"Hoje o feeling falou para ser o Adonis." Quem disse isso foi Cuca, depois de ver o zagueiro argentino decidir a partida com um gol e encerrar, de uma vez, a maior seca de vitórias do Santos no Brasileirão em 2026 — sete jogos. Uma frase aparentemente simples que esconde uma reviravolta tática com consequências diretas para a sequência da temporada.
A pergunta que a vitória sobre o Bragantino levanta
Luan Peres sofreu uma fratura no quarto metacarpo da mão esquerda e havia se consolidado como titular ao lado de Lucas Veríssimo nos primeiros 48 dias de Cuca no comando. A lesão, agravada por uma pancada sofrida na véspera do confronto da 15ª rodada, tirou o defensor do duelo contra o Red Bull Bragantino horas antes do apito inicial. Esse detalhe importa: não foi uma decisão planejada de Cuca escalar Frías, foi uma emergência. E é justamente aí que a história fica interessante.
A questão que o torcedor santista precisa responder agora não é se Frías merece uma chance — ele já a conquistou. A questão é se Cuca vai ter coragem de mantê-lo quando Luan Peres estiver 100% recuperado, treinando normalmente com proteção especial na mão esquerda. O desempenho do argentino de 28 anos na Vila Belmiro tornou essa decisão genuinamente difícil.
O que Adonis Frias mostrou que Cuca não esperava
Contratado em setembro de 2025 por aproximadamente US$ 4 milhões — o equivalente a R$ 22 milhões pagos ao León, do México — Frías chegou ao Santos como pedido de Juan Pablo Vojvoda, com quem já havia trabalhado no Defensa y Justicia, da Argentina. Sob Vojvoda, o zagueiro aparecia com frequência entre os titulares. Com a chegada de Cuca e o retorno de Lucas Veríssimo, o argentino disputou apenas uma partida nos primeiros 12 jogos da nova comissão técnica — o empate contra o Recoleta, pela Copa Sul-Americana.
Reparemos no detalhe que o próprio treinador revelou na coletiva pós-jogo: Cuca admitiu que não sabia que Frías atuava pelo lado esquerdo. "Ele não me comentou isso. Quem me falou foi o empresário dele, porque no León jogou de volante também", disse o técnico. Um treinador que está há 48 dias no clube, escalando um jogador que ele próprio confessa não conhecer completamente — e o resultado foi um dos melhores desempenhos individuais da defesa santista no Brasileirão 2026.
"Aí entra o Adonis e faz um jogo muito bom com o Lucas. Os melhores em campo. Coisa para se comemorar, nos preparamos bem e conseguimos ir bem", completou Cuca após a vitória por 2 a 0.
Frías foi sólido nos duelos aéreos e nas divididas no gramado contra o Bragantino, e ainda marcou o segundo gol da partida — o outro foi de Neymar. Para um zagueiro que havia jogado apenas uma vez desde a troca de comando, o nível de entrosamento com Veríssimo surpreendeu até a comissão técnica. Não é coincidência que Cuca o tenha citado entre os atletas subestimados do elenco, ao lado do goleiro Diógenes, do volante João Schmidt e do meia Álvaro Barreal.
A concorrência na zaga santista e o que ainda falta resolver
Antes de Frías aparecer, o jovem João Ananias também havia recebido oportunidades, iniciando partidas contra o Bahia pelo Brasileirão e diante do Recoleta pela Sul-Americana. O Santos tem, portanto, três opções para dois lugares ao lado de Veríssimo. Essa abundância é positiva, mas o histórico recente do clube mostra que decisões de escalação mal comunicadas geram instabilidade no vestiário — e Cuca já administrou altos e baixos desde que chegou.
O que os números confirmam é que a vitória sobre o Bragantino foi estrutural, não pontual. O Santos chegou aos 18 pontos no Brasileirão e saiu da zona de risco imediato. A maior sequência invicta do clube no ano — cinco empates consecutivos após a derrota para o Fluminense, mais a vitória sobre o Bragantino — demonstra que a equipe parou de perder antes de aprender a vencer. A análise do SportNavo sobre os dados defensivos santistas nesse período reforça que a zaga foi o setor que mais oscilou, o que torna a consistência de Frías ainda mais relevante.
"A gente pode e deve melhorar ainda. O futebol está sendo bem jogado, mas o resultado não estava vindo. Quem sabe a gente dá um salto grande e termina esse primeiro semestre bem", disse Cuca, deixando claro que o trabalho está longe do ponto ideal.
Frías carrega uma bagagem que não aparece nos números de 2026: foi pupilo de Hernán Crespo no Defensa y Justicia, clube que em 2020 realizou a maior façanha de sua história ao conquistar a Copa Sul-Americana eliminando Vasco, Bahia e Coquimbo Unido antes de vencer a final contra o Lanús. Jogar sob pressão em contextos de mata-mata não é novidade para o argentino — e o Santos vai precisar exatamente disso na quarta-feira, quando enfrenta o Coritiba no Couto Pereira pelo jogo de volta da quinta fase da Copa do Brasil.
"Hoje o feeling falou para ser o Adonis." Cuca disse isso como justificativa emergencial. Depois do que o argentino exibiu contra o Bragantino, a questão não é mais se o feeling vai falar de novo — é se o técnico vai ter argumentos para ignorá-lo quando Luan Peres estiver disponível.










