Setenta e dois pontos em três corridas. Esse é o cartão de visita que Kimi Antonelli apresenta ao Autódromo Internacional de Miami neste fim de semana — e o número, por si só, já conta uma história de dominância que a Fórmula 1 não via desde os anos de auge de um certo Max Verstappen. O GP de Miami, quarta etapa da temporada 2026, é também o primeiro grande teste depois de uma pausa forçada e incomum: o cancelamento dos GPs de Bahrein e Arábia Saudita, em abril, por causa dos conflitos no Oriente Médio, deixou o paddock parado por semanas e impôs uma quebra de ritmo que pode mexer com estratégias e com a confiança das equipes.
A Mercedes que não para de crescer
A narrativa da temporada 2026 até aqui é, essencialmente, uma história de prata e preto. A Mercedes venceu as três corridas disputadas: George Russell triunfou na Austrália e levou também a corrida sprint de Xangai, enquanto Antonelli cruzou em primeiro no GP da China e repetiu o feito no Japão. O jovem italiano de 19 anos — que estreou como titular na equipe de Brackley na temporada 2025 — transformou a pressão da expectativa em combustível, e hoje lidera o campeonato de pilotos com 9 pontos de vantagem sobre o próprio companheiro de equipe, Russell, que soma 63.
Os dados de telemetria das últimas etapas revelam por que a W16 é tão difícil de bater: a Mercedes tem demonstrado consistência impressionante no gerenciamento de pneus, especialmente nos compostos médios, o que permite ao pit wall retardar as paradas e cobrir as estratégias adversárias com margem confortável. No GP do Japão, por exemplo, Antonelli circulou 18 voltas com o composto médio sem perda perceptível de ritmo — um sinal de que a equipe encontrou uma janela de trabalho térmico que as rivais ainda não conseguiram replicar.

Miami sob um regulamento novo
O circuito de Miami, traçado no entorno do Hard Rock Stadium, é um desafio particular: seus 19 curvas e 5,41 km de extensão combinam retas longas — o que favorece carros com alta eficiência aerodinâmica — a chicanes lentas que exigem precisão e tração na saída. Historicamente, o degrado de pneus é moderado no asfalto local, o que costuma abrir espaço para estratégias de uma parada com timing disputado no meio da corrida. A Mercedes tem explorado exatamente esse tipo de cenário.
Mudanças regulatórias aprovadas recentemente entram em vigor já neste fim de semana em Miami. Um dos ajustes afeta diretamente a logística do evento: com o longo intervalo sem atividades, os pilotos ganham treinos livres estendidos, de 90 minutos cada, em vez do formato padrão. A medida, segundo a análise do SportNavo, favorece equipes que precisam de mais tempo para calibrar setup — o que pode beneficiar especialmente Audi e algumas equipes de meio de grid, que chegam ao circuito com menos dados acumulados do que as equipes de ponta.
O fim de semana também conta com corrida sprint, a prova curta de aproximadamente 30 minutos sem pit stops obrigatórios. O formato coloca o foco total na velocidade de qualificação e na gestão de pneus sem o colchão de uma troca programada — exatamente o tipo de corrida em que Antonelli tem se destacado, como mostrou em Xangai, onde cruzou a linha à frente do companheiro Russell na corrida principal.
Bortoletto e o recomeço necessário
Do lado brasileiro, Gabriel Bortoletto chega a Miami em situação delicada. O piloto de 21 anos, representante do Brasil na categoria, soma apenas 2 pontos e ocupa a 13ª colocação no campeonato. Seu único ponto marcado até aqui veio da nona colocação na Austrália — na China, um problema mecânico no carro da Audi o impediu sequer de largar, e no Japão terminou em 13º. A pausa forçada pode ter permitido à equipe de Ingolstadt trabalhar nas fragilidades identificadas nas primeiras etapas, mas o cenário ainda é de reconstrução.
A avaliação do SportNavo sobre o desempenho da Audi nas três primeiras etapas aponta para dificuldades consistentes no aquecimento dos pneus dianteiros em condições de baixa temperatura — característica do Japão — mas Miami, com asfalto mais quente e circuito de alta carga, pode oferecer um ambiente mais favorável ao VF-26. Para Bortoletto, sair de Miami com pontos seria um passo importante para recolocar o projeto nos trilhos.
"Não conseguimos mostrar o verdadeiro potencial do carro ainda. Precisamos de um fim de semana limpo", afirmou Bortoletto em coletiva antes do GP de Miami, destacando que a equipe trabalhou nas atualizações durante a pausa.
Programação e onde assistir
O primeiro treino livre desta sexta-feira, 1º de maio, começa às 13h (horário de Brasília). O GP de Miami é transmitido pela Band e pelo serviço de streaming da Fórmula 1. A corrida principal acontece no domingo, e a corrida sprint está programada para o sábado — formato que promete acirrar ainda mais a disputa pelo pódio num circuito onde a posição de largada tem peso decisivo no resultado final. Antonelli parte como favorito, mas com Russell a 9 pontos e o regulamento renovado misturando as cartas, a etapa americana pode redefinir — ou solidificar — o domínio que a Mercedes construiu nos primeiros três GPs da temporada.








