Se Carlo Ancelotti tivesse que escalar o Brasil amanhã mesmo, Alisson estaria no gol, Raphinha e Neymar não dividiriam o mesmo corredor ofensivo — e dois zagueiros que não eram titulares absolutos há 18 meses formariam a espinha dorsal defensiva da Seleção. Essa não é uma hipótese abstrata: é exatamente o que aconteceu na tarde desta sexta-feira, 29 de maio, nos gramados da Granja Comary, em Teresópolis.
O treinamento tático revelou a provável escalação para o amistoso de domingo, 31, contra o Panamá, às 18h30, no Maracanã. O time esboçado por Ancelotti foi: Alisson; Wesley, Bremer, Léo Pereira e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Luiz Henrique, Matheus Cunha, Vini Jr. e Raphinha. Onze nomes que, reunidos, contam uma história de ausências, oportunidades e pressão de calendário.
O precedente de 2010 e a arte de escalar sem os titulares absolutos
Quem acompanha a Seleção há décadas reconhece o padrão. Em junho de 2010, às vésperas da Copa da África do Sul, Dunga também precisou montar um Brasil sem peças essenciais para os amistosos de preparação. Robinho chegou em ritmo diferente, Kaká saiu machucado do último treino antes da estreia — e o time que entrou em campo contra a Coreia do Norte, no dia 15 de junho, tinha quatro jogadores que não eram os preferidos do técnico. O Brasil venceu por 2 a 1, com gols de Maicon e Elano, e a engrenagem foi ajustada ao longo da fase de grupos.
A diferença em 2026 é que as ausências têm causa dupla: lesão e calendário europeu. Marquinhos e Gabriel Magalhães disputam neste sábado, 30, a final da Champions League entre PSG e Arsenal, o que os impede de se apresentar antes do amistoso. Gabriel Martinelli está na mesma situação. Ancelotti, portanto, não escolheu tirar esses jogadores — ele simplesmente não os tem disponíveis ainda. Segundo informações divulgadas nos bastidores da comissão técnica e registradas pelo SportNavo, os três devem se juntar ao grupo apenas na próxima semana.
Bremer e Léo Pereira numa zaga que lembra um rio em cheia
A dupla Bremer e Léo Pereira na zaga tem algo de um rio em cheia: volumosa, física, sem muita margem para o adversário encontrar espaço pelas laterais. Bremer, que voltou de grave lesão no joelho em 2024 pela Juventus, reencontrou consistência na temporada 2025/2026. Léo Pereira, por sua vez, foi um dos pilares do Flamengo na conquista da Copa do Brasil de 2024 e chegou à convocação com moral elevada.
Historicamente, o Brasil já escalou duplas de zaga improvisadas em Copas e saiu vitorioso. Em 1994, nos Estados Unidos, Aldair e Marcio Santos formaram uma das defesas mais sólidas do torneio — o Brasil sofreu apenas três gols em sete jogos, com aproveitamento defensivo superior ao de qualquer edição anterior desde 1970. A comparação não é para igualar gerações, mas para lembrar que a zaga titular no papel nem sempre é a que funciona no campo.
O ataque sem Neymar e o que os números já dizem
Neymar permaneceu fora do treino com bola nesta sexta-feira. O camisa 10 realizou exercícios na academia e sessões de fisioterapia em razão de uma lesão muscular de grau 2 na panturrilha direita. Segundo informações da comissão técnica, Ancelotti estabeleceu o dia 12 de junho como prazo final para avaliar a recuperação do atacante — o chamado "Dia D" interno. A expectativa é que ele possa ser utilizado ao menos a partir da segunda rodada da fase de grupos, contra o Haiti, em 19 de junho, caso a recuperação evolua dentro do esperado.
Sem Neymar, o setor ofensivo testado tem Raphinha, Vini Jr., Matheus Cunha e Luiz Henrique. Não é pouco. Raphinha terminou a temporada 2025/2026 pelo Barcelona como um dos dez jogadores com mais participações em gol na La Liga. Vini Jr. acumula 17 gols em Copas do Mundo e Eliminatórias combinadas desde 2022. Matheus Cunha, revelado pelo RB Leipzig e consolidado no Atlético de Madrid, chega ao torneio no melhor momento da carreira. Luiz Henrique, do Botafogo, foi convocado após uma série de atuações que o colocaram entre os mais eficientes do Brasileirão 2026 no quesito dribles certos por jogo.
- Raphinha — artilheiro do Barcelona na La Liga 2025/2026, com 22 gols
- Vini Jr. — 9 gols nas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa 2026
- Matheus Cunha — 14 gols e 9 assistências pelo Atlético de Madrid na temporada europeia atual
- Luiz Henrique — 11 gols e 7 assistências pelo Botafogo no Brasileirão 2026 até maio
Bruno Guimarães sob monitoramento e o que o amistoso precisa responder
Há uma preocupação específica no meio-campo: Bruno Guimarães apresenta desgaste físico após uma temporada intensa pelo Newcastle e segue sendo monitorado pela comissão técnica. Caso seja preservado para o amistoso de domingo, Danilo Santos aparece como alternativa imediata ao lado de Casemiro. O volante do Athletico-PR participou das movimentações táticas desta sexta-feira junto com Fabinho, Ibañez e Douglas Santos.
A partida contra o Panamá, portanto, não é apenas um aquecimento protocolar. Ela responde a pelo menos três perguntas que Ancelotti precisa ter respondidas antes de embarcar para os Estados Unidos: Bremer e Léo Pereira conseguem jogar juntos em alto nível sem Marquinhos? O ataque sem Neymar tem fluidez suficiente para criar chances contra uma defesa organizada? E Bruno Guimarães aguenta 90 minutos ou precisa ser poupado para a estreia contra Marrocos?
Após o amistoso no Maracanã, a delegação viaja para os Estados Unidos, onde enfrenta o Egito em Cleveland no dia 6 de junho — o último teste antes da Copa. A estreia no Mundial está marcada para 13 de junho, contra Marrocos. São 15 dias para Ancelotti transformar ensaio em certeza.










