Três coisas: motor, câmbio e aderência traseira. Tudo se explica daí. Com o carro se desfazendo nas voltas finais do GP de Miami, Andrea Kimi Antonelli cruzou a linha em primeiro neste domingo (3), conquistou sua terceira vitória consecutiva na temporada 2026 e chegou a 100 pontos no campeonato — número que nenhum outro piloto no grid sequer se aproxima de alcançar, já que o segundo colocado, George Russell, soma 80.
Hoje: o que já é fato
O resultado final em Miami foi Antonelli à frente de Lando Norris e Oscar Piastri, ambos da McLaren. Mas o placar limpo esconde o drama dos rádios. Nas voltas decisivas, o piloto italiano reportou à equipe preocupações com o motor e com o câmbio, e em seguida alertou que estava perdendo aderência na parte traseira do carro — exatamente o tipo de problema que abre janela para ultrapassagem. A engenharia da Mercedes respondeu pelo rádio que o comportamento instável estava relacionado a picos de temperatura dos componentes, não a uma falha mecânica iminente. Antonelli ouviu, processou e manteve o ritmo.
Há quem argumente que Norris simplesmente não teve DRS suficiente ou que a reta de Miami não favorece ultrapassagens. O dado derruba esse argumento: Norris chegou a ficar a menos de um segundo de Antonelli nas voltas finais — distância que, em condições normais, já seria suficiente para acionar o sistema e tentar a manobra. O campeão mundial de 2025 não passou porque o italiano não deixou espaço, mesmo gerenciando um carro tecnicamente comprometido.
"O comportamento instável e a falta de aderência estão relacionados aos picos de temperatura dos componentes", informou o engenheiro da Mercedes ao piloto durante a corrida.
A corrida em si foi caótica desde a volta 1: Leclerc arrancou melhor que o pole Antonelli e assumiu a liderança, Verstappen rodou sozinho e caiu para a nona posição, e o safety car entrou na volta 6 após acidentes envolvendo Hadjar, Gasly e Lawson. Na relargada, Norris assumiu a ponta ao superar Leclerc, e a batalha entre Antonelli e o monegasco pela segunda posição chegou a incluir trocas de posição em pista — o italiano levou a melhor. Verstappen ainda herdou a liderança momentaneamente após os pit stops, mas os pneus duros mais desgastados não sustentaram o ritmo, e ele foi superado por Antonelli e depois por Norris. O holandês terminou em quinto, atrás também de Russell.
Esta semana: o que se desdobra
A análise do SportNavo sobre a temporada 2026 mostra que a vantagem de Antonelli no campeonato é estruturalmente diferente das lideranças que vimos nos últimos anos. Com 100 pontos em cinco corridas disputadas — as etapas da Arábia Saudita e do Bahrein foram canceladas por conta dos conflitos em andamento no Oriente Médio —, o italiano acumula o mesmo total de pontos que Norris (51), Piastri (43) e Verstappen (26) somados juntos. Para contextualizar: são mais pontos do que toda a McLaren somou no campeonato de construtores, que registra 94.
O cenário no campeonato de construtores reforça o domínio da Mercedes: 180 pontos contra 112 da Ferrari e 94 da McLaren. Russell, segundo no mundial de pilotos com 80 pontos, contribui para esse número, mas a lacuna para os rivais já é grande o suficiente para a equipe administrar estratégias sem sacrificar o líder. Leclerc, que chegou a ocupar o terceiro lugar até a penúltima volta em Miami, furou um pneu e caiu para sexto — Hamilton, em sétimo, completou um resultado ruim para a Ferrari no dia em que mais precisava pontuar.
"Antonelli has underlined his title credentials by taking his third consecutive race win of 2026", escreveu o Motorsport.com logo após a bandeirada, sintetizando o consenso do paddock internacional.
Franco Colapinto foi a surpresa do dia. O argentino da Alpine terminou em oitavo e marcou o melhor resultado de sua carreira na Fórmula 1 até aqui, enquanto Bortoleto encerrou a prova na 12ª posição com apenas 2 pontos no campeonato — resultado que reflete um fim de semana inteiro de dificuldades para a Audi.
Próximas 4 semanas: o que vai mudar
A Fórmula 1 permanece na América do Norte. O próximo compromisso é o GP do Canadá, no Circuito Gilles Villeneuve, em 24 de maio — três semanas para que McLaren e Ferrari tentem encontrar a resposta que Miami não deu. Norris, que terminou em segundo, precisará de algo diferente em Montreal: nos três GPs vencidos por Antonelli nesta temporada, o britânico nunca chegou a ameaçar concretamente a liderança nas voltas finais, mesmo estando na mesma estratégia.
A questão técnica da Mercedes também merece atenção. Se os problemas relatados por Antonelli em Miami — motor, câmbio e aderência traseira — forem recorrentes no regulamento de 2026, a equipe precisará apresentar evoluções antes que o calendário europeu comece a concentrar corridas em sequência. Vencer com o carro falhando é uma demonstração de talento; depender disso como padrão é uma vulnerabilidade. O GP do Canadá, em 24 de maio, dirá se Miami foi exceção ou tendência.
Três coisas: motor, câmbio e aderência traseira. Tudo se confirma daí.








