Confesso: eu errei sobre Alan Patrick em 2024. Achei que um meia de 33 anos, saído de uma liga em colapso por causa da guerra na Ucrânia, não teria fôlego para ser protagonista no Brasileirão Série A de 2026. Os números desta temporada me desmentem com uma clareza que não deixa espaço para argumento.

Onde ele está no jogo global

Alan Patrick Lourenço nasceu em Catanduva, interior paulista, em 13 de agosto de 1991, e chegou ao futebol profissional pelo Santos ainda adolescente. Aos 18 anos, já estava na disputa pelo Campeonato Paulista de 2010 — título que conquistou — e em seguida viria a Copa do Brasil do mesmo ano. Em 2011, com apenas 19 anos, levantou a Copa Libertadores da América com a camisa santista, competição que define gerações.

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A janela para a Europa abriu naquele mesmo ano: o Shakhtar Donetsk o contratou e o meia passou a maior parte da sua fase de maturação fora do Brasil. Ao todo, acumulou seis títulos da Primeira Liga Ucraniana (2011–12, 2012–13, 2016–17, 2017–18, 2018–19 e 2019–20), cinco Copas da Ucrânia e duas Supercopas (2017 e 2021). São números que poucos meias brasileiros da sua geração podem apresentar em uma liga europeia.

Onde ele está no jogo global Alan Patrick e os 11 gols que recolocara
Onde ele está no jogo global Alan Patrick e os 11 gols que recolocara

No intervalo ucraniano, houve uma passagem pelo Internacional em 2014 — com o Gaúcho daquele ano no currículo — e pelo Palmeiras em 2015, quando somou mais uma Copa do Brasil à sua coleção. Essa mobilidade entre Brasil e Europa, entre competições continentais e nacionais, construiu um perfil raro: o de um meia que foi testado em diferentes contextos táticos e sobreviveu a todos eles.

O que os números dizem na comparação

Na temporada atual de 2026, Alan Patrick registra 30 jogos disputados pelo Internacional, com 11 gols marcados e 7 assistências distribuídas. São 18 participações diretas em gols — um volume que poucos meias do Brasileirão Série A conseguem sustentar ao longo de uma temporada completa, independentemente da faixa etária.

Para contextualizar: um meia que combina duplo dígito em gols com sete assistências em 30 partidas está operando numa faixa de produção que rivaliza com atacantes de referência. A média se aproxima de uma participação em gol a cada 1,67 jogo — ritmo de titular indiscutível, não de peça de rotação.

O dado mais revelador, porém, é o equilíbrio entre as duas colunas. Meias que chegam a 11 gols frequentemente sacrificam a criação; os que acumulam sete assistências raramente chegam perto dos dois dígitos em finalizações convertidas. Alan Patrick faz as duas coisas ao mesmo tempo, o que o coloca numa categoria de meia completo que o futebol brasileiro tem produzido cada vez menos.

Onde ele se distingue dos rivais

O diferencial de Alan Patrick não é velocidade — nunca foi. Aos 175 cm e 70 kg, ele sempre dependeu de leitura de jogo e técnica de passe para criar vantagens onde outros precisariam de explosão física. Essa característica, que em tese deveria ser uma limitação à medida que o jogador envelhece, na prática se torna um trunfo: a inteligência posicional não decai na mesma curva que o físico.

Sua formação no Shakhtar Donetsk — clube historicamente associado ao futebol de toque e à valorização de meias técnicos — moldou um estilo que combina chute de média distância com passe entre linhas. São recursos que funcionam independentemente do ritmo da partida, o que explica por que ele consegue ser decisivo mesmo em jogos onde o Inter não domina a posse, como ficou evidente na análise do confronto contra o Mirassol em abril de 2026, quando a equipe gaúcha foi pressionada com apenas 35% de posse.

A passagem pela Seleção Brasileira de base também é um dado formativo relevante. Em 2011, foi campeão do Sul-Americano Sub-20 e do Mundial da categoria no mesmo ano — dois títulos que exigem consistência técnica e maturidade tática de um jogador ainda em desenvolvimento. Esse histórico de alta performance em competições de pressão máxima deixou marcas no perfil competitivo que ele ainda demonstra em campo.

A trajetória que aponta o teto

Aos 34 anos, Alan Patrick não é mais um projeto — é um produto acabado. A pergunta que se faz sobre ele agora não é de potencial, mas de longevidade e de como o Internacional vai gerir esse ativo nos próximos meses. Com o Brasileirão 2026 em curso e o Inter de volta ao campo onde, segundo a imprensa especializada, nasceu o que a torcida chama de "milagre" — referência à fase recente da equipe —, o camisa 10 está no centro de uma disputa que pode definir o título ou a posição final do clube na tabela.

O cenário mais realista para os próximos 12 meses é de manutenção de protagonismo, desde que o clube gerencie sua carga de minutos com inteligência. Meias técnicos nessa faixa etária tendem a manter produção quando poupados de sequências densas de jogos — e o calendário brasileiro, com seus ciclos de três partidas por semana, é o maior risco para qualquer atleta acima dos 32 anos.

O que os dados de 2026 mostram, em matéria do SportNavo, é que Alan Patrick ainda não está em modo de despedida. Está em modo de entrega. E 11 gols em 30 jogos, com sete assistências, é a prova mais objetiva que existe de que o camisa 10 do Inter ainda tem muito a dizer neste Brasileirão.

Alan Patrick não está na reta final — está na melhor fase da sua vida no Inter.