Quantos centroavantes brasileiros de 38 anos ainda aparecem na escalação de um clube da elite do futebol nacional, partida após partida, sem que a questão da idade sequer precise ser debatida pelo treinador? Não são muitos. E essa raridade, por si só, já justificaria uma pausa.
Reparemos no detalhe: Anselmo Ramon Alves Herculano, natural de Dias d'Ávila, na Bahia, completou 38 anos em 23 de junho de 2026 — e o presente de aniversário foi uma camisa de titular no Goiás, clube pelo qual já acumula 32 partidas na temporada vigente. Não se trata de um jogador que aparece quando o técnico precisa de uma referência de área nos minutos finais. Trata-se de um homem que carrega o número 4 nas costas e que, em 30 de maio, decidiu um clássico goiano contra o Atlético-GO no Estádio Accioly no último suspiro — aquele tipo de gol que os torcedores narram por anos, porque chegou quando o empate já parecia o destino inevitável da tarde.
Onde ele pode estar em 2027
O cenário mais realista para Anselmo Ramon no horizonte dos próximos doze meses é o de uma permanência em Goiânia que vai muito além do contrato. O Brasileirão Série A de 2026 está sendo, possivelmente, o palco mais visível de toda a sua carreira — e visibilidade, para um atacante veterano que conquistou o Campeonato Goiano em 2026 com a camisa do Esmeraldino, tem peso simbólico e prático. Se o Goiás se mantiver na elite ao fim desta temporada, há razões concretas para imaginar que o clube estenderá o vínculo com um jogador que entrega presença, liderança de vestiário e, quando necessário, o gol que faz diferença. A questão não é se ele ainda tem futebol — os números desta temporada respondem isso com 32 jogos e um gol em momento decisivo. A questão é se o próprio Anselmo desejará seguir competindo no nível mais alto do futebol brasileiro quando completar 39 anos.
O que precisa acontecer até lá
Para que 2027 seja, de fato, uma continuação e não um encerramento silencioso, algumas condições precisam se alinhar. A primeira delas é coletiva: o Goiás precisa escapar do rebaixamento. O clube, que retornou à Série A após conquistar a Série B em temporada recente, já viveu o sufoco da zona de descenso e sabe que a permanência na elite não é garantida por histórico — é conquistada semana a semana. Anselmo, que esteve em quatro derrotas consecutivas que colocaram o time olhando para baixo na tabela em maio, conhece esse peso.
A segunda condição é individual: manter o corpo funcionando em um nível que permita 30 ou mais partidas por temporada. Com 176 cm e 60 kg — uma estrutura física que desafia os padrões convencionais do centroavante moderno —, Anselmo sempre dependeu mais de leitura de jogo e timing do que de imposição física. Essa característica pode ser, paradoxalmente, o que o mantém em campo quando atacantes mais jovens e mais musculosos já acumulam lesões musculares. Mas o futebol de elite cobra pedágio, e 2.894 minutos jogados em uma única temporada — segundo os dados disponíveis — não são pouca coisa para qualquer organismo.
O que já aconteceu na trajetória
Há algo de cinematográfico na sequência de destinos que a carreira de Anselmo Ramon descreve no mapa. Começou profissionalmente em um caminho incomum: foi à Romênia, ao Cluj, e de lá trouxe dois troféus — o Campeonato Romeno e a Copa da Romênia, ambos na temporada 2009-10. Para um jovem brasileiro de uma cidade do interior baiano, esse percurso inicial já era, em si, uma declaração de caráter. O futebol romeno, com seu rigor tático e suas temperaturas de inverno que nenhum brasileiro antecipa quando assina contrato, não é destino para quem não leva a profissão a sério.
De volta ao Brasil, veio o Avaí — e o Campeonato Catarinense de 2010. Depois o Oeste, com o Campeonato Paulista do Interior em 2011. Depois o Cruzeiro, onde a trajetória ganhou a dimensão que o futebol brasileiro respeita: o Campeonato Brasileiro de 2013, conquistado com um dos clubes mais tradicionais do país. Veja-se isto: um atacante que passou pela Romênia, por Santa Catarina e pelo interior paulista antes de levantar a taça nacional — essa é uma biografia que o futebol de prateleira simplesmente não produz.
Mais tarde, na Chapecoense — clube que carrega uma história que vai muito além das quatro linhas —, Anselmo foi campeão catarinense e da Série B em 2020. E então veio o capítulo que talvez mais defina quem ele é: quatro títulos consecutivos do Campeonato Alagoano pelo CRB, entre 2022 e 2025. Quatro. Em sequência. Em um estado onde o futebol tem paixão e rivalidade que poucos centros do país compreendem. Essa fidelidade ao CRB, e essa capacidade de ser decisivo temporada após temporada em Alagoas, construiu uma reputação que chegou antes dele a Goiânia. Matéria publicada no SportNavo acompanhou o gol dele contra o Atlético-GO como o instante que resumiu esse capital acumulado.
Os obstáculos no caminho
O primeiro obstáculo é o mais óbvio e o menos conversado: o mercado de futebol brasileiro tem pouca paciência com atacantes que não estampam cifras de transferência milionárias ou vídeos virais de dribles. Anselmo Ramon é um jogador que existe no espaço entre a área e a memória afetiva do torcedor — ele marca quando precisa, movimenta quando não marca, e carrega a experiência de quem já esteve em contextos muito mais adversos do que qualquer situação que o Goiás pode apresentar em 2026. Mas esse tipo de valor é difícil de monetizar em uma janela de transferências, e difícil de explicar para um diretor esportivo que prefere apostar em um jovem de 22 anos com maior valor de revenda.
O segundo obstáculo é o da narrativa pública. Jogadores veteranos no Brasil tendem a ser lidos de duas formas: ou como lendas em despedida gloriosa, ou como ocupadores de vaga que deveriam ceder espaço à juventude. Anselmo Ramon não se encaixa em nenhuma das duas categorias com conforto. Ele não é um ícone de clube único que retorna para se aposentar com festa. É um profissional que atravessou o mapa do futebol brasileiro — da Romênia a Alagoas, de Minas Gerais a Goiás — e que ainda produz o suficiente para ser escalado 32 vezes em uma temporada de Série A. Essa trajetória de nômade competente raramente recebe o reconhecimento que merece enquanto ainda está acontecendo. O futebol, como a memória, costuma ser mais generoso no passado do que no presente.










