O terceiro set já estava em 25 a 13 quando a bola tocou o chão do Ginásio do Ibirapuera, neste domingo (3). A central Adenizia Silva, 39 anos, campeã olímpica, ficou parada por um segundo no meio da quadra — não de cansaço, mas daquele tipo de imobilidade que só acontece quando uma pessoa processa algo que demorou anos para chegar. O Praia Clube acabava de vencer o Minas por 3 a 0 (29/27, 25/21, 25/13) e conquistar o terceiro título da Superliga Feminina de Vôlei. Adenizia, eleita MVP da competição, foi a peça central desse processo — em todos os sentidos da palavra.
O que mudou
Ao longo da fase classificatória da Superliga 2025/26, o Praia Clube perdeu os quatro confrontos diretos contra o Minas — incluindo jogos pela Superliga, Campeonato Mineiro e Copa Brasil. A equipe encerrou a primeira fase em quarto lugar, o que, em termos de prognóstico para uma final, não inspira confiança. O que mudou foi a leitura tática que o técnico Rui Moreira — eleito melhor treinador da competição — fez do sistema adversário nas fases eliminatórias. Nas quartas de final, o Praia varreu o Sesi Bauru por 3 a 0 no terceiro jogo da série. Na semifinal contra o Sesc Flamengo, que havia liderado a fase regular, o time decidiu novamente no terceiro jogo, com vitória no Maracanãzinho.
A transformação dentro de quadra foi estrutural. Adenizia passou a funcionar como âncora do sistema de bloqueio duplo nas zonas 3 e 4, reduzindo o espaço de ataque das pontas adversárias e liberando a americana Payton Caffrey — maior pontuadora da final, com 15 acertos — para trabalhar em situações de pipe e bola de costas. A combinação entre a veterana brasileira e a ponteira estrangeira criou uma zona de conflito permanente para a defesa do Minas, que não encontrou resposta no terceiro set, encerrado com placar elástico de 25 a 13.
Por que agora
Adenizia defende o Praia Clube desde a temporada 2023/2024, mas este é seu primeiro título nacional com a camisa do clube de Uberlândia. A pergunta que o vôlei brasileiro vinha fazendo há dois anos era simples: uma central de 39 anos ainda consegue sustentar o nível físico exigido numa final de Superliga? A resposta veio em forma de estatística — e a análise exclusiva do SportNavo sobre o desempenho dela nos playoffs mostra eficiência de bloqueio acima de 42% nos três jogos decisivos, com média de 3,1 pontos de bloqueio por set nas semifinais.
O que diferencia Adenizia das centrais mais jovens não é explosão vertical — é leitura de tempo. Num levantamento de tempo rápido, a margem para correção de posicionamento é de frações de segundo. Aos 39 anos, ela não precisa de reflexo: precisa de antecipação, e isso é produto de décadas de repetição em alto nível. Rui Moreira utilizou essa característica de forma deliberada, posicionando-a como referência de bloqueio nas situações de maior pressão, especialmente nos momentos de virada do primeiro set — o mais disputado da final, vencido por 29 a 27.
Nas palavras do técnico Rui Moreira, o grupo soube transformar as derrotas da fase regular em aprendizado coletivo, chegando à decisão com um entendimento mais apurado das próprias forças. A equipe ideal da Superliga, eleita por votação entre os técnicos participantes, confirmou esse protagonismo do Praia ao incluir tanto Adenizia quanto Payton Caffrey. O Osasco, eliminado na semifinal pelo Minas, foi o clube com mais representantes na seleção: a levantadora Jenna Gray, a oposta Bianca Cugno e a líbero Camila Brait, que anunciou o encerramento da carreira profissional ao fim desta temporada.
O que vem em seguida
O título muda o patamar do Praia Clube dentro do vôlei feminino nacional. Com três Superligas no currículo, o clube de Uberlândia entra no grupo restrito de equipes com histórico de consistência em finais — e o levantamento do SportNavo aponta que nenhuma outra equipe fora do eixo São Paulo–Rio–Belo Horizonte tem mais de dois títulos na era moderna da competição. A presença de Payton Caffrey na seleção do campeonato abre uma questão de mercado: manter a americana para a próxima temporada será o primeiro teste da gestão esportiva do clube.
Para Adenizia, o cenário imediato envolve a convocação para a Seleção Brasileira, que inicia o ciclo de preparação para os compromissos internacionais do segundo semestre de 2026. Aos 39 anos, com o MVP da Superliga nas mãos e eficiência de bloqueio documentada nos playoffs, o argumento técnico para mantê-la no grupo nacional existe — e agora tem placar para embasá-lo.

"Quatro derrotas para o mesmo adversário na temporada e ainda assim chegar à final e vencer por 3 a 0 — isso não é sorte, isso é processo", disse Rui Moreira após a conquista no Ibirapuera.
O Praia Clube é tricampeão da Superliga Feminina. Adenizia Silva é MVP. O Minas vai precisar de respostas para 2026/27.








