A última vez que o futebol brasileiro precisou ressignificar o que é coragem dentro de um gramado foi na noite de 28 de novembro de 2016, quando as notícias de Medellín chegaram como um choque elétrico em todo o país. Naquela mesma noite, entre os escombros do Voo 2933 da LaMia nos arredores do Aeroporto José María Córdova, Alan Ruschel foi retirado com vida — e com uma fratura na décima vértebra da coluna que colocou sobre a mesa a possibilidade de tetraplegia. Não aconteceu. Ele voltou. E ainda está aqui, aos 36 anos, vestindo a camisa 28 do Juventude no Brasileirão Série A de 2026.

Nascido em Nova Hartz, no Rio Grande do Sul, em 23 de agosto de 1989, Alan Luciano Ruschel construiu uma carreira que, mesmo sem o peso trágico que a tornaria mundialmente conhecida, já teria substância suficiente para merecer atenção. Campeão gaúcho pelo Internacional em 2014 e 2015, campeão paranaense pelo Athletico em 2016, vencedor do Campeonato Catarinense pela Chapecoense em 2016, 2017 e 2020, além da Copa Sul-Americana de 2016 e da Série B de 2020 com o mesmo clube — a lista é de um zagueiro que sempre encontrou forma de ser relevante onde esteve.

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Se ele for transferido neste mercado

Com apenas uma aparição registrada na temporada atual pelo Juventude — um dado que, isolado, pode enganar quem não conhece a lógica de rotatividade de um elenco de Série A —, Ruschel está tecnicamente disponível para um mercado que, em julho de 2026, começa a movimentar peças para o segundo semestre. Um zagueiro de 36 anos, 175 cm e 72 kg não é o perfil que domina as manchetes de transferência. Mas há contexto aqui: em 2024, ele disputou 28 jogos pela Série A com o Juventude, marcou um gol e contribuiu com uma assistência — números que, para um zagueiro nessa faixa etária, representam presença e consistência, não apagamento. Se algum clube da Série B ou de uma liga estadual de maior volume de minutos o buscar nesta janela, Ruschel teria argumentos concretos para aceitar: jogaria mais, manteria ritmo e poderia encerrar a carreira com a dignidade de quem escolheu o próprio tempo de parar.

Para efeito de comparação, em 2023 ele somou 32 partidas pela Série B com o Juventude, marcando três gols — mais do que muitos zagueiros titulares de clubes que terminaram aquela edição na zona de rebaixamento. Um zagueiro que marca três gols em 32 jogos de Série B entrega, em termos ofensivos, o equivalente ao que toda a defesa de alguns clubes produz em bolas paradas durante uma temporada inteira.

Se permanecer no clube atual

O Juventude tem uma história particular com Alan Ruschel que antecede a tragédia e o retorno épico. Foi pelo clube de Caxias do Sul que ele conquistou a Copa FGF em 2012 — um título regional que marca o início de sua afirmação como profissional. Permanecer no Juventude em 2026 significa aceitar um papel de reserva experiente, de liderança de vestiário, de jogador que está ali tanto pelo que faz quanto pelo que representa. Em agosto de 2017, quando retornou aos gramados em uma partida contra o Barcelona — menos de um ano após o acidente que quase o paralisou —, Ruschel jogou 35 minutos e saiu entre aplausos. Aquele jogo foi uma declaração de existência, não apenas de forma física.

Se permanecer no Juventude até o fim de 2026, ele terá completado uma segunda fase de carreira inteiramente construída sobre a base de uma sobrevivência. Em maio de 2026, a imprensa esportiva brasileira ainda revisitava o tema — uma reportagem sobre os oito anos do acidente circulou amplamente, recolocando Ruschel no centro de uma narrativa que o futebol brasileiro não consegue, nem deveria, esquecer. Permanecer no clube é, nesse sentido, também uma escolha de narrativa.

Se mudar de função tática

Ruschel sempre foi um zagueiro de características mais voltadas à marcação do que ao jogo aéreo — algo que seus 175 cm de altura tornam compreensível sem que isso signifique limitação. No futebol moderno, zagueiros com perfil de saída de bola e leitura posicional encontram espaço em sistemas de três defensores, onde a velocidade de decisão compensa a desvantagem física em duelos aéreos. Se algum treinador decidir usá-lo como terceiro zagueiro em uma linha de três, ou mesmo como volante recuado em momentos de pressão — função que alguns jogadores de sua geração assumiram ao chegar perto dos 37 anos —, Ruschel teria condições físicas de corresponder. Sua trajetória por Internacional, Athletico, Chapecoense, Londrina e Juventude demonstra adaptabilidade a diferentes contextos táticos e geográficos.

A passagem pelo Londrina em 2022, com 27 partidas disputadas, é o dado mais recente que temos de um período fora do Juventude — e mostra que, mesmo em um clube sem a estrutura dos grandes, ele manteve produção e regularidade. Mudar de função tática não seria uma capitulação, mas uma evolução natural para quem já provou que a resiliência é, antes de tudo, uma habilidade técnica.

O cenário mais provável dos três

O cenário mais realista, lendo os dados disponíveis com honestidade, é a permanência no Juventude com participação seletiva — exatamente o que a temporada atual sugere. Um jogo disputado não é ausência; é gestão. Clubes que chegam ao segundo semestre da Série A com elencos equilibrados precisam de jogadores como Ruschel: experientes o suficiente para não se perderem sob pressão, comprometidos o suficiente para não reclamarem do banco, e simbólicos o suficiente para manterem um padrão de cultura interna que dinheiro nenhum compra no mercado de transferências.

Aos 36 anos — ele completa 37 em agosto de 2026 —, Alan Ruschel não está em fim de carreira porque perdeu qualidade; está em fim de carreira porque toda carreira termina. A diferença é que a dele carrega um peso que pouquíssimos atletas na história do futebol mundial chegaram a conhecer. Seis sobreviventes. Uma fratura na coluna. Um retorno em agosto de 2017. Três gols na Série B de 2023. Uma aparição na Série A de 2026. Cada número é, à sua maneira, um milagre documentado.

Alan Ruschel (Juventude)
Alan Ruschel (Juventude)

Para quem acompanha o Juventude neste segundo semestre, a próxima vez que Alan Ruschel entrar em campo — seja na próxima rodada do Brasileirão, seja em uma Copa do Brasil — vale parar o que estiver fazendo e assistir. Não por nostalgia. Por respeito ao que um homem pode fazer quando decide, contra toda probabilidade, continuar.