Confesso: eu errei sobre Alisha Lehmann em 2023. Quando a vi explodir no Instagram com 10 milhões de seguidores enquanto ainda atuava pelo Aston Villa, escrevi que a popularidade dela seria passageira — o tipo de fenômeno digital que o campo rapidamente corrige. Hoje, em maio de 2026, com ela recebendo o prêmio de melhor jogadora do Leicester City após 9 jogos e um único gol em 415 minutos, vejo que errei a questão. Não era sobre duração. Era sobre o que o futebol moderno decidiu valorizar.

O prêmio que ninguém esperava — e os números que o explicam

A votação organizada pelo Leicester para eleger a melhor jogadora da temporada 2025/2026 da WSL recebeu mais de 20 mil votos dos torcedores. Lehmann venceu com folga. Seu único gol — marcado em 26 de março numa derrota por 2 a 1 para o Aston Villa, justamente o clube onde ela construiu sua fama europeia — foi eleito também o mais bonito da temporada. Duas categorias, um gol, nove jogos. A matemática do campo não fecha. A matemática das redes, sim: a suíça de 27 anos acumula 15,5 milhões de seguidores no Instagram, o maior número entre todas as jogadoras de futebol no mundo.

O jornal espanhol AS foi um dos primeiros a noticiar o desconforto gerado pela premiação, descrevendo a reação como de "surpresa" dentro e fora da Inglaterra. O incômodo tem razão de ser: o Leicester encerrou a temporada em último lugar na WSL, com apenas 9 pontos — 2 vitórias, 3 empates e 16 derrotas —, já rebaixado antes da última rodada contra o Everton, marcada para 16 de maio. A equipe ainda terá de disputar um playoff contra o Charlton Athletic, terceiro colocado da segunda divisão inglesa, para tentar manter uma vaga na elite em 2026/2027.

Lehmann chegou ao Leicester em janeiro de 2026, após passagens que o portal SportNavo já havia acompanhado de perto: primeiro pela Juventus, depois pelo Como da Itália — clube que, coincidentemente, também amargou a última posição na Serie A feminina italiana. O técnico Rick Passmoor a manteve no banco na estreia, depois a escalou titular por cinco rodadas e a devolveu ao banco na derrota por 3 a 1 para o Chelsea, quando ela entrou apenas no segundo tempo. Não é o currículo de uma temporada notável.

A lógica da popularidade não nasceu com as redes sociais

Antes de jogar pedras, convém lembrar que o peso da popularidade sobre premiações esportivas não é invenção do Instagram. Na temporada 1995/1996, o Manchester United de Eric Cantona foi eleito clube do ano pela imprensa inglesa mesmo sem conquistar título algum — a personalidade do francês dominava a cobertura jornalística de uma forma que os números em campo não justificavam plenamente. Na Bola de Ouro de 1999, Rivaldo levou o prêmio num ano em que Andriy Shevchenko havia feito uma campanha estatisticamente superior pela Champions League. A subjetividade sempre esteve lá; o que mudou é o volume e a velocidade com que ela opera.

Há um paralelo cinematográfico que encaixa aqui com precisão desconfortável. Em Moneyball — o filme de 2011 baseado na revolução analítica do Oakland Athletics —, Brad Pitt encarna um gerente que tenta substituir o "olhômetro" por dados. A resistência que ele encontra dos scouts tradicionais é a mesma tensão que o futebol feminino vive agora, só que invertida: o "olhômetro" foi substituído pelo contador de likes, e são os defensores do mérito em campo que precisam brigar contra a corrente.

O prêmio que ninguém esperava — e os números que o explicam Alisha Lehmann vence
O prêmio que ninguém esperava — e os números que o explicam Alisha Lehmann vence

Prêmios decididos por voto popular têm histórico de distorção em múltiplos esportes. Na NBA, a torcida já elegeu reservas para o All-Star Game por força de campanhas organizadas nas redes. No futebol masculino, a eleição do melhor da temporada em clubes menores frequentemente premia o jogador mais carismático, não o mais determinante. A diferença no caso de Lehmann é que o contraste entre visibilidade e contribuição raramente foi tão gritante: um gol, em um clube rebaixado, em menos de um terço das partidas da temporada.

Atleta ou ícone — e se a resposta for as duas coisas ao mesmo tempo

A narrativa dominante sobre Lehmann é simples: ela é influenciadora que joga futebol, não jogadora que influencia. Os números da temporada alimentam essa leitura. Mas a contra-narrativa também tem peso. A suíça foi contratada pelo Leicester em janeiro justamente porque o clube precisava de visibilidade, engajamento e tração comercial numa temporada que já caminhava para o rebaixamento. Nenhuma diretoria assina uma jogadora com 15 milhões de seguidores pensando apenas em esquema tático. O contrato foi, desde o início, um investimento de marca tanto quanto esportivo.

Lehmann, por sua vez, declarou publicamente que a mudança para o Leicester visava também recuperar espaço na seleção suíça antes da Copa do Mundo de 2027, que será realizada no Brasil. Ou seja, ela tem objetivos atléticos concretos — e o caminho que escolheu para alcançá-los passa por manter a visibilidade acesa enquanto busca consistência em campo. É uma estratégia de carreira discutível, mas não incoerente.

A síntese honesta é que o problema não é Lehmann. Ela não organizou a votação, não inventou os critérios e não pediu para ter 15 milhões de seguidores — construiu isso ao longo de anos com um trabalho de imagem que, independentemente de opiniões, é profissional e deliberado. O problema real é que o Leicester adotou um formato de premiação — voto popular aberto — que, num clube com uma torcedora tão digitalmente dominante, produz exatamente esse resultado. A instituição escolheu a ferramenta. A ferramenta deu o resultado que a ferramenta sempre dá.

Enquanto o debate não se resolve, os fatos do campo seguem seu curso. O Leicester enfrenta o Everton no dia 16 de maio pela última rodada da WSL e, independentemente do resultado, já está rebaixado. No fim de maio, a equipe disputa o playoff de permanência contra o Charlton Athletic — e aí não haverá votação popular. Só jogo, placar e consequência. Alisha Lehmann, com ou sem troféu de melhor da temporada na prateleira, precisará decidir se vai estar em campo quando o Leicester mais precisar dela.

Um prêmio conquistado por popularidade numa temporada de rebaixamento é como um prato lindamente emplatado num restaurante que fechou as portas: a apresentação impressiona, mas não alimenta ninguém.