Alisson Becker soma 16 jogos perdidos pelo Liverpool na temporada 2024/25 por lesões musculares — dois ciclos de afastamento, o primeiro entre outubro e novembro, o segundo desde março. A menos de 50 dias da estreia do Brasil na Copa do Mundo, o goleiro de 33 anos ainda não voltou ao campo, embora haja perspectiva de retorno ao clube ainda neste mês. Do outro lado da balança, Ederson, que sempre funcionou como a mais segura das alternativas, atravessa sua pior sequência de confiabilidade em anos. Carlo Ancelotti tem um problema real no gol — e o tempo para resolvê-lo está se esgotando.

O histórico de Alisson e o risco muscular que não some

Desde que se consolidou como titular absoluto da seleção nos ciclos da Copa do Qatar e da Copa da Rússia, Alisson construiu um retrospecto defensivo de alto nível. No entanto, a coxa direita tem sido seu calcanhar de Aquiles recorrente. Na temporada atual, os dois períodos de afastamento custaram ao Liverpool ao menos 16 partidas — uma frequência que acende alertas sobre sua disponibilidade para o torneio mais longo da carreira de um goleiro. A lesão atual não é grave o suficiente para descartá-lo do Mundial, mas a recorrência do problema muscular levanta uma questão técnica legítima: um goleiro que saiu de campo duas vezes na mesma temporada com a mesma lesão pode ser considerado opção blindada para uma Copa do Mundo?

Conforme levantamento do SportNavo, Alisson ainda detém vantagem estatística sobre todos os goleiros convocáveis pelo Brasil quando se analisa o índice de defesas difíceis por jogo nas últimas três temporadas completas da Premier League. Mas dados de disponibilidade física também integram qualquer análise séria de convocação — e aqui o número de 16 jogos perdidos em uma única temporada pesa contra ele.

Ederson, o Fenerbahçe e o descalabro no clássico

O ex-Manchester City trocou a Premier League pelo futebol turco no início da temporada 2024/25 e a adaptação não tem sido tranquila. Duas semanas antes deste artigo, Ederson errou o tempo de saída em um cruzamento, colidiu com um companheiro de equipe e cedeu o empate ao modesto Rizespor aos 53 minutos do segundo tempo. No clássico seguinte contra o Galatasaray, o cenário foi ainda pior: o goleiro perdeu o controle emocional após a marcação de um pênalti, foi expulso e o Fenerbahçe sofreu derrota por 3 a 0 — resultado que deixou o clube em situação delicada na disputa pelo título turco.

A sequência negativa de Ederson não cancela sua carreira. Entre 2017 e 2024 no Manchester City, ele acumulou cinco títulos da Premier League, foi eleito o melhor goleiro da liga em múltiplas temporadas e apresentou médias de gols sofridos por jogo consistentemente abaixo de 1,0. Mas o futebol turco, com intensidade e nível técnico distintos da Inglaterra, tem exposto fragilidades na leitura de jogo do goleiro de 31 anos que não apareciam no ambiente controlado de Guardiola.

"Ederson tem tudo para ser um dos melhores goleiros do mundo, mas a fase dele no Fenerbahçe levanta perguntas que precisam ser respondidas antes do Mundial", avaliou colunista da UOL Esporte ao analisar o desempenho do goleiro na Turquia.

Bento e Hugo Souza — a terceira vaga e suas limitações

Com o quadro instável dos dois titulares, os nomes de Bento, do Al-Nassr, e Hugo Souza, do Corinthians, ganham relevância para a terceira posição na lista dos convocados. Os dois, no entanto, ainda estão muito aquém do nível exigido para assumir uma Copa. Nenhum deles atingiu a marca de dez partidas pela seleção adulta — o corintiano disputou apenas uma partida pelo time principal da CBF. Ambos seriam estreantes em Mundiais, o que inviabiliza qualquer debate sobre colocá-los na meta em um torneio desta magnitude.

A análise do SportNavo aponta que o Brasil não tem, fora do eixo Alisson-Ederson, um terceiro goleiro com histórico minimamente consolidado em competições de alto nível pela seleção. Bento tem mais jogos com a Canarinho do que Hugo Souza, mas sua trajetória no Al-Nassr — clube da Arábia Saudita com nível competitivo questionável na Liga dos Campeões da AFC — também não oferece parâmetros confiáveis de desempenho em pressão máxima.

O cronograma de Ancelotti e as janelas de decisão

A lista definitiva dos 26 convocados para a Copa do Mundo será anunciada em 18 de maio. Antes da estreia no torneio, o Brasil realizará dois amistosos preparatórios: contra o Panamá, em 31 de maio, no Maracanã, e contra o Egito, em 6 de junho, em Cleveland. Ancelotti sinalizou que utilizará nesses dois jogos exatamente o elenco que levará ao Mundial, o que significa que a escolha entre Alisson e Ederson precisa estar resolvida antes mesmo do duelo contra o Panamá.

"Esses jogos preparatórios são os últimos testes reais antes da Copa. Ancelotti vai usar esses 180 minutos para tomar decisões definitivas", declarou fonte próxima à comissão técnica da CBF, segundo relato da UOL Esporte.

Se Alisson estiver fisicamente disponível e retornar ao Liverpool ainda em maio, o histórico e o nível técnico falam por ele — três edições de Copa do Mundo no currículo e solidez comprovada nas melhores temporadas da Premier League são argumentos difíceis de rebater. Mas Ancelotti precisará monitorar de perto o goleiro nas próximas semanas: um novo episódio muscular entre agora e o início do torneio tornaria Ederson o titular por força das circunstâncias, falhas recentes incluídas. O amistoso de 31 de maio contra o Panamá, no Maracanã, será o primeiro termômetro real de quem Ancelotti enxerga como sua primeira opção para o gol do Brasil.