Quando o nome de Allan McNish foi confirmado como novo diretor de corrida da Audi na Fórmula 1, o paddock parou para prestar atenção. O escocês, tricampeão de Le Mans e ex-piloto de obras da Audi por mais de uma década, substitui Jonathan Wheatley em um momento em que a equipe ainda constrói sua identidade na categoria rainha do automobilismo. A mudança foi anunciada às vésperas do GP de Miami, previsto para o fim de semana do dia 4 de maio no Autódromo Internacional de Miami Gardens.

A saída de Wheatley e o perfil de quem chega

Jonathan Wheatley deixou o posto de chefe de equipe após um período marcado por ajustes internos e pressão por resultados mais consistentes. Seu substituto carrega um currículo que vai muito além dos títulos em pista: McNish foi campeão de Le Mans em 1998, 2008 e 2013 — todas com a Audi —, o que lhe confere autoridade moral dentro da própria cultura da montadora alemã. Após a aposentadoria como piloto, integrou a estrutura de gestão e desenvolvimento da Audi Motorsport por anos, tornando-se figura central nas decisões estratégicas da marca no endurance.

Drivers Look Ahead To Race Weekend | 2026 Miami Grand Prix

Essa bagagem técnica é o que mais chama atenção de especialistas. Um diretor que já sentiu o peso de gerenciar estratégias de pit stop em corridas de 24 horas, onde os gaps entre carros podem chegar a voltas completas, tende a ter uma leitura diferente da temporalidade das decisões no pit wall da F1. A transição de Wheatley para McNish representa, na prática, uma aposta da Audi em alguém que já viveu a marca por dentro — e não apenas chegou de fora para administrá-la.

Bortoleto elogia e demonstra confiança

Gabriel Bortoleto, de 20 anos, campeão da Fórmula 2 em 2024 e estreante na F1 com a Audi nesta temporada, não escondeu o entusiasmo com a chegada do escocês. Nas palavras do piloto paulista, a contratação representa uma virada de chave para a equipe.

"Allan é uma lenda do automobilismo e tem uma conexão histórica com a Audi que ninguém mais tem. Para mim, é muito positivo tê-lo no comando — ele entende o que é competir no mais alto nível e sabe o que a equipe precisa para crescer", declarou Bortoleto em entrevista divulgada pela própria equipe.

O relacionamento entre piloto e diretor técnico é um dos fatores menos visíveis nos dados de telemetria, mas frequentemente determinante nos resultados. Bortoleto, que ainda acumula experiência limitada em Grandes Prêmios — foram apenas quatro corridas disputadas até agora na temporada, com Bahrein e Arábia Saudita cancelados —, precisará de alguém capaz de interpretar seus feedbacks e traduzi-los rapidamente em ajustes de setup e estratégia de corrida.

O que McNish pode mudar na Audi dentro da F1

A análise do SportNavo mostra que a Audi ainda enfrenta desafios consideráveis para se firmar na grelha: o projeto de motor próprio previsto para 2026 impõe uma pressão de desenvolvimento interna que poucas equipes carregam ao mesmo tempo em que tentam ser competitivas na pista. McNish conhece esse tipo de pressão dupla — em Le Mans, a Audi disputava e vencia enquanto desenvolvia tecnologias como o diesel TDI e o sistema de recuperação de energia e-tron, que depois migraram para a produção em série.

Do ponto de vista operacional, espera-se que o escocês imponha uma lógica de gestão de risco mais refinada nas decisões de pit stop e nas estratégias de pneus. No circuito de Miami Gardens, com 57 voltas e uma sequência técnica no setor 2 que penaliza duramente o desgaste do eixo traseiro, as janelas de undercut e overcut são decisivas. Em 2024, Max Verstappen venceu com uma estratégia de uma parada, enquanto a maioria dos rivais optou por duas — margem de erro que equipes menores simplesmente não podem cometer.

"Meu objetivo é criar uma estrutura em que cada decisão seja baseada em dados e em experiência de corrida real. A Audi tem potencial e tem compromisso com o futuro da F1 — meu trabalho é fazer esses dois mundos se encontrarem o mais rápido possível", afirmou McNish em sua primeira declaração oficial no novo cargo.

Miami como primeiro teste do novo comando

O GP de Miami será a quinta etapa do Mundial de 2025 e a primeira com McNish no posto de diretor de corrida. O circuito semi-urbano de 5,41 km já recebeu três edições do GP — a primeira em maio de 2022, vencida por Carlos Sainz pela Ferrari —, e historicamente favorece equipes com alto downforce e eficiência nos setores de baixa velocidade, onde as diferenças de setup entre equipes ficam mais expostas nos dados de setor.

Bortoleto volta ao cockpit após a pausa forçada pelo cancelamento das corridas do Oriente Médio e chegará a Miami com cerca de quatro semanas sem competição oficial. O brasileiro treinou no simulador da equipe em Hinwil durante o período, segundo informações confirmadas pela própria Audi, e a expectativa do pit wall é que o ritmo acumulado nas primeiras quatro provas — especialmente na China, onde o jovem mostrou consistência nas voltas rápidas — se mantenha. A sessão de classificação em Miami acontece no sábado, dia 3 de maio, com a corrida principal no domingo, às 16h locais (21h de Brasília).