Decidiu. Carlo Ancelotti não vai escalar Neymar entre os onze iniciais contra o Japão, na segunda-feira (29), às 14h de Brasília, no NRG Stadium, em Houston — e quem achar que isso é fraqueza nunca assistiu a um segundo tempo com o camisa 10 em estado de graça. A informação vem de bastidores da comissão técnica e representa, na leitura mais honesta possível, uma escolha calculada de quem já ganhou Champions League com Milan, Liverpool, Real Madrid e Bayern de Munique.
O meio-campo que Ancelotti não quer mexer
A espinha dorsal do Brasil que chegou à fase de mata-mata como líder do Grupo C — sete pontos, saldo de seis gols, goleadas de 3 a 0 sobre Haiti e Escócia — tem um eixo que Ancelotti não pretende desmontar: Casemiro pelo centro, Bruno Guimarães e Paquetá nas laterais do meio. O trio criou uma estrutura que combina proteção defensiva com saída de bola limpa, liberando Vinicius Júnior para se movimentar por todo o ataque sem obrigações de marcação. Contra a Escócia, esse desenho funcionou bem o suficiente para construir uma vitória confortável, ainda que a compactação no segundo tempo deixasse a desejar.
Para Neymar entrar no time titular, a vaga natural seria a de Matheus Cunha — e aí está o dilema. Cunha tem sido um dos destaques da Copa, funcionando como pivô e como ligação entre o meio e o ataque. Tirar um jogador em boa fase num jogo eliminatório é uma aposta que poucos treinadores fariam. Ancelotti, que em 2013 transformou o Real Madrid numa máquina de 100 pontos na La Liga exatamente por não alterar o que funcionava, conhece esse risco de cor.
Há também o fator físico. Neymar ficou 981 dias afastado da Seleção por conta da lesão grave no joelho sofrida em 2023, e chegou à Copa ainda gerenciando uma recuperação de panturrilha. Num jogo de mata-mata, a comissão técnica avalia que o risco de colocá-lo desde o início supera o benefício — especialmente quando o plano B é tê-lo fresco para os 45 minutos finais.
Neymar como arma secreta tem precedente histórico
Quem não tem cão caça com gato — e Ancelotti, neste caso, tem o cão e está guardando ele para a hora certa. A estratégia de preservar um craque para o segundo tempo não é nova no futebol europeu. No Milan de 2003 que conquistou a Champions, Ancelotti usava Rivaldo como opção de banco em jogos de menor desgaste, lançando-o quando o adversário já estava cansado. No Real Madrid de 2014, Isco cumpriu papel semelhante em fases eliminatórias. A lógica é a mesma: um jogador de qualidade superior, descansado, contra marcadores que já rodaram 60 minutos, vale mais do que o mesmo jogador desgastado nos 90.
No caso específico de Neymar contra o Japão, os números tornam a estratégia ainda mais sedutora. O atacante acumula 9 gols em 5 confrontos contra os japoneses pela Seleção Brasileira — uma média absurda de 1,8 gols por jogo. Para efeito de comparação, Ronaldo Fenômeno marcou 8 gols na Copa de 2002 inteira, em sete partidas. Neymar fez quase isso contra um único adversário. Ter esse retrospecto disponível no banco, pronto para entrar quando o Japão já estiver com as pernas pesadas, é o tipo de vantagem que qualquer técnico sonharia em ter.
"O Japão possui um ótimo conjunto, bons jogadores, pressiona bastante para recuperar a bola, alterna a troca curta de passes com as jogadas em velocidade, mas não tem a improvisação e o talento individual da seleção brasileira, especialmente de Vinicius Junior", avaliou o cronista esportivo e ex-jogador da Copa de 1970, em coluna publicada na Folha de S.Paulo.
A análise captura o ponto central do confronto. O Japão chega às oitavas invicto no Grupo F — cinco pontos, com empates contra Holanda (2 a 2) e Suécia (1 a 1) e goleada sobre a Tunísia (4 a 0). Taticamente, a equipe japonesa opera com três zagueiros, dois alas com dupla função e um trio ofensivo que pressiona alto e troca de posição com disciplina impressionante. É o tipo de esquema que sufoca times que dependem de jogadas individuais no começo do jogo. Mas que se abre — e historicamente se abre — quando a fadiga chega.
O Japão no segundo tempo e o que a história europeia ensina
Aqui mora o argumento mais forte para a estratégia de Ancelotti. Times de alta intensidade, como o Japão atual ou o Borussia Dortmund de Klopp entre 2011 e 2015, tendem a perder eficiência de marcação a partir dos 65 minutos. O Dortmund de Klopp sofria 40% mais gols no segundo tempo do que no primeiro durante as fases eliminatórias da Champions — e isso com um elenco físico excepcional. A seleção japonesa, que depende de pressão coletiva e rotação de marcação, tem padrão similar: nos dois empates da fase de grupos, os gols sofridos vieram depois dos 55 minutos.
Neymar entrando aos 60, 65 minutos, contra marcadores que já correram mais de 10 quilômetros cada, num estádio de Houston com 34 graus e sensação térmica de 39 graus — a temperatura que a delegação brasileira encontrou ao chegar à cidade neste sábado — é uma equação que favorece o Brasil de maneira considerável. A chegada ao hotel foi acompanhada por centenas de torcedores que se aglomeraram nas imediações, e jogadores como Vini Jr., Endrick, Marquinhos e o próprio Neymar atenderam aos fãs antes de se recolherem para a preparação final.

"Ancelotti deve manter a escalação e a formação tática, com quatro defensores, um trio de meio-campistas — Casemiro pelo centro, Bruno de um lado e Paquetá do outro —, Rayan pela direita, atacando e voltando para marcar", descreveu o mesmo cronista, detalhando o sistema que o técnico italiano deve repetir no NRG Stadium.
O Brasil que chega às oitavas é um time mais coletivo do que individual — e isso, paradoxalmente, é o que torna Neymar mais perigoso como opção de banco do que como titular. Quando ele entra num jogo já controlado pelo meio-campo, com espaços criados por Vini e Cunha, o camisa 10 atua no papel que melhor explorou na carreira: o de finalizador em ambientes abertos, sem a obrigação de construir o jogo desde o início. Seus 79 gols em 129 jogos pela Seleção foram construídos exatamente assim — em momentos de definição, não de construção.
Brasil e Japão se enfrentam na segunda-feira (29), às 14h (horário de Brasília), no NRG Stadium, em Houston. O vencedor avança para as quartas de final da Copa do Mundo. Vale gravar o segundo tempo — é lá que Neymar deve aparecer.










