Uma caneleira salvou um gol e acabou com um contrato. Ali Al-Bulaihi marcou para o Al-Shabab no clássico contra o Al-Nassr pelo Campeonato Saudita, e foi justamente nesse momento — o suposto ápice de sua contribuição ao clube — que o zagueiro escolheu exibir o escudo do Al-Hilal costurado na caneleira direita. O paradoxo é cruel: ele foi contratado para defender um time e usou o gol para declarar lealdade a outro. O restante da história é uma consequência lógica que o jogador, provavelmente, já sabia que viria.
O clássico saudita que virou palco de uma declaração de amor errada
O Campeonato Saudita de 2025-2026 tem sido um dos mais assistidos fora do mundo árabe, em grande parte pela presença de Cristiano Ronaldo no Al-Nassr e pelo nível de investimento que transformou a liga num destino de peso. O clássico entre Al-Shabab e Al-Nassr carrega essa aura — uma partida que circula nas redes sociais europeias com naturalidade que seria impensável há dez anos. Foi nesse ambiente amplificado que Al-Bulaihi fez sua escolha, e o placar final de 4 a 2 para o Al-Nassr tornou tudo ainda mais amargo: além de perder, o Al-Shabab viu um de seus jogadores usar o campo como tribuna para o rival histórico.
Al-Bulaihi não é um personagem sem história no futebol saudita. Zagueiro de carreira consolidada no Al-Hilal, ele ficou famoso pelos embates físicos com Cristiano Ronaldo desde a chegada do português ao Al-Nassr, em janeiro de 2023. Era, até então, um símbolo da rivalidade entre os dois maiores clubes da Arábia Saudita. Emprestado ao Al-Shabab, ele carregou consigo essa identidade — e não conseguiu, ou não quis, deixá-la do lado de fora do estádio… e aí vem o problema.
A reação da torcida do Al-Shabab e a pressão que derrubou o empréstimo
As redes sociais sauditas reagiram em minutos. Torcedores do Al-Shabab publicaram capturas do momento em que Al-Bulaihi ergueu a caneleira — um gesto de segundos que se transformou em prova documental de deslealdade. A pressão organizada nas plataformas digitais chegou à diretoria do clube com velocidade que lembra episódios europeus bem documentados: em 2005, quando Luis Figo ainda sofria com o clássico da cabeça de porco no Camp Nou quatro anos depois, ou quando Nicolas Anelka foi punido pelo Chelsea em 2012 após o gesto polêmico na Copa do Mundo dois anos antes — as torcidas modernas não esquecem, e os dirigentes aprenderam a escutá-las.
Segundo o jornal saudita Arriyadiyah, um dos principais veículos esportivos do país, a diretoria do Al-Shabab decidiu afastar Al-Bulaihi imediatamente e comunicou que não pretende mantê-lo para a temporada 2026-2027. A decisão foi rápida porque a situação não deixava margem para ambiguidade: um jogador emprestado que usa um gol para promover o clube de origem é, institucionalmente, indefensável.
"WE'VE NEVER SEEN ANYTHING LIKE THIS? WHAT IS GOING ON IN SAUDI LEAGUE?" — reação viral de torcedores nas redes sociais após o vídeo da comemoração circular internacionalmente.
O episódio ultrapassou as fronteiras sauditas. Veículos portugueses como o MaisFutebol reproduziram o vídeo da comemoração, e a cena ganhou circulação em fóruns e perfis especializados na Europa. Esse alcance internacional é, ele próprio, um dado relevante: a Saudi Pro League já tem audiência suficiente para que seus escândalos viajem.
O que a carreira de Al-Bulaihi no Al-Hilal ganha e perde com tudo isso
Há uma leitura otimista, da perspectiva do jogador: ao exibir a caneleira do Al-Hilal, Al-Bulaihi sinalizou ao seu clube de origem que a lealdade permanece intacta. Em contextos de renovação contratual, esse tipo de gesto pode ter peso simbólico. Mas a leitura pragmática é menos generosa — um zagueiro de 33 anos que encerra um empréstimo em conflito com a diretoria anfitriã não chega ao mercado com o currículo fortalecido.
A história do futebol europeu registra casos similares de jogadores que, em transições de empréstimo, deixaram rastros de ambiguidade que custaram caro. Robin van Persie, em 2012, escreveu uma carta aberta declarando que não renovaria com o Arsenal antes de assinar com o Manchester United — e foi vaiado até o fim da carreira pelos torcedores gunners. A escala é diferente, mas o mecanismo psicológico é o mesmo: torcidas lembram de quem as tratou como coadjuvante.
Segundo o Arriyadiyah, a diretoria do Al-Shabab "não pretende manter o jogador para a próxima temporada" — comunicado que, na prática, encerrou qualquer negociação antes que ela começasse.
Al-Bulaihi pertence ao Al-Hilal e retornará ao clube assim que o empréstimo se encerrar. O que ele encontrará lá é uma incógnita: um elenco renovado, uma comissão técnica que pode ou não contar com um zagueiro que virou notícia internacional por razões extracampo. O afastamento pelo Al-Shabab não é uma suspensão oficial, mas funciona como uma mancha no prontuário — e no futebol moderno, onde os relatórios de departamentos de análise incluem comportamento e imagem, isso tem peso mensurável.
No futebol, como numa composição musical, a nota certa no momento errado não é harmonia — é dissonância. Al-Bulaihi tocou a nota do Al-Hilal numa partitura que pedia o Al-Shabab, e o resultado foi exatamente o que qualquer maestro experiente preveria: o músico foi retirado do palco antes do fim do concerto.








