Doze gols e três assistências em 28 jogos pelo Brasileirão. Esse é o currículo que Neymar, 34 anos, apresentou para garantir sua quarta Copa do Mundo. Do outro lado da balança: João Pedro, 24 anos, com 21 gols na temporada pelo Chelsea, artilheiro em duas competições europeias, descartado por Carlo Ancelotti sem nem ter sido convocado para a última lista antes do Mundial. A lógica puramente estatística diz que a escolha foi errada. A lógica do futebol, porém, raramente é pura.

O verão quente de Dallas que o Santos não teve

O calor de maio no Rio de Janeiro estava pesado quando Ancelotti leu os 26 nomes no Museu do Amanhã, na segunda-feira, 18. A plateia emocionada reagiu com um murmúrio coletivo ao ouvir o camisa 10. Nos bastidores, porém, a história desse nome na lista vinha sendo escrita há meses — e quase não chegou até aqui.

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Em março, o técnico italiano viajou até Mirassol especificamente para observar Neymar em campo pelo Santos. O atacante não jogou. Lesionado, desfalcou o time justamente no dia em que mais importava ser visto. Era o tipo de cena que encerra convocações, não que as abre.

Decidiu.

Mas Ancelotti decidiu esperar. Segundo informações apuradas, os dados físicos enviados pelo Santos nas semanas seguintes tiveram peso decisivo. A melhora foi gradual, os números de condicionamento convenceram a comissão técnica, e o treinador cumpriu o que havia prometido: se o jogador estivesse inteiro, a vaga seria dele, porque o talento era indiscutível.

"A evolução é só na parte física. Jogou com continuidade. Pode melhorar sua condição física. Pode melhorar até o primeiro jogo da Copa. Pensamos, à parte disso, é experiente na competição, carinho que tem no grupo", explicou Ancelotti após anunciar a lista.

Os números que a convocação ignorou — e os que ela priorizou

A comparação com João Pedro é o ponto mais desconfortável da lista de Ancelotti. O atacante revelado pelo Fluminense esteve em 34 das 36 partidas do Chelsea na Premier League 2025/26, sendo titular em 30. Média de 76 minutos por jogo, 15 gols, cinco assistências — coeficiente de 0,59 participações por partida. Somando Copa do Mundo de Clubes e Champions League, chegou a 21 gols na temporada. Tudo isso num Chelsea que trocou de técnico duas vezes e não vencia há oito rodadas no campeonato inglês. João Pedro carregou um time em colapso nas costas.

Neymar, no mesmo período, acumulou 12 gols e três assistências pelo Santos no Brasileirão. Perdeu jogos importantes por questões físicas. O Transfermarkt avalia o atacante em R$ 58,4 milhões — o mesmo valor de Léo Pereira, zagueiro do Flamengo. João Pedro, com quase o dobro de produção ofensiva, nem foi cotado para a lista final.

A lógica de Ancelotti, porém, não era de centroavante puro. Para incluir Neymar, o italiano precisou abrir mão de um homem de área — Igor Thiago e Endrick garantiram as vagas de atacante de referência. O camisa 10 entra como meia-atacante, armador, o jogador que cria o caos no último terço. Nessa função, os números do Santos não contam a história completa — e Ancelotti sabia disso.

O dado que o SportNavo identificou nas fontes da convocação é revelador: Neymar e Weverton foram os únicos dois jogadores convocados sem terem sido testados por Ancelotti em nenhuma das listas anteriores do ciclo. Seis outros nomes — Danilo, Léo Pereira, Bremer, Ibañez, Rayan e Igor Thiago — convenceram o técnico apenas na última janela de amistosos, contra França e Croácia. A lista final foi, em grande parte, construída nos últimos 60 dias.

Messi aos 35 e o precedente que Neymar quer repetir

A história das Copas do Mundo tem pouquíssimos exemplos de protagonistas com mais de 34 anos. Pelé tinha 17 em 1958, Mbappé tinha 19 em 2018, Ronaldo tinha 25 em 2002. Dentre os heróis brasileiros do penta, nenhum passou dos 30 como figura central. Garrincha tinha 28 no Chile em 1962; Romário tinha 28 em 1994.

O único modelo recente que serve de referência para o que Neymar pretende fazer é Lionel Messi no Qatar 2022 — campeão aos 35 anos, protagonista absoluto, artilheiro e MVP do torneio. É o único jogador na história moderna a ser a estrela de uma Copa do Mundo depois dos 34. A analogia é justa, mas também é um aviso: Messi chegou ao Qatar em sua melhor versão física em anos, vindo de uma temporada completa pelo PSG. Neymar chega com uma temporada marcada por ausências e um corpo que ainda está sendo testado.

Ancelotti foi direto ao ponto quando perguntado sobre privilégios.

"Quero ser claro, honesto e limpo: ele vai jogar se merecer jogar. O treino vai decidir isso. Acho importante não fixar toda a expectativa em cima de um só jogador", disse o técnico italiano no Museu do Amanhã.

A frase soa como proteção institucional — um escudo contra o peso que uma nação inteira tende a colocar nos ombros de um único homem. Mas também é um recado real. Neymar não tem vaga cativa no time. Tem que ganhar minutos nos treinos em Teresópolis antes de garantir os 90 em campo.

O choro no CT e o que vem pela frente

Na terça-feira, 19, o CT Rei Pelé no Santos virou palco de uma cena improvável para um atacante de 34 anos convocado para sua quarta Copa: Neymar abraçando funcionários, companheiros de elenco e até o volante João Schmidt, que celebrava 33 anos com um bolo. O camisa 10 recebeu o primeiro pedaço.

"Confesso que chorei por várias horas, porque não foi fácil chegar até aqui. Depois do meu nome anunciado, a gente sabe que valeu a pena. Vale a pena passar por cima de tudo isso", disse o atacante em vídeo divulgado pelo Santos.

Há algo de Rocky Balboa nessa narrativa — o veterano que todo mundo já havia descartado, que treina no frio enquanto os jovens dormem, que aparece no dia certo para provar que ainda está lá. O cinema adora esse arco. O futebol, porém, é mais cruel: exige que o arco se sustente por sete jogos em três semanas, contra as melhores seleções do planeta, num corpo que já acumula mais de uma década de lesões graves.

O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 no dia 13 de junho. Até lá, Neymar pode ser preservado pelo Santos na partida desta quarta-feira contra o San Lorenzo, pela Copa Sul-Americana, antes de se apresentar à seleção em Teresópolis. Os próximos 25 dias de treino vão dizer ao mundo — e a Ancelotti — se a aposta foi genial ou sentimental.