Confesso: eu errei sobre Andrés Gómez em 2024. Quando ele chegou ao Vasco, escrevi aqui que era mais um nome colombiano circulando pelo futebol brasileiro sem deixar marca. Hoje, com a pré-lista da Copa do Mundo na tela do meu computador em Washington, preciso engolir essa análise — e fazer isso com gosto.

Na quinta-feira (14), o técnico Néstor Lorenzo divulgou uma relação inicial de 55 jogadores convocáveis para o Mundial. O nome de Andrés Gómez está lá, ao lado de Carlos Cuesta e Johan Rojas, os outros dois vascaínos incluídos. Mas não se engane: os três não têm o mesmo peso dentro dessa lista. Gómez é o favorito. Os outros dois correm por fora.

O vascaíno que convenceu Lorenzo na última Data Fifa

A diferença entre Gómez e seus companheiros de clube na pré-lista não é simbólica — é factual. Em março, durante a última Data Fifa antes do Mundial, o atacante foi chamado e entrou em campo nas duas partidas disputadas pela Colômbia. Não ficou no banco. Não foi convocado por protocolo. Jogou. E esse detalhe, no futebol de seleção, separa os que vão da Copa dos que assistem em casa.

Carlos Cuesta e Johan Rojas, por sua vez, ainda buscam sequência tanto no Cruzmaltino quanto na própria seleção. A presença dos dois na pré-lista de 55 nomes — que será cortada para 26 até 29 de maio — reflete mais uma varredura ampla do que uma convicção do técnico. Lorenzo está olhando. Gómez já foi visto.

"O bom momento vivido no Cruz-Maltino aumenta a expectativa por uma vaga definitiva entre os 26 convocados", apontou o Lance! ao detalhar a situação do atacante na pré-lista colombiana.

Para entender o peso disso, vale uma comparação com o que foi a Copa de 1994 para os colombianos. Naquele torneio, a Colômbia chegou como uma das favoritas ao título — Carlos Valderrama, Freddy Rincón, Faustino Asprilla —, mas foi eliminada na fase de grupos após derrota histórica para os EUA por 2 a 1. A tragédia que se seguiu, com o assassinato de Andrés Escobar, marcou uma geração. Hoje, 32 anos depois, a seleção volta a um Mundial com um elenco competitivo e com jogadores espalhados por ligas do mundo inteiro — incluindo o futebol brasileiro, que nunca teve tanta representatividade numa convocação colombiana.

O Brasil virou celeiro de colombianos para o Mundial

Não é exagero dizer que o futebol brasileiro se tornou uma das principais vitrines para a seleção de Lorenzo. Ao lado de Gómez, Cuesta e Rojas, o Athletico Paranaense também emplacou três atletas na pré-lista: Portilla, Viveros e Mendoza. O Internacional aparece com Carbonero e Rafael Borré. E o Flamengo contribui com Jorge Carrascal, meia que pode disputar o primeiro Mundial da carreira e que entra em campo pelo Rubro-Negro ainda nesta quinta-feira, contra o Vitória, no Barradão, pela Copa do Brasil.

O SportNavo mapeou os clubes brasileiros representados na pré-lista colombiana: ao lado do Athletico-PR, o Vasco é o time com mais atletas na relação — três cada. Nenhum outro clube nacional chega a esse número.

Quem ficou de fora foi Marino Hinestroza, contratado pelo Vasco no início de 2026 com grande expectativa. O atacante ainda se adapta ao futebol brasileiro, embora tenha tido sua melhor atuação na quarta-feira (13), participando diretamente dos dois gols no empate com o Paysandu. Lorenzo optou por não esperar.

O vascaíno que convenceu Lorenzo na última Data Fifa Andrés Gómez pode ser titul
O vascaíno que convenceu Lorenzo na última Data Fifa Andrés Gómez pode ser titul
"Léo Jardim lamenta ausência na pré-lista da Seleção: 'Tinha a expectativa'" — a manchete do Lance! nesta semana resume um sentimento que vai além do goleiro brasileiro: muitos jogadores que atuam no país esperavam uma chamada que não veio.

A contra-leitura que o Vasco precisa considerar antes de comemorar

Há uma narrativa dominante em São Januário: ter três jogadores numa pré-lista de Copa do Mundo é prestígio, marketing, prova de que o clube voltou a atrair atletas de nível internacional. E parte disso é verdade. Mas existe uma contra-leitura que o clube precisa encarar.

Se Gómez for convocado para os 26 definitivos — o que parece provável —, o Vasco perde seu principal atacante durante a fase mais intensa da temporada brasileira. A Copa do Mundo começa em 11 de junho. A estreia da Colômbia está marcada para 17 de junho, contra o Uzbequistão, na Cidade do México. O grupo colombiano inclui ainda República Democrática do Congo (dia 23, em Guadalajara) e Portugal (dia 27, em Miami). Se a Colômbia avançar às oitavas, o calendário se estende ainda mais — e o Brasileirão, a Copa do Brasil e eventuais competições continentais não param.

A síntese honesta é esta: Andrés Gómez na Copa do Mundo é um reconhecimento real de qualidade, o tipo de validação que nenhum clube pode fingir que não importa. Mas o preço dessa visibilidade é pago em rodadas, em ausências, em esquemas táticos refeitos às pressas. O técnico Ramón Díaz — ou quem estiver no comando — precisará ter um plano B tão consistente quanto o plano A.

A lista definitiva de 26 convocados será anunciada por Lorenzo no dia 29 de maio. A partir daí, o Vasco saberá exatamente o que perde — e por quanto tempo. Uma boa receita exige os melhores ingredientes, mas perde o sabor quando o chef principal sai da cozinha no meio do preparo.