O cheiro de grama molhada no Estádio Monterrey, numa tarde de maio, tinha algo de ritual antigo — o tipo de cenário em que decisões silenciosas moldam Copas do Mundo. Foi ali que Javier Aguirre escolheu revelar, num painel mundialista, que a lista da Copa do Mundo mexicana ainda não estava fechada de verdade. Cinquenta e cinco nomes foram entregues à FIFA até o dia 11 de maio, prazo máximo imposto pelo organismo, mas o técnico deixou no ar uma frase que reabriu o debate: jogadores em atividade na Liguilla de Liga MX podiam, sim, aparecer entre os 26 convocados finais.

"A lista está aberta, evidentemente se cierra a 55 — se algum da liguilla está na lista de 55, evidentemente pode estar no mundial", declarou Aguirre, acrescentando: "Yo no estoy casado con nadie y eso hace que todos estén en permanente búsqueda de entrar."

Reparemos no detalhe: não se trata de uma convocação improvisada ou de desespero tático. Trata-se de uma metodologia que o "Vasco" já utilizou em passagens anteriores por seleções — manter o grupo em estado de alerta permanente, sem garantias antecipadas, para extrair o máximo de rendimento até o último treino antes do torneio. Aguirre dirige sua terceira Copa do Mundo pelo México, tendo passado também pelo comando de Espanha e Japão em Mundiais anteriores, e conhece melhor do que ninguém o peso psicológico de uma convocação que parece fechada antes da hora.

A engenharia dos 55 nomes e o que ela revela sobre o plano de Aguirre

Entregar 55 jogadores à FIFA não é burocracia — é gestão de risco. O semestre pré-Copa golpeou a seleção mexicana com uma sequência de lesões que, em qualquer outro ciclo, teria gerado pânico institucional. Santiago Giménez, Alexis Vega, Rodrigo Huescas, Gilberto Mora e Jesús Orozco Chiquete passaram por processos de recuperação em momentos distintos. Luis Chávez e César Huerta também integraram a lista de preocupações médicas da Federação Mexicana de Futebol nos últimos meses.

O diretor esportivo das seleções nacionais, Duilio Davino, descreveu a situação com precisão cirúrgica:

"Hemos estado ocupados en esto, lo ideal es tener a todos sanos y listos, pero en el futbol es muy difícil esto. Hemos estado en contacto con todos los clubes, con los jugadores, hemos mandado gente de nuestro cuerpo médico para estar cerca de ellos, en Europa. Esperamos puedan estar listos la mayor cantidad posible de jugadores."

Segundo apuração do SportNavo, o núcleo de 24 jogadores praticamente confirmados para a lista final de 26 já está definido, com apenas duas vagas em disputa. Os candidatos a essas posições são Luis Chávez, Richard Ledezma, Julián Araujo, Germán Berterame, Jesús Angulo e Everardo López. Aguirre terá os amistosos contra Gana, Austrália e Sérvia — este último marcado para 4 de junho, em Toluca — para tomar a decisão final antes do prazo de 1º de junho imposto pela FIFA para a lista oficial.

O elenco provisório confirmado inclui três goleiros — Raúl Rangel, Guillermo Ochoa e Carlos Acevedo — e uma espinha dorsal defensiva com Israel Reyes, Jesús Gallardo, Jorge Sánchez, Mateo Chávez, César Montes e Johan Vásquez. No meio, nomes como Álvaro Fidalgo, Orbelín Pineda, Roberto Alvarado e Obed Vargas compõem um setor de criação que mistura experiência europeia com talento da Liga MX. Na frente, Raúl Jiménez e Santiago Giménez formam a dupla de referência, com Armando González e Guillermo Martínez como opções.

Edson Álvarez e a cirurgia que colocou uma Copa em suspense

De todos os nomes que rondam a incerteza mexicana, nenhum carrega tanto peso quanto o de Edson Álvarez. O volante do West Ham passou por cirurgia no tornozelo na Europa e, embora o procedimento tenha sido descrito como bem-sucedido, os amistosos de março contra Portugal e Bélgica já foram descartados para o jogador. O horizonte realista, segundo o próprio Davino, é o Mundial — mas com a ressalva de que tudo depende da evolução da reabilitação.

"Para Portugal e Bélgica não", confirmou Davino. "Foi uma cirurgia exitosa e de primeira mão o médico nos diz que se tudo sair como planejam, para o Mundial poderia ir."

Edson Álvarez completou 34 partidas pelo West Ham na temporada 2024/2025 da Premier League e é, há pelo menos três ciclos, o jogador mais importante do meio-campo mexicano em termos de equilíbrio defensivo e distribuição de jogo. Nas Copas de 2018 e 2022, ele foi peça central na estrutura tática da seleção — em 2022, no Catar, atuou em todos os três jogos da fase de grupos, incluindo a derrota por 2 a 1 para a Argentina que eliminou o México ainda na primeira fase. Perder Edson para 2026 seria, numericamente, retirar o jogador com maior número de duelos vencidos por partida do elenco convocável.

O caso de Gilberto Mora, do Club Tijuana, segue uma lógica diferente mas igualmente delicada. A comissão técnica optou por uma abordagem conservadora — redução de carga, sem forçar o retorno antes do tempo —, o que indica que o jogador deve chegar ao torneio, mas sem o ritmo ideal de competição acumulado.

A Liguilla como laboratório de última hora para o Azteca

Há um dado histórico que Aguirre conhece de cor: nenhuma das sete participações mexicanas em Copas do Mundo desde 1994 teve um jogador convocado diretamente da fase final do campeonato doméstico com menos de três semanas de antecedência. A abertura da lista para atletas da Liguilla representa, portanto, uma ruptura metodológica — ou, no mínimo, uma sinalização de que o técnico está disposto a usar todas as ferramentas disponíveis.

A engenharia dos 55 nomes e o que ela revela sobre o plano de Aguirre Aguirre ab
A engenharia dos 55 nomes e o que ela revela sobre o plano de Aguirre Aguirre ab

O México estreia na Copa do Mundo no dia 11 de junho, uma quinta-feira, contra a África do Sul no Estádio Azteca — rebatizado de Estadio de la Ciudad de México para o torneio, mas que carrega na memória coletiva o peso de 1970 e 1986, as duas semifinais disputadas em casa. O estádio receberá cinco partidas no total, incluindo a cerimônia de abertura. Jogar a estreia diante de mais de 80 mil torcedores, no mesmo gramado onde Hugo Sánchez marcou e Cuauhtémoc Blanco encantou, cria uma pressão que nenhuma lista de 55 nomes consegue amortecer completamente.

A decisão final sobre os 26 convocados será tomada até 1º de junho. Até lá, Aguirre observa a Liguilla, aguarda o laudo médico de Edson Álvarez e prepara o México para tentar, pela primeira vez como anfitrião desde 1986, avançar além das quartas de final — barreira que a seleção não transpôs em nenhuma das últimas sete Copas em que participou.