"Gostaria de convocar Pedro para a Seleção Brasileira." A frase é de Carlo Ancelotti, dita em novembro de 2025, e nunca saiu da cabeça de quem acompanha a montagem do grupo brasileiro para a Copa do Mundo de 2026. Quem disse foi o mesmo treinador que, até aquele momento, jamais havia incluído o centroavante do Flamengo em nenhuma de suas convocações. Há uma contradição evidente entre a declaração e o histórico — e é exatamente essa contradição que torna a lista de 18 de maio tão carregada de significado.

A tese que o futebol brasileiro abraçou sobre Pedro

A narrativa dominante é simples: Pedro é o melhor centroavante do Brasil em atividade e, por consequência, merece estar na Copa do Mundo. Os números alimentam esse argumento com consistência. Desde que se firmou como titular do Flamengo, o atacante acumula sequências de gol que poucos centroavantes sul-americanos conseguiram na última década. Na temporada de 2024, por exemplo, terminou como um dos artilheiros da Copa Libertadores. No Brasileirão 2026, mantém média superior a um gol por jogo em determinados ciclos do campeonato. A última vez que Carlo Ancelotti o observou presencialmente foi no clássico Flamengo 2 a 2 contra o Vasco, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro — partida em que Pedro marcou um gol e sofreu pênalti, reunindo em 90 minutos os dois atributos que definem um centroavante de Copa: eficiência e capacidade de criar desequilíbrio sem a bola.

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O que o futebol argentino chama de "nueve de área" — o atacante que vive para o gol, imóvel e letal — o futebol português traduz como "avançado de referência", aquele que ancora o sistema e libera os meias. Pedro é as duas coisas ao mesmo tempo, e essa dupla função é rara no cenário atual da Seleção Brasileira.

A contra-leitura que Ancelotti ainda não descartou

Há, porém, uma leitura alternativa que a comissão técnica italiana instalada na CBF nunca abandonou completamente. Ancelotti construiu sua carreira no futebol europeu — Milan, Chelsea, Real Madrid, Bayern de Munique, Paris Saint-Germain — priorizando sistemas em que o centroavante é frequentemente sacrificado em favor da mobilidade dos meias e das chegadas dos laterais. No Real Madrid de 2021 a 2024, Karim Benzema jogou mais como segundo atacante do que como pivô fixo, e a equipe ganhou duas Champions Leagues nesse modelo. O técnico nunca escondeu que observa Pedro com interesse, mas também nunca o testou sob pressão de eliminatória ou amistoso de alto nível. A ausência de convocações não é acidente — é dado.

A comissão técnica debate internamente, segundo informações circuladas nos bastidores da CBF, se vale a pena chamar um atacante que nunca vestiu a camisa sob Ancelotti para uma Copa do Mundo, o torneio de maior pressão do planeta. O risco de integração tardia num grupo já consolidado é real. Nas Copas de 1994 e 2002, por exemplo, Romário e Ronaldo chegaram ao torneio como peças centrais de sistemas construídos ao longo de meses — não como convocações de última hora motivadas por forma recente.

O que pesa na síntese final antes de 18 de maio

A síntese, neste caso, exige que se pese os dois lados com honestidade histórica. A Seleção Brasileira disputou oito edições de Copa do Mundo desde 1970 sem um centroavante de área convicto no grupo titular — e perdeu metade delas antes das semifinais. Nas campanhas vitoriosas de 1970, 1994 e 2002, havia sempre um atacante de referência claro: Tostão, Romário e Ronaldo, respectivamente. A ausência desse perfil nas campanhas de 2006, 2010, 2014 e 2018 não é coincidência estatística — é padrão.

Pedro representa, numericamente, o perfil que a Seleção não tem em abundância. Ancelotti sabe disso — a declaração de novembro não foi casual. O treinador não costuma fazer elogios públicos sem intenção tática. Sua trajetória no futebol europeu é marcada por convocações e escalações que confirmam o que ele disse antes, não o contrário.

"Gostaria de convocar Pedro para a Seleção Brasileira", afirmou Ancelotti em novembro de 2025, numa declaração que, relida hoje, soa menos como elogio e mais como sinalização antecipada.

Antes de a lista ser divulgada, Pedro ainda tem um compromisso decisivo pelo Flamengo: o duelo com o Vitória, nesta quinta-feira (14), no Barradão, às 21h30, pela volta da quinta fase da Copa do Brasil. Uma atuação consistente diante de câmeras do SporTV e do Premiere pode ser o último argumento que faltava para Ancelotti transformar uma declaração de novembro em nome na lista de 18 de maio.