Três títulos de Roland Garros em três anos consecutivos seria um capítulo épico na jovem carreira de Carlos Alcaraz. A narrativa, porém, foi interrompida por um tendão inflamado no punho direito — a tenossinovite de De Quervain —, lesão silenciosa que surgiu na estreia do Barcelona e se revelou grave o suficiente para tirar o número 2 do mundo de toda a temporada europeia no saibro. A desistência foi confirmada na sexta-feira, dia 24, e o comunicado do próprio espanhol soou como um backhand defensivo: "Este é um momento difícil para mim, mas tenho certeza de que sairemos dele mais fortes."

O que a lesão representa clinicamente

A tenossinovite de De Quervain afeta os tendões que percorrem a região do polegar, estrutura absolutamente central para um tenista que constrói seus pontos a partir de forehand potente e variações de spin. O especialista em cirurgia ortopédica José Luis Martínez Romero, consultado pelo jornal Marca, traçou o espectro completo da lesão: em casos agudos, a recuperação oscila entre quatro e seis semanas; quando o quadro é persistente — e tudo indica que o de Alcaraz já carregava sinais antes de Barcelona —, o afastamento pode se estender de três a seis meses. Seis meses colocaria o espanhol de volta às quadras apenas em novembro, varrendo da sua temporada Roland Garros, Wimbledon e parte do US Open.

O próprio Alcaraz, ao se retirar do Aberto de Madri na mesma semana, admitiu que os exames de imagem revelaram um quadro "mais sério do que se pensava inicialmente". A equipe do espanhol não divulgou o diagnóstico oficial, mas a sequência de desistências — Barcelona, Madri, Roma e, agora, Roland Garros — deixa evidente que o tratamento exige repouso total, imobilização e fisioterapia intensiva antes de qualquer raquete voltar à mão direita.

Corretja alerta e Roddick pede paciência

Alex Corretja, ex-finalista de Roland Garros e uma das vozes mais respeitadas do tênis espanhol, foi criterioso ao analisar o caso durante entrevista ao programa El Larguero. Ao lado de Feliciano Lopez, ele ponderou sobre os desafios específicos da temporada de grama — exatamente o próximo destino de Alcaraz.

"Precisamos ser extremamente pacientes. Por enquanto, precisamos nos concentrar no dia a dia, deixar o tendão cicatrizar o melhor possível e não definir uma data específica. Na grama, às vezes, você faz movimentos errados, recebe saques ainda mais rápidos e isso pode machucar o pulso", disse Corretja.

A preocupação de Corretja com a superfície de Wimbledon não é retórica: a grama exige reações explosivas e ajustes de punho em frações de segundo, movimentos que sobrecarregam exatamente a região lesionada. O ex-tenista admitiu não ter certeza sobre a presença do espanhol no terceiro Grand Slam da temporada, afirmando que as decisões da equipe de Alcaraz parecem seguir um calendário cauteloso — e que isso é o correto.

O que a lesão representa clinicamente Alcaraz fora de Roland Garros abre brech
O que a lesão representa clinicamente Alcaraz fora de Roland Garros abre brech

Do outro lado do Atlântico, Andy Roddick, campeão do US Open de 2003, usou seu podcast Served with Andy Roddick para defender uma visão ainda mais pragmática do cenário.

"Eu nunca questiono um jogador por pensar no longo prazo quando se trata de uma lesão. A maior prioridade para ele agora é a saúde. Se você é o Alcaraz, por que arriscar qualquer coisa? Se Roma e Roland Garros estão fora neste ano, é preciso pensar nos próximos dez anos, não no próximo mês", afirmou Roddick.

O impacto no ranking e a janela aberta para Sinner

A análise do SportNavo mostra que as consequências no ranking ATP são imediatas e cirúrgicas. Alcaraz defende neste Roland Garros os 2.000 pontos da vitória de 2025 — uma final épica de 5h29min contra Jannik Sinner, em que o espanhol salvou três match points antes de cruzar a linha. Sem entrar em quadra em Paris, ele perde esse pacote integralmente, o que, somado à ausência em Roma (Masters 1000), representa uma sangria considerável de pontos acumulados nos 12 meses anteriores.

Sinner, atual número 1 do mundo, vê a ausência do rival como uma oportunidade concreta de completar o Career Slam em Paris — ele ainda não tem um título em Roland Garros. Com Alcaraz fora e defendendo pontos nulos, a distância entre os dois no ranking pode se ampliar de forma significativa nas próximas semanas, especialmente se o italiano avançar às fases finais do torneio.

Wimbledon como meta e o cenário de retorno

A corrida agora é Wimbledon, marcado para início de julho. Alcaraz, bicampeão do torneio inglês em 2023 e 2024, tem em Church Road um território onde transforma drop shots em obras de geometria e constrói pontos com a fluidez de quem domina a grama como poucos da sua geração. Perder o Grand Slam londrino seria o golpe mais sensível — tanto emocional quanto no ranking, já que ele também defenderia pontos de títulos anteriores.

O próprio Corretja estipulou um horizonte de aproximadamente um mês e meio de afastamento antes de sequer avaliar a retomada de treinos — o que encaixaria o retorno às quadras de treinamento em meados de junho, com pouco ou nenhum tempo de rodagem antes do início de Wimbledon. Roddick reforçou a mesma lógica: "A saúde dele vem antes de qualquer título agora." Alcaraz iniciou a temporada com títulos no Australian Open e no ATP 500 de Doha, sinais de que quando o punho estiver curado, a qualidade de jogo permanece intacta. O espanhol de 22 anos tem sete títulos de Grand Slam e, como Roddick advertiu, décadas pela frente — o que transforma qualquer pressa em risco desproporcional.