A fita de chegada ainda balançava quando o mundo de Anna Gabriela parou. A dentista e corredora havia cruzado a linha da Meia Maratona de Mossoró em 1h47min20s — quase dois minutos à frente da sexta colocada, com a quinta posição no ranking feminino garantida pelo cronômetro. Enquanto se preparava para a cerimônia de premiação, uma pessoa da produção a chamou de lado e disse o que nenhum regulamento da prova autorizava: ela não seria premiada.
O troféu que a organização inventou na hora
A cena foi direta e sem precedente no regulamento do evento. Segundo Anna Gabriela, o representante da organização foi explícito: "Não vamos poder te premiar e vamos fazer a troca no sistema do quinto com o sexto lugar porque, como você sabe, biologicamente você não pode competir nessa categoria. A nossa corrida segue as diretrizes que são usadas nas Olimpíadas." No lugar da medalha de colocação, a organização ofereceu um troféu de "honra ao mérito" — categoria inexistente no regulamento oficial da prova.
"Tive meu direito questionado publicamente pela organização do evento, simplesmente por ser uma mulher trans. Fui exposta, colocada em dúvida e submetida a uma situação de humilhação diante de outras pessoas. Tudo isso sem qualquer respaldo no regulamento da prova", declarou Anna Gabriela.
O item sobre participantes e categorias da Meia Maratona de Mossoró previa disputas na categoria feminina geral, masculina geral e para pessoas com deficiência. Havia restrições de idade e documentação para PCDs, mas nenhuma cláusula sobre identidade de gênero ou sexo biológico. Anna se inscreveu na categoria feminina com documentação regular, correu, e chegou em quinto. O regulamento não previa nenhum impedimento — a decisão da organização foi tomada fora de qualquer base jurídica ou normativa da prova.
A diretriz do COI que não foi feita para corridas de rua
A referência citada pelo representante da organização — as diretrizes olímpicas — é real, mas foi aplicada fora de contexto. Em março deste ano, o Comitê Olímpico Internacional restringiu a categoria feminina dos Jogos Olímpicos a atletas do sexo biológico feminino, medida que entra em vigor a partir de Los Angeles-2028 e será verificada por teste genético. A decisão, porém, é voltada exclusivamente ao alto rendimento olímpico — e o próprio COI não possui regulamentação para eventos amadores, corridas de rua ou competições populares.
Até a publicação dessa nova diretriz, o COI deixava os critérios de elegibilidade por gênero sob responsabilidade de cada federação internacional. O problema agora é que uma norma criada para o esporte de elite começa a ser invocada — de forma equivocada — em provas sem qualquer vínculo com federações olímpicas. No Brasil, não existe regulamentação nacional específica para a participação de atletas trans em corridas de rua amadoras, o que cria um vácuo perigoso: cada organizador passa a interpretar as regras conforme seu próprio critério.
"Eu me inscrevi na categoria feminina porque eu me identifico com o gênero feminino. No regulamento não falava sobre pessoas trans poderem ou não poderem competir nas categorias com as quais se identificam", afirmou a corredora.
Um vácuo regulatório que pune quem corre, não quem decide
O levantamento feito pela equipe do SportNavo sobre regulamentos de corridas de rua populares no Brasil confirma o padrão: a esmagadora maioria dos eventos não possui cláusula específica sobre atletas trans, deixando a decisão nas mãos de organizadores privados sem critério técnico ou jurídico definido. O resultado é o que aconteceu em Mossoró — uma decisão tomada no improviso, durante a cerimônia, que expôs publicamente uma atleta sem que houvesse qualquer base regulatória para isso.
A ausência de regras claras não protege ninguém: não protege as atletas trans, que ficam sujeitas a interpretações arbitrárias; não protege as organizações, que tomam decisões juridicamente frágeis; e não protege as demais competidoras, que também merecem um marco regulatório transparente. O debate sobre inclusão e meritocracia no esporte amador é legítimo e complexo — mas ele precisa acontecer antes da largada, não depois da chegada.
O que precisa mudar para que isso não se repita
A Confederação Brasileira de Atletismo e as entidades organizadoras de corridas de rua no país precisam construir um protocolo específico para eventos populares — algo que o COI não forneceu e que as federações internacionais ainda não padronizaram para o nível amador. Enquanto esse protocolo não existir, episódios como o de Mossoró se repetirão: atletas chegando ao pódio pelo cronômetro e sendo retiradas por decisões tomadas nos bastidores, sem regulamento, sem transparência e sem recurso imediato disponível. Anna Gabriela completou 21,097 km em 1h47min20s. A organização levou menos de cinco minutos para desfazer o que o relógio havia registrado.
Uma partitura musical só funciona quando todos os músicos leem a mesma pauta — e o que falta ao esporte amador brasileiro, agora, é exatamente essa pauta escrita.








