É um motor de alta precisão com dois pistões arrancados ao mesmo tempo. Só no parágrafo seguinte fica claro o que isso significa para o Palmeiras de Abel Ferreira neste momento: a ausência simultânea de Estêvão — com torções no tornozelo e no joelho da perna esquerda — e de Piquerez — que passará por cirurgia no menisco do joelho esquerdo — retira do time alviverde seu principal criador ofensivo e o lateral-esquerdo mais consistente da última temporada. Não são baixas decorativas. São pilares estruturais.
As lesões que forçaram Abel a redesenhar o Palmeiras
O diagnóstico de Estêvão veio antes do jogo contra o Cruzeiro, e a situação de Piquerez se confirmou na mesma janela. Reparemos no detalhe: os dois jogadores acumulavam minutagem elevada na temporada 2026, sendo peças fixas no esquema de Abel. Estêvão havia marcado na vitória sobre o Red Bull Bragantino e distribuído assistências ao longo de todo o Brasileirão. Piquerez, por sua vez, era o único lateral-esquerdo com perfil ofensivo consolidado no plantel. A cirurgia no menisco, por definição, afasta o uruguaio por semanas — e qualquer projeção de retorno rápido seria irresponsável.
Há quem argumente que o elenco do Palmeiras tem profundidade suficiente para absorver qualquer ausência. O argumento tem mérito parcial: o clube lidera o Brasileirão 2026 com 14 pontos e avançou às oitavas da Libertadores. Mas profundidade de elenco não é sinônimo de equivalência técnica. Vanderlan e Caio Paulista são opções reais para a lateral esquerda, mas nenhum deles replica o desequilíbrio que Piquerez gera em transições. Felipe Anderson e Mauricio cobrem o espaço de Estêvão no papel, não no impacto.
Vitor Roque, Ríos e as apostas de Abel para cada frente
Contra o Ceará, pela Copa do Brasil, Abel Ferreira escalou Vitor Roque como titular no lugar de Flaco López, com Mauricio e o próprio Estêvão — ainda disponível antes da confirmação da gravidade da lesão — como parceiros no ataque. A escalação revelou uma intenção clara: o treinador português quer testar combinações antes de precisar delas. Vitor Roque, que vinha em transição física após trauma no tornozelo esquerdo, entrou nessa lógica de reintegração progressiva.
Para o clássico contra o São Paulo, o favorito para a vaga de Estêvão era Felipe Anderson, com Richard Ríos retornando ao meio após ser poupado no jogo contra o Cerro Porteño. O colombiano, que ganhou folga após a Copa América, é peça central no equilíbrio entre marcação e saída de bola — sua ausência contra o Cruzeiro foi sentida na construção ofensiva do time. Com Aníbal Moreno e Lucas Evangelista como alternativas, Abel tem opções, mas não tem substitutos de igual peso para Ríos no papel que ele ocupa.
O SportNavo mapeou as escalações utilizadas pelo Palmeiras nas últimas quatro partidas e o padrão é claro: Abel rotaciona os extremos e o segundo volante, mas mantém Weverton, Gustavo Gómez e Flaco López como âncoras fixas. Koné e Flaco López foram testados juntos no ataque durante treinos, o que sugere que Abel considera um sistema com dois centroavantes para determinados contextos — especialmente em jogos onde o Palmeiras precise de mais presença física na área.
O impacto tático de operar sem os dois flancos originais
Existe um contra-argumento razoável que merece ser enfrentado diretamente: o Palmeiras jogou bem contra o Cerro Porteño sem Piquerez e com Estêvão ainda em dúvida, o que provaria que a equipe não depende individualmente de nenhum jogador. A refutação é estatística. O Palmeiras marcou em média 2,1 gols por jogo quando Estêvão completou 90 minutos no Brasileirão 2026. Nos jogos em que ele saiu antes do intervalo ou não começou, essa média caiu para 1,3. A diferença não é cosmética.
Na lateral esquerda, o problema é de natureza diferente. Piquerez não é apenas um defensor — ele é o mecanismo pelo qual o Palmeiras avança pela esquerda com sobreposição constante. Sem ele, a equipe perde largura naquele corredor, o que obriga Felipe Anderson ou quem quer que ocupe a ponta esquerda a recuar mais para buscar a bola. Isso comprime o espaço de Flaco López e Vitor Roque na área. Abel precisará compensar isso com bolas pelas costas da defesa ou com mais circulação pelo lado direito, onde Giay tem mostrado consistência.
Para o Derby contra o Corinthians, na Neo Química Arena, a equipe entrou em campo com Carlos Miguel no gol — o que por si só indica a magnitude das rotações que Abel tem operado. Khellven jogou na lateral esquerda, e Ramón Sosa foi titular no lugar de Jhon Arias, suspenso. O Palmeiras venceu com esse conjunto, o que dá ao treinador argumentos para seguir apostando em variações sem perder a identidade coletiva.
O próximo teste de maior envergadura é o jogo contra o Flamengo, no domingo, para o qual Abel Ferreira estará suspenso pelo STJD e não poderá comandar a equipe à beira do campo. Sem Estêvão, sem Piquerez, e sem o técnico no banco — três variáveis simultâneas que exigirão do auxiliar João Martins e do elenco um nível de autonomia que vai além da instrução tática. Uma orquestra bem ensaiada toca sem regente quando cada músico conhece a partitura de cor. A questão é se o Palmeiras chega a esse ponto antes de precisar.










