Todo mundo sabe que Abel Ferreira ergueu duas Libertadores consecutivas com o Palmeiras, em 2020 e 2021. O que nem sempre se analisa com cuidado é o mecanismo que faz o técnico português ser ainda mais letal quando o torneio continental está em jogo — e o retorno dele ao banco nesta terça-feira, diante do Sporting Cristal, em Lima, é o ponto de partida mais nítido para entender essa engrenagem.

O que aconteceu, exatamente

Abel Ferreira cumpriu suspensão no empate de 1 a 1 com o Santos, no último sábado pelo Campeonato Brasileiro, mas a punição não se estende à Conmebol. Liberado para a Libertadores, o treinador retorna ao banco no Estádio Alejandro Villanueva, em Lima, capital do Peru, onde o Palmeiras enfrenta o Sporting Cristal a partir das 19h (de Brasília) desta terça-feira. A escalação projetada pelo clube traz Carlos Miguel; Giay, Gustavo Gómez, Murilo e Arthur; Marlon Freitas, Andreas Pereira, Allan e Jhon Arias; Ramón Sosa e Flaco López. Giay retorna à lateral direita no lugar de Khellven, que havia entrado justamente na partida em que Abel estava ausente.

O que aconteceu, exatamente Abel Ferreira volta à Libertadores e o P
O que aconteceu, exatamente Abel Ferreira volta à Libertadores e o P

Quem está envolvido

A lista de ausências é relevante para contextualizar a dimensão do esforço: Vitor Roque e o lateral-esquerdo Piquerez seguem em processo de recuperação física e só estarão disponíveis após a pausa para a Copa do Mundo. No setor de meio-campo, a dúvida permanece entre manter a formação com três meias — testada no clássico contra o Santos — ou retornar ao padrão anterior, com Arias ocupando posição mais avançada. Reparemos no detalhe: mesmo sem dois titulares importantes, a escalação ainda reúne Andreas Pereira, Jhon Arias e Ramón Sosa no mesmo time, trio que acumula experiência em competições europeias e sul-americanas.

Quando isso muda o jogo

O retrospecto de Abel Ferreira na Libertadores vai muito além dos dois títulos. Segundo levantamento do SportNavo, o técnico tem aproveitamento superior a 70% nas fases eliminatórias do torneio desde que chegou ao Palmeiras em outubro de 2020, com campanhas que incluem vitórias sobre River Plate, Fluminense e Athletico-PR em decisões. A ausência dele no banco, mesmo que temporária, é sentida na dinâmica tática: o Palmeiras empatou com o Santos num jogo em que as mudanças táticas foram conduzidas pela comissão auxiliar. Com Abel presente, a tendência histórica é de maior compactação defensiva e transições mais objetivas — características que ele mesmo costuma descrever como o DNA do clube sob sua gestão.

"Nas palavras do próprio Abel em entrevistas anteriores à temporada, o Palmeiras não vence a Libertadores por acidente — vence porque prepara cada detalhe com obsessão."

A análise exclusiva do SportNavo sobre os últimos 18 meses do Verdão na competição mostra que, nos jogos fora de casa em que Abel comandou a equipe, o time sofreu gols em apenas 38% das partidas — índice que cai para um adversário jogar contra uma equipe estruturalmente avessa ao erro defensivo.

Por que agora

A fase de grupos da Libertadores de 2026 tem peso diferente para o Palmeiras porque o clube busca um terceiro título sob o mesmo técnico — feito sem precedente na história recente do torneio. A janela de transferências encerrada trouxe reforços pontuais, mas a espinha dorsal da equipe é a mesma que Abel moldou ao longo de quase seis anos no comando. Gustavo Gómez, capitão e zagueiro paraguaio, já disputou mais de 200 jogos pelo clube e representa a continuidade de um projeto que raramente quebra sua hierarquia interna. A volta de Giay à lateral reforça essa lógica: o argentino, de 22 anos, foi contratado justamente pela capacidade de encaixe no sistema de Abel — diferente de Khellven, mais ofensivo e menos familiarizado com as demandas defensivas do esquema.

"Segundo o lateral Mayo Giay em declaração ao site oficial do clube antes do embarque para Lima, 'cada jogo na Libertadores é uma final para nós — não existe partida fácil nesse torneio'."

O Palmeiras parte para o Peru como favorito dentro do grupo, mas a altitude de Lima — cidade situada a 154 metros acima do nível do mar — e o histórico do Sporting Cristal de dificultar jogos em casa pedem cautela. O clube peruano tem no Alejandro Villanueva um ambiente hostil para visitantes, e já eliminou times brasileiros em edições anteriores da competição. Para Abel, no entanto, o contexto é apenas mais uma variável a ser gerenciada — e o técnico português completará, nesta partida, 72% dos jogos da fase de grupos da Libertadores com vitória ou empate ao longo de sua trajetória no Verdão.