Três derrotas nos últimos quatro jogos, lanterna na Sul-Americana e um gol sofrido por falha coletiva na bola aérea. O Atlético-MG perdeu para o Cienciano por 1 a 0 na noite desta quarta-feira (29), no Estádio Inca Garcilaso de la Vega, em Cusco, Peru, pela terceira rodada do Grupo B. O resultado consolida a crise do clube em múltiplas frentes.
O impacto da altitude no sistema de jogo
Cusco está a aproximadamente 3.400 metros acima do nível do mar. Nessa altitude, a demanda cardiorrespiratória aumenta entre 15% e 25% em esforços de alta intensidade — dado que afeta diretamente a capacidade de manter compactação defensiva e pressão alta por 90 minutos.
O Atlético apresentou um 4-1-4-1 com Tomás Pérez como primeiro volante à frente da linha de quatro defensores, Gustavo Scarpa e Dudu nas pontas, Igor Gomes e Alexsander no meio-centro e Reinier como pivô. O esquema exige mobilidade intensa dos alas e coberturas rápidas dos volantes — funções fisiologicamente mais custosas em altitude elevada.
O efeito foi perceptível já nos primeiros quinze minutos: a linha de pressão do Atlético recuou progressivamente, cedendo espaço ao Cienciano para circular no terço intermediário. O time peruano explorou sistematicamente cruzamentos pelo corredor direito — a jogada do gol, aos 29 minutos, seguiu exatamente esse padrão: Robles cruzou e Bandiera cabeceou livre, sem marcação posicional adequada.
"Não é novo saber o quanto afeta a altitude no jogo. Sinto que poderíamos ter feito um pouco melhor. A altitude nos custou muito no primeiro tempo, para manter as posições e a participação dos jogadores", analisou o técnico Eduardo Domínguez após a partida.
Antes do gol, o único momento de perigo atleticano havia sido um chute de Alexsander aos 21 minutos, que raspou a trave. O índice de finalizações no primeiro tempo evidencia o desequilíbrio: o Galo praticamente não chegou ao último terço com qualidade, enquanto Everson precisou realizar defesas difíceis em chute de Robles aos 43 e em cabeçada de Garcés aos 45 minutos.
Escalação alternativa e a falta de referência ofensiva
A análise do SportNavo aponta que o 4-1-4-1 com Reinier como pivô gerou um problema estrutural: sem profundidade e sem fixação de referência na área, as transições ofensivas do Atlético foram previsíveis e facilmente neutralizadas pela linha defensiva do Cienciano, que jogou com bloco médio-baixo no segundo tempo.
Com jogadores como Scarpa e Dudu atuando mais como meias do que como extremos, o time perdeu amplitude e a capacidade de esticar a defesa adversária. O Cienciano marcou no campo rival e fechou os corredores centrais com eficiência.
No segundo tempo, as entradas de Minda e Bernard alteraram o padrão. Aos 10 minutos, Minda fez jogada individual pela direita e cruzou rasteiro para Reinier, que foi travado duas vezes e não conseguiu empatar. A jogada expôs que, com mais velocidade nos pés, o time conseguia criar — mas o momento foi interrompido.
Aos 12 minutos, Preciado recebeu o segundo cartão amarelo após falta em Martinich e foi expulso. Com um a menos, qualquer pretensão de recuperação ficou estruturalmente comprometida.
"Estamos cometendo um erro, apenas um erro, e pagando muito caro por isso. Temos que ser fortes e conscientes do momento que estamos vivendo", afirmou Domínguez, reconhecendo o padrão de fragilidade que se repete.
Os jovens e o único sinal positivo
A única leitura favorável da noite foi o comportamento dos atletas da base acionados no decorrer do jogo. Mesmo diante da desvantagem numérica, os garotos mantiveram comprometimento tático e não desorganizaram as linhas — mérito especialmente visível nos minutos finais, quando o Galo tentou pressionar com bolas aéreas na área do Cienciano.
"Os garotos me parece que aproveitaram as chances. Entraram em um momento delicado e aproveitaram. O projeto do clube me parece que vale seguir apostando nos garotos", disse Domínguez.
A fala do treinador tem coerência pontual, mas não resolve o problema imediato: o Atlético é lanterna do Grupo B com três pontos, mesma pontuação do Puerto Cabello, perdendo no critério de confronto direto. O Cienciano lidera com sete pontos; o Juventud é segundo com quatro.
Situação na chave e o que vem pela frente
O formato da Sul-Americana exige que apenas os campeões de grupo avancem diretamente para as oitavas de final. Os vice-líderes disputam playoffs contra terceiros colocados dos grupos da Libertadores. O Atlético, na lanterna, precisa vencer os dois jogos restantes do turno e torcer por tropeços alheios para voltar a ter controle do próprio destino na competição.
Historicamente, o clube mineiro havia mantido invencibilidade de dez jogos contra times peruanos — sete vitórias e três empates. A derrota para o Cienciano encerra esse ciclo e marca a primeira vitória peruana sobre o Galo, episódio que o clube rival comemorou com provocação direta nas redes sociais: "O papai ganhou", publicou o Cienciano junto a uma arte com o burro, seu mascote, derrotando o Galo atleticano.
Antes de pensar na Sul-Americana, o Atlético enfrenta o Cruzeiro no sábado (2), às 21h, no Mineirão, pelo Campeonato Brasileiro — partida que chega sob máxima pressão após a goleada de 4 a 0 sofrida pelo Flamengo no fim de semana. Na terça-feira (5), o Galo viaja ao Uruguai para enfrentar o Juventud no Estádio Centenário, em Montevidéu, às 19h, em jogo que pode ser decisivo para a permanência no torneio continental.








