Diz-se que o futebol é o maior produto de exportação cultural do Brasil. Na verdade, há décadas essa liderança é compartilhada — e, em certos mercados, superada — pela música popular brasileira. A Copa do Mundo de 2026, com suas três cerimônias de abertura distribuídas entre México, Canadá e Estados Unidos, transforma esse debate em política concreta: quem representa o Brasil no maior palco esportivo do planeta, e o que essa escolha sinaliza para além dos holofotes?
Três cerimônias, três mercados e o peso de um número
O número que estrutura este momento é três — e não por acaso. Pela primeira vez na história, a Fifa planeja realizar cerimônias de abertura simultâneas em países distintos, uma estratégia diretamente vinculada à expansão do torneio para 48 seleções e à necessidade de distribuir audiência entre os três países-sede. Segundo informações do jornal The Athletic, o Estádio Azteca (Cidade do México, 11 de junho), o BMO Field (Toronto, 12 de junho) e o SoFi Stadium (Los Angeles, 12 de junho) receberão eventos com curaduras artísticas regionalizadas. Para o Azteca, a expectativa envolve Maná, Alejandro Fernández e Belinda. Para Toronto, Michael Bublé e Alanis Morissette. Para Los Angeles, Katy Perry aparece como a grande atração.
Anitta, por sua vez, integra o que a Fifa denomina internamente como seu roster de talentos globais para o ciclo de 2026 — um grupo que inclui J Balvin e a tailandesa Lisa, artistas escalados para eventos oficiais e transmissões ao longo do torneio. As sedes exatas de suas apresentações ainda não foram detalhadas, o que, por si só, já é um dado interpretativo: a cantora não está ancorada a um único território, mas circula como ativo de alcance transnacional.
Esse modelo se assemelha menos a uma cerimônia esportiva e mais ao que a indústria do entretenimento chama de multi-platform rollout — a lógica de lançamento de um produto em diferentes mercados simultaneamente, calibrando a mensagem para cada audiência. A Fifa aprendeu com o Super Bowl. Decidiu.
Anitta como ativo diplomático e a economia da visibilidade
Analisar a presença de Anitta nesses eventos apenas pela lente da celebridade é subestimar a dimensão econômica do fenômeno. A cantora acumula mais de 70 milhões de seguidores no Instagram, posiciona-se consistentemente entre os artistas latino-americanos com maior volume de streams mensais no Spotify e foi, em 2022, a primeira brasileira a alcançar o topo do ranking global da plataforma. Esses números não são ornamento biográfico — são indicadores de penetração de mercado que a Fifa utiliza como critério de curadoria.
A presença de um artista brasileiro nesse contexto opera em duas dimensões simultâneas. A primeira é comercial: associar o Brasil à cerimônia mais assistida do planeta amplia o valor percebido do país como marca cultural, o que se traduz em interesse turístico, contratos de licenciamento e capacidade de atração de investimento estrangeiro para o setor criativo. A segunda é simbólica: em um torneio em que o Brasil não é sede, ter representação artística nas cerimônias de abertura é uma forma de presença política que não depende de resultado em campo.
Segundo relatório da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) publicado em 2024, a indústria criativa brasileira movimenta aproximadamente 2,6% do PIB nacional, com a música popular respondendo por parcela crescente das exportações culturais. A Copa de 2026 é, nesse contexto, uma janela de promoção gratuita para esse setor — e a Fifa, ao incluir artistas brasileiros em seu ecossistema de eventos, reconhece implicitamente esse peso econômico.
Shakira no Maracanã e o que a escolha do cenário comunica
Não passou despercebido que Shakira escolheu o Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, para gravar o videoclipe de Dai Dai, a música oficial da Copa de 2026, produzida em parceria com o nigeriano Burna Boy. A cantora colombiana, que já marcou presença na cerimônia de encerramento da Copa de 2014 — também realizada no Brasil — retorna ao mesmo ícone arquitetônico para ancorar simbolicamente o novo ciclo do torneio.
A escolha do Maracanã como cenário para a música oficial de um Mundial realizado nos Estados Unidos, Canadá e México é, no mínimo, um dado que merece interpretação. O estádio carioca carrega um capital simbólico que ultrapassa a geografia: é reconhecido globalmente como templo do futebol, o que confere à produção uma legitimidade que nenhum estádio norte-americano — por mais moderno que seja — conseguiria replicar com a mesma economia de imagens. Para o Brasil, que não sediará o torneio mas disputará o título como um dos favoritos, essa aparição no videoclipe oficial funciona como posicionamento de marca sem custo institucional.
Segundo o jornal The Athletic, a Fifa planeja realizar três cerimônias de abertura distintas, uma em cada país-sede, com o objetivo de celebrar o início da competição com artistas que refletem a cultura de cada região e o alcance global do futebol.
A outra novidade de peso é a implementação de um show no intervalo da final, marcada para 19 de julho no MetLife Stadium, em Nova Jersey. O formato replica a lógica do Super Bowl, evento que em fevereiro de 2025 registrou audiência de 127,7 milhões de espectadores apenas nos Estados Unidos, segundo dados da Nielsen. Se a Fifa conseguir converter parte desse modelo de atenção para o futebol, o impacto sobre o valor dos direitos de transmissão nas próximas edições será mensurável — e o Brasil, como maior mercado futebolístico das Américas, estará no centro dessa equação.
A Copa do Mundo começa oficialmente em 11 de junho de 2026, com a cerimônia no Estádio Azteca. A seleção brasileira estreia na fase de grupos em data ainda a ser confirmada pela Fifa, mas o calendário provisório aponta para a segunda semana do torneio. O que acontece antes do primeiro apito também é disputa — e, nesse campo, o Brasil já entrou em campo.








