histórico Abel Ferreira chega a 250 vitórias e ree
Um número que exige contexto histórico Abel Ferreira chega a 250 vitórias e ree

O levantamento do SportNavo sobre os números comparativos das três maiores gestões técnicas da história palmeirense revela uma diferença estrutural: enquanto Luxemburgo e Felipão operaram em eras de menor volume competitivo — sem fase de grupos da Libertadores com calendário denso —, Abel administrou 424 jogos em múltiplas frentes simultâneas, incluindo Mundial de Clubes, Recopa Sul-Americana e Copa do Brasil, o que torna o aproveitamento de 66,58% ainda mais expressivo.

Os números que sustentam o argumento

Os dados divulgados pelo próprio Palmeiras são contundentes: 250 vitórias, 97 empates e apenas 77 derrotas em 424 partidas. O ataque produziu 718 gols — média de 1,69 por jogo —, enquanto a defesa sofreu 341, o equivalente a 0,80 por partida. Para efeito de comparação, o Palmeiras de Scolari na conquista do Brasileiro de 1994 terminou a competição com 15 vitórias em 24 jogos, aproveitamento de 67% naquele torneio específico, mas num formato de pontos corridos de apenas uma fase. Abel manteve índice semelhante por 424 jogos e cinco competições diferentes por temporada.

Os 11 títulos conquistados — quatro Campeonatos Paulistas, duas Libertadores (2020 e 2021), dois Brasileiros (2022 e 2023), uma Copa do Brasil (2023), uma Recopa Sul-Americana (2022) e uma Supercopa do Brasil — colocaram Abel Ferreira acima de Oswaldo Brandão, o lendário treinador que dirigiu o Verdão por três passagens distintas entre as décadas de 1950 e 1970. Brandão havia sido, até então, o técnico com mais títulos na história do clube.

"Quando cheguei aqui, sabia que o Palmeiras é um clube grande, mas precisava entender a dimensão disso. Hoje entendo", disse Abel Ferreira em entrevista ao canal oficial do clube em novembro de 2023, após a conquista da Copa do Brasil.

A ruptura com a 'máquina de moer técnicos'

O futebol brasileiro tem um padrão documentado de impaciência com comissões técnicas. Entre 2010 e 2019, o tempo médio de permanência de um técnico na Série A não ultrapassou seis meses, segundo estudo da Universidade Estadual de Campinas sobre gestão esportiva. O Palmeiras não era imune a esse comportamento: entre 2013 e 2020, o clube trocou de treinador dez vezes, passando por Gilson Kleina, Dorival Júnior, Oswaldo de Oliveira, Marcelo Oliveira, Cuca, Eduardo Baptista, Roger Machado, Cuca novamente, Luiz Felipe Scolari novamente e Vanderlei Luxemburgo pela terceira vez. Abel chegou em outubro de 2020 e transformou o cargo numa fortaleza.

"Futebol é resultado, mas resultado consistente só vem com tempo e confiança. O Palmeiras me deu as duas coisas", afirmou o técnico em coletiva após o título do Brasileiro de 2022, quando o clube terminou a competição com 81 pontos em 38 rodadas.

A análise do SportNavo sobre os dados históricos do clube indica que a longevidade de Abel não é acidente administrativo — é produto de uma relação entre comissão técnica, diretoria e elenco que o próprio português cultivou com método. A contratação de Weverton, Gustavo Gómez, Raphael Veiga e Estêvão em diferentes janelas de transferência demonstra continuidade de projeto, não remendo de emergência.

O que vem pela frente

A vitória número 250 foi conquistada sem Abel à beira do campo, o que, por si só, diz algo sobre a maturidade do grupo. O próximo desafio da comissão técnica portuguesa é a partida desta quarta-feira, dia 29, contra o Cerro Porteño, no Estádio La Nueva Olla, em Assunção, no Paraguai, pela terceira rodada da fase de grupos da Libertadores 2026 — competição na qual Abel já levantou o troféu duas vezes, em 2020 e 2021, com placar de 1 a 0 sobre o Santos na final histórica de Montevidéu e vitória nos pênaltis contra o Flamengo na final de 2021.