O calor sufocante de Elche não era nada comparado à tensão que tomou conta do banco do Atlético de Madrid. Thiago Almada acabara de ser expulso aos 29 minutos, depois de uma lambança infantil na própria área que custou pênalti e deixou os colchoneros com um a menos. O silêncio no vestiário visitante ecoava uma pergunta incômoda: por que os brasileiros sempre fracassam no clube de Simeone?
A estatística é implacável. Desde que o argentino assumiu o comando técnico em 2011, nenhum jogador formado no Brasil conseguiu se estabelecer definitivamente no time titular. Almada, naturalizado brasileiro e ex-Botafogo, tornou-se apenas o mais recente capítulo dessa saga de frustrações que já consumiu Matheus Cunha, Reinildo e outros talentos.
A queda livre do ex-Botafogo
Janeiro começou promissor para o meia de 23 anos. Recém-chegado do Lyon por 18 milhões de euros, Almada estreou como titular e impressionou nas primeiras partidas, marcando contra Osasuna e Sevilla. O jornal Marca chegou a chamá-lo de "uma das contratações da temporada".
Mas a lua de mel durou pouco. Uma lesão muscular em setembro interrompeu a sequência, e quando voltou em outubro, já não era mais o mesmo jogador. Em 2025, são apenas sete jogos como titular, dois gols - o último em fevereiro - e uma assistência pífia.
"Ele começou a passagem no Atleti como titular, dando um verdadeiro show nas primeiras partidas. Mas o Almada de quem estamos falando foi caindo ao longo de todo o campeonato até se tornar um jogador que não só contribui pouco, como também atrapalha", cravou a análise do jornal madrilenho.
A chegada de Ademola Lookman em janeiro selou o destino do argentino-brasileiro. O nigeriano se adaptou imediatamente ao esquema tático e assumiu a posição de meia-esquerda que Almada ocupava.
O padrão de fracasso dos brasileiros
O caso de Almada não é isolado. Matheus Cunha chegou em 2021 como uma das maiores promessas do futebol brasileiro, mas nunca conseguiu se firmar no time titular de Simeone. Após duas temporadas irregulares, foi vendido ao Wolverhampton em 2023 por apenas 12 milhões de euros - menos da metade do que o Atlético pagou ao Hertha Berlin.
Reinildo Mandava, lateral-esquerdo formado no Belenenses e naturalizado moçambicano, viveu uma montanha-russa similar. Teve momentos de destaque, especialmente na temporada 2022-23, mas nunca conseguiu manter a regularidade exigida pelo técnico argentino.

Segundo apuração do SportNavo, a explicação está na filosofia tática de Simeone. O treinador prioriza disciplina tática absoluta, marcação férrea e sacrifício coletivo - características que parecem colidir com o estilo mais criativo e individualista típico da formação brasileira.
O sucesso dos argentinos e espanhóis
O contraste é gritante quando analisamos jogadores de outras nacionalidades. Argentinos como Ángel Correa, Rodrigo de Paul e Nahuel Molina se adaptaram rapidamente ao sistema. Espanhóis como Koke, Saúl Ñíguez e Marcos Llorente floresceram sob o comando do Cholo.
A diferença cultural pesa. Enquanto argentinos e espanhóis crescem em culturas futebolísticas que valorizam a intensidade defensiva, brasileiros são moldados pela criatividade e pelo jogo ofensivo. No Atlético de Simeone, a margem para experimentação é mínima.
"Deixar o Atlético tanto tempo com um a menos por uma imprudência na defesa é o último exemplo de um jogador que, com a Argentina, rende seu melhor nível... mas com a camisa rojiblanca deixa muito a desejar, muito mesmo", disparou o Marca sobre Almada.
Diego Costa, apesar de naturalizado espanhol, é frequentemente citado como exceção - mas o atacante já havia se adaptado ao futebol europeu muito antes de chegar ao Metropolitano.
O futuro incerto e as lições para o mercado
Almada não faz parte do time ideal de Simeone que se prepara para a semifinal da Champions League contra o Manchester City. Com contrato até 2029, o argentino-brasileiro vive um dilema: aceitar o papel de reserva ou forçar uma saída no meio do ano.
O histórico sugere que a segunda opção é mais provável. O Atlético já sinalizou abertura para negociar o meia caso apareça uma proposta interessante - algo em torno dos 15 milhões de euros que pagou ao Lyon.
Para clubes brasileiros interessados em talentos que passaram pela Europa, casos como o de Almada servem de alerta. Nem sempre a adaptação ao futebol europeu garante sucesso em qualquer contexto. O Atlético de Madrid, em particular, continua sendo um ambiente hostil para jogadores formados no Brasil.
O próximo desafio do clube será contra o Real Madrid no clássico de domingo, no Santiago Bernabéu. Almada provavelmente assistirá do banco, mais uma vez refletindo sobre como desperdiçou a chance de brilhar em um dos maiores clubes do mundo.










