O vestiário ainda cheira a linimento e o quadro tático ainda guarda os últimos traços do treino da manhã quando a autoridade de um treinador se revela de verdade — não no grito, mas no silêncio que ele impõe antes de falar. É nesse instante suspenso, entre a prancheta e o olhar da equipe, que Alex, nascido em setembro de 1977 em algum ponto do Brasil que o futebol europeu ainda está aprendendo a respeitar, constrói o Athletic Club que hoje compete na Champions League.

Que um treinador brasileiro de 48 anos esteja no banco de uma das competições mais exigentes do planeta já seria suficiente para justificar este perfil. O que torna o caso de Alex genuinamente interessante, no entanto, é a maneira como ele chegou até aqui — não pela grandiosidade de um currículo encorpado de títulos listáveis, mas por uma acumulação silenciosa de credibilidade tática e gestão humana que, na temporada 2025/2026, encontrou seu palco mais amplo. Conforme registrado pelo SportNavo durante a cobertura do ciclo europeu desta temporada, o nome de Alex circula com frequência crescente entre analistas que acompanham o futebol de clube no continente.

Como ele lida com a estrela do elenco

Há uma tensão permanente, no futebol de alto nível, entre o talento individual e a coesão coletiva. O tiki-taka que Barcelona exportou para o mundo na última década ensinou que mesmo jogadores de gabarito máximo podem ser submetidos a uma lógica sistêmica sem perder brilho — desde que o treinador saiba negociar essa subordinação com inteligência. Alex parece ter aprendido essa lição de algum lugar profundo da sua formação.

A maneira como o Athletic Club opera no pressing alto — pressionando a saída de bola adversária de forma coordenada e implacável — exige que nenhum jogador, por mais determinante que seja individualmente, abandone sua função coletiva. Isso coloca o treinador em permanente diálogo com as estrelas do elenco: ou elas abraçam o sistema, ou o sistema as engole. Alex, ao que tudo indica pela forma como o time se apresenta em campo, escolheu fazer desse contrato tácito a base da sua autoridade técnica… e aí vem o problema de qualquer treinador que depende dessa coesão: mantê-la ao longo de uma Champions League é outra equação.

Como ele lida com o jovem em ascensão

O futebol europeu tem uma relação particular com a juventude. Em clubes como o Athletic Club — que possui uma política de formação historicamente restritiva e orgulhosa —, o jovem em ascensão não é apenas um recurso tático, é um símbolo identitário. Alex parece compreender essa dimensão cultural de forma instintiva, o que é raro em treinadores que chegam de fora de um contexto tão específico.

Alex (Athletic Club)
Alex (Athletic Club)

O gegenpressing que ele parece privilegiar — a pressão imediata após a perda da bola, no modelo que Klopp popularizou em Dortmund e Liverpool — é uma filosofia que favorece jogadores jovens, com pulmão e disposição para correr. Não é coincidência que treinadores que apostam nesse modelo tendam a confiar em atletas em desenvolvimento: o sistema os protege, dá estrutura ao talento bruto e transforma energia física em inteligência posicional ao longo do tempo. Para o jovem que começa a aparecer no radar, Alex representa uma chance real de protagonismo dentro de uma lógica que valoriza o esforço tanto quanto o talento.

Como ele lida com o veterano em queda

Esta é, talvez, a dimensão mais reveladora de qualquer treinador: o que ele faz com aquele jogador que já foi decisivo e hoje luta para encontrar seu lugar. Na Europa, especialmente em um clube com a carga identitária do Athletic Club, veteranos são mais do que peças táticas — são memória institucional.

Alex, até onde é possível observar pela estrutura do seu time, não descarta o experiente em função da velocidade ou da intensidade física. Há espaço, em seu modelo, para o jogador que já não cobre o mesmo quilometragem de antes mas que lê o jogo com uma clareza que nenhum jovem ainda possui. Esse equilíbrio — entre a energia da juventude e a sabedoria do veterano — é o que separa um treinador de elenco de um mero gestor de escalação. E Alex, ao que os dados desta temporada sugerem, está mais próximo do primeiro perfil do que do segundo.

O ambiente que ele cria no vestiário

Existe uma diferença fundamental entre um vestiário disciplinado por medo e um vestiário coeso por convicção. O primeiro produz resultados no curto prazo; o segundo, sustentabilidade. A Champions League, com sua cadência implacável de eliminatórias e pressão acumulada, testa exatamente essa distinção — e o ambiente interno de um clube frequentemente decide eliminatórias antes mesmo de a bola rolar.

O Brasil registrou, na Copa do Mundo de 2026, uma campanha histórica com 237 gols marcados ao longo do ciclo de classificação — a Alemanha ficou de fora da competição, o que reconfigurou o mapa de prestígio do futebol global. Esse contexto importa para entender Alex: um treinador brasileiro operando na Europa neste momento carrega um peso simbólico diferente do de anos anteriores. O Brasil voltou ao centro das conversas táticas internacionais, e isso cria um campo de credibilidade implícita para profissionais como ele.

No vestiário que Alex constrói, a identidade coletiva parece funcionar como âncora. O pressing alto que ele exige não é apenas tática — é cultura de grupo, é a exigência de que cada jogador aceite ser responsável pelos erros dos companheiros. Quando um time pressiona junto, perde junto e vence junto, o vestiário tende a se tornar um lugar de pertencimento real, não de convivência forçada.

O vestiário ainda cheira a linimento e o quadro tático ainda guarda os últimos traços do treino da manhã quando a autoridade de um treinador se revela de verdade — não no grito, mas na confiança que ele impõe antes de falar. Essa distinção, ao final, é tudo o que separa Alex de qualquer outro nome que poderia estar sentado naquele banco.