Confesso: eu errei sobre Antony no começo desta temporada. Escrevi, aqui mesmo, que o empréstimo ao Betis parecia mais uma fuga do que um recomeço — mais um brasileiro talentoso se escondendo numa liga menor para fugir da pressão. Hoje, assistindo ao que aconteceu em Braga na última quarta-feira (8), entendo o tamanho do equívoco.
O banco de reservas que quase custou caro ao Betis em Braga
O Estádio Municipal de Braga tinha cheiro de armadilha. Fora de casa, com uma torcida portuguesa enlouquecida nas arquibancadas e o peso de uma quartas de final da Liga Europa sobre os ombros, o Betis entrou em campo sem seu jogador mais decisivo no time titular. Manuel Pellegrini optou por poupar Antony — que vinha tratando uma pubalgia e havia disputado 66 minutos pelo Campeonato Espanhol contra o Espanyol no fim de semana — e sentiu o preço da decisão no primeiro tempo. A equipe andaluza foi controlada pelo Braga, sem criatividade nas linhas de frente, sem aquela velocidade de desequilíbrio que o brasileiro carrega na perna esquerda.
O Betis saiu do intervalo perdendo por 1 a 0, gol de Florian Grillitsch. Foi quando Pellegrini corrigiu o que a própria reportagem do Trivela chamou de "erro" de gestão do elenco: Antony entrou em campo no segundo tempo e mudou o jogo. O empate veio com Cucho Hernández, de pênalti, e o placar final de 1 a 1 deixa o Betis em posição confortável para avançar: uma vitória simples em Sevilha, no jogo da volta marcado para esta quinta-feira (16), basta para chegar às semifinais.
"Com outra gestão do elenco, o Betis poderia ter saído até com a vitória de Portugal", avaliou a cobertura especializada após o confronto — uma frase que resume bem o quanto Antony se tornou insubstituível no esquema de Pellegrini.
Vinte pontos que deixaram o Real Madrid para trás na La Liga
Há uma estatística que resume melhor do que qualquer análise tática o que Antony representa para o Betis desde que chegou a Sevilha em 2 de fevereiro, na 22ª rodada da La Liga. Naquele dia, o clube ocupava a décima colocação com 28 pontos — um time sem rumo, sem narrativa. Desde então, foram nove partidas na competição nacional: seis vitórias consecutivas, dois empates e apenas uma derrota, com aproveitamento de 74%.
Esses resultados renderam 20 pontos ao Betis no período. O Real Madrid — o mesmo elenco com Kylian Mbappé, Vinícius Júnior, Jude Bellingham e Rodrygo — somou apenas 14 pontos no mesmo recorte. Só o Barcelona, líder do campeonato com 25 pontos no período, superou o Betis nessa janela. A apuração do SportNavo confirma: nenhum outro clube da Espanha teve desempenho mais consistente do que o time de Pellegrini desde fevereiro — nem os galácticos do Bernabéu.
Nessa sequência estão incluídas vitórias sobre os dois maiores clubes do país: empate por 1 a 1 contra o Barcelona e vitória por 2 a 1 sobre o Real Madrid. Antony foi protagonista direto nessa arrancada, com quatro gols e quatro assistências na competição. O Betis saiu da décima posição e chegou a 48 pontos, hoje na quinta colocação, a seis pontos do Athletic Bilbao, quarto e dono da última vaga espanhola para a próxima Champions League.
O que está em jogo nas próximas semanas para o Betis e seu brasileiro
Pense num músico que passou anos tocando em bares pequenos, ignorado pela crítica, até que uma única turnê o revelou para o mundo. É exatamente assim que Antony vive esta temporada no Betis — o talento sempre esteve lá, mas faltava o palco certo, a banda certa, o público certo para fazer o som ressoar.
A agenda das próximas semanas é brutal e empolgante ao mesmo tempo. Na quinta-feira (16), o Betis recebe o Braga em Sevilha para o jogo da volta das quartas de final da Liga Europa. Uma vitória simples classifica o time andaluz às semifinais, onde encontraria o vencedor do confronto entre Freiburg e Celta de Vigo. Um eventual título europeu teria impacto duplo: garantiria a vaga do Betis na próxima Champions League independentemente da classificação pela La Liga e ainda ajudaria a Espanha a conquistar uma vaga extra no ranking da Uefa — o que, pela classificação atual do Espanhol, beneficiaria o próprio Betis.
Na temporada passada, o clube ficou a um passo de tudo isso: vice-campeão da Conference League e sexto lugar na La Liga. A memória da quase-conquista ainda dói nos bastidores do clube. Desta vez, o roteiro parece mais favorável — e tem um brasileiro no centro dele.
"Antony foi alçado ao posto de novo xodó do futebol espanhol", escreveu o UOL Esporte, numa síntese que captura bem o que Sevilha sente quando o camisa 7 toca na bola.
O Betis não vence há seis jogos na La Liga — a sequência inclui o empate sem gols com o Espanyol, quando Pellegrini preferiu preservar Antony para Braga. A equipe precisa retomar o ritmo no campeonato para não ver a vaga na Champions escapar pela La Liga enquanto aposta tudo na Liga Europa. Os próximos três jogos no Espanhol serão decisivos para definir se o clube chega ao fim da temporada com dois objetivos ainda vivos ou apenas um. O jogo da volta contra o Braga, nesta quinta-feira em Sevilha, é o primeiro teste — e o mais urgente.









