Confesso: eu subestimei a longevidade de Adenizia Silva em 2022. Quando ela completou 35 anos e deixou o Osasco, achei que a fase decisiva da carreira dela tinha ficado para trás. Hoje, aos 38, ela entra em quadra no Ginásio do Ibirapuera como capitã do Dentil Praia Clube na final da Superliga Feminina 2025/26 — e eu reconheço o erro.
A cena
No domingo (3), a partir das 10h (horário de Brasília), duas mulheres que dividiram pódio olímpico, vestiário de seleção e abraços de conquista vão se encarar pela rede em uma decisão de campeonato. Adenizia Silva, 38 anos, capitã do Dentil Praia Clube, e Thaisa Daher, 36, capitã do Gerdau Minas. A final do clássico mineiro — popularmente chamado de clássico do pão de queijo — reúne, no mesmo palco, duas das trajetórias mais longas e significativas do vôlei de clubes nacional.
"É irritante, vou ser sincera. Ela é o amor da minha vida, mas irrita. Além de ela ser sanguínea, grita, corre... Não tem o que falar dela como jogadora, da diferença que ela faz dentro de quadra", disse Thaisa sobre a adversária.
Adenizia não ficou em dívida na resposta:
"Eu nem olho, porque já sei como ela é. Chata pra caramba. Thaisa provoca, briga, mas nós duas temos o mesmo pensamento, a gente quer ganhar. Se for competição de cuspe, a gente tá competindo", retrucou a capitã do Praia Clube.
O contexto que explica
A amizade entre as duas centrais começou nas categorias de base da seleção brasileira, ainda na adolescência, e foi solidificada no ciclo olímpico que culminou no ouro de Londres 2012 — conquista que permanece como o último título olímpico do vôlei feminino brasileiro. No clube, as duas foram companheiras no Osasco, onde conquistaram dois títulos em sete finais de Superliga disputadas juntas pelo mesmo lado da rede.
Para entender o peso histórico desse confronto, uma comparação é necessária: na década de 1990, o eixo de rivalidade da Superliga feminina era monopolizado por Leite Moça e Macaé, com a central Fernanda Venturini sendo o nome magnético das decisões. Hoje, com Adenizia e Thaisa, o vôlei brasileiro tem algo raro — duas atletas de elite absoluta que se conhecem profundamente, dentro e fora da quadra, e que mesmo assim produzem uma intensidade competitiva que rivaliza com qualquer duelo da era clássica do esporte.
No recorte específico das finais de Superliga em que as duas estiveram em equipes opostas, o retrospecto está empatado em uma vitória para cada lado. O equilíbrio histórico contrasta com o desempenho na temporada 2025/26: o Gerdau Minas venceu as quatro partidas disputadas contra o Praia Clube ao longo da competição, cedendo apenas um set — dado que, segundo levantamento do SportNavo, é o melhor aproveitamento de uma equipe contra a rival em confrontos diretos de fase regular nesta Superliga.

Praia Clube e Minas chegam à sua sexta final de Superliga no total. O histórico geral entre as equipes em decisões é equilibrado, o que torna o retrospecto da temporada ainda mais relevante como indicador tático — especialmente no fundamento de bloqueio, onde Thaisa registrou média superior a 0,8 pontos de bloqueio por set na fase classificatória de 2025/26, contra 0,6 de Adenizia no mesmo período.

As implicações imediatas
Do ponto de vista técnico-tático, o duelo entre as centrais vai muito além do simbolismo afetivo. O sistema de ataque rápido do Minas é construído em torno da movimentação de Thaisa na zona 3, explorando o tempo de reação do bloqueio adversário. O Praia Clube, por sua vez, tem em Adenizia uma referência de liderança vocal e de presença física na rede — a central registrou 72% de aproveitamento no ataque em primeiro tempo ao longo da semifinal, número que o SportNavo apurou como o segundo maior entre centrais titulares nas semifinais desta edição.
A questão que a final vai responder — e que nenhum retrospecto resolve — é se o domínio do Minas na temporada regular se converte em eficiência quando a pressão é máxima. Em finais de Superliga, o aproveitamento do time com melhor campanha na fase classificatória como campeão é de aproximadamente 55% nas últimas dez edições da competição feminina, o que não configura vantagem estatisticamente expressiva.
A final está marcada para o domingo (3), às 10h, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Quem vencer o jogo 1 terá a vantagem do mando no jogo 2, previsto para o dia 10, caso a série vá à decisão. Vale gravar o jogo de domingo — porque a probabilidade de um quinto set, com essas duas capitãs em quadra, é alta o suficiente para ninguém querer perder o final.








