Se a semifinal de Raglan tivesse terminado normalmente, Yago Dora e Italo Ferreira já estariam disputando uma vaga na final de Manu Bay com 22 minutos de surfe ainda por fazer. Não terminou. Um animal marinho atacou o fotógrafo australiano Ed Sloane, arrancou o pé de pato do profissional, feriu seu tornozelo e forçou a World Surf League a acionar o protocolo de segurança mais severo do circuito — retirada imediata de todos os atletas da água por jet ski, neste domingo (24).
Sloane trabalhava para a WSL registrando a bateria quando foi atingido. Segundo Renato Hickel, diretor de competições da liga, o fotógrafo foi encaminhado de ambulância ao hospital com ferimentos descritos como pequenos nas pernas — graves o suficiente para interromper uma das semifinais mais aguardadas da temporada, mas não para colocar sua vida em risco imediato.
"Graças a Deus, ele está bem, considerando o que aconteceu. Ele tem pequenas feridas nas pernas e já está em uma ambulância, a caminho do hospital", disse Hickel.
O protocolo de segurança da WSL e a incerteza sobre a espécie
Quando se fala em protocolo de segurança da WSL para animais marinhos, a lógica é parecida com a de um sistema de freio ABS num carro: ele não espera a colisão acontecer para agir — age no momento em que detecta o risco. Assim que o animal foi avistado e o ataque confirmado, a organização não esperou identificar a espécie. Retirou os surfistas, ponto.
A dúvida sobre o que exatamente atacou Sloane permanece aberta. Hickel revelou que o médico presente no local estava inclinado a acreditar em um leão-marinho, não em um tubarão — mas a WSL não confirmou oficialmente nenhuma das possibilidades.
"Neste momento não temos certeza se era um tubarão ou um leão-marinho. O médico que está ajudando aqui no local está inclinado a pensar que era um leão-marinho em vez de um tubarão. Mesmo assim, foi muito assustador", declarou o dirigente.
A distinção importa tecnicamente: leões-marinhos raramente atacam humanos de forma predatória — eles mordem por defesa territorial ou quando se sentem encurralados. Tubarões, especialmente espécies como o tubarão-branco, agem por instinto predatório. O comportamento da mordida de Sloane — que arrancou o pé de pato sem causar laceração profunda na carne — é, segundo especialistas em comportamento de fauna marinha, mais compatível com um leão-marinho. Mas, como apurou o SportNavo, a WSL não arrisca diagnóstico sem laudo técnico. A entrada da maré baixa no período também pesou na decisão de adiar a retomada da bateria.
Yago e Italo viram de perto o que aconteceu com Sloane
Italo Ferreira estava no lineup quando o ataque aconteceu. Não precisou de câmera lenta para entender o que tinha visto.
"Eu vi quando ele estava. Arrancou o pé de pato do cara", relatou o campeão mundial de 2019.
Hickel confirmou que ambos os surfistas ficaram visivelmente abalados após presenciar o incidente. Yago Dora, que havia entrado na semifinal embalado por uma das performances mais impressionantes da temporada — uma nota 10 unânime na virada contra Cole Houshmand, com um aéreo gigante numa esquerda perfeita e somatório de 17,50 contra 17,00 do americano — saiu da água sem completar a bateria que poderia colocá-lo na briga direta pela lycra amarela… e aí vem o problema.
O que a suspensão significa para o ranking e para a final em Manu Bay
A cadeia de efeitos dessa interrupção vai muito além do susto. Com 22 minutos ainda no relógio, a semifinal estava tecnicamente em aberto — e o regulamento da WSL prevê que baterias suspensas por condições de segurança podem ser retomadas dentro da janela da etapa ou declaradas inconclusas, com decisão sobre o avanço baseada na pontuação parcial. A próxima chamada oficial está marcada para esta segunda-feira (25), por volta das 16h15 no horário de Brasília, último dia da janela da etapa de Raglan.
O que torna tudo isso ainda mais tenso é o contexto do ranking. Miguel Pupo lidera provisoriamente o circuito 2026, seguido por Gabriel Medina, Yago Dora e Italo Ferreira. Tanto Yago quanto Italo podem ultrapassar Pupo e assumir a ponta caso conquistem o título em Raglan. Filipe Toledo, bicampeão mundial, já foi eliminado nas quartas de final pelo americano Griffin Colapinto, o que concentra ainda mais pressão sobre os dois finalistas em potencial.
Pense no ranking da WSL como uma tabela de classificação numa temporada de Fórmula 1: cada etapa distribui pontos que se acumulam, e uma bateria interrompida com pontuação parcial é como um GP encerrado por bandeira vermelha — o resultado pode ser homologado com base na última volta completada. Se a WSL optar por avançar ambos os surfistas, o duelo pela final ainda acontece. Se decidir pelo placar parcial, quem estiver à frente naquele momento leva a vaga. A organização ainda não se pronunciou sobre qual caminho seguirá.
A retomada — ou a decisão final sobre a bateria suspensa — está prevista para segunda-feira (25) em Manu Bay, com transmissão ao vivo pelo site oficial e canal do YouTube da WSL. Yago Dora chega ao dia decisivo como atual campeão mundial e dono do maior somatório da etapa, o 17,76 conquistado no Round 3. Italo Ferreira, com 16,63 na semifinal interrompida, tem pontuação suficiente para disputar qualquer cenário que a liga anunciar.










