A última vez que um jogador europeu disputou seis edições de uma Copa do Mundo foi em 1966 — e era o goleiro alemão Sepp Maier, que não marcava gols. Cristiano Ronaldo, nesta quarta-feira, 17 de junho, fez algo diferente: entrou em campo no NRG Stadium de Houston como atacante titular de Portugal, aos 41 anos, com 8 gols acumulados em Mundiais e a missão de alcançar Miroslav Klose, o alemão que encerrou a carreira com 16 tentos em Copas do Mundo. A partida, contra a República Democrática do Congo, válida pelo Grupo K, começou às 14h (horário de Brasília).

A Copa que o Congo esperava desde 1974

Do outro lado do gramado, a história era igualmente carregada de simbolismo. A RD Congo — que em 1974 ainda se chamava Zaire e estreou no Mundial com uma derrota de 9 a 0 para a Iugoslávia — voltou ao torneio depois de 52 anos de ausência, garantindo sua vaga apenas em 31 de março deste ano, quando conquistou o 47º e penúltimo bilhete para a edição de 2026. A equipe comandada pelo treinador francês Sébastien Desabre chegou à estreia em Houston sem grande confiança: empatou em 0 a 0 com a Dinamarca e perdeu por 2 a 1 para o Chile nos amistosos preparatórios. Ainda assim, os Léopards tinham motivação suficiente para escrever uma história diferente da de meio século atrás.

O capitão congolês Chancel Mbemba, de 31 anos, foi escalado como titular na defesa. O zagueiro do LOSC acumulou 21 partidas e 1.657 minutos em campo na temporada 2025/2026, sendo o jogador mais experiente da seleção. Ao seu lado, o jovem meia Ngal'ayel Mukau, de 21 anos e também do Lille, foi confirmado no meio-campo após ser titular nos dois amistosos de preparação. A escalação congolesa foi: Mpasi; Wan-Bissaka, Tuanzebe, Mbemba, Kapuadi e Masuaku; Moutoussamy, Mukau e Kayembe; Wissa e Bakambu.

A tempestade na Flórida e a polêmica da praia

A preparação portuguesa para a estreia não foi exatamente serena. Três dias antes do jogo, o acampamento base da seleção em Palm Beach Gardens, na Flórida, foi atingido por chuvas torrenciais e tempestades que forçaram a evacuação do centro de treinamentos e o cancelamento da sessão de trabalho e da coletiva de imprensa. A natureza, que não consultou Roberto Martínez, impôs uma pausa involuntária à rotina da equipe.

Antes disso, uma outra polêmica havia movimentado a imprensa portuguesa: imagens dos jogadores — incluindo Ronaldo — nas praias da Flórida geraram críticas de torcedores. O lateral Matheus Nunes, do Manchester City, foi o primeiro a responder:

"As idas à praia já faziam parte do plano de trabalho para nos adaptarmos ao clima. Por exemplo, eu passo o ano a jogar em Manchester e lá não faz tanto calor, é uma diferença brutal. Por isso, já estava nos planos ir à praia de manhã para nos adaptarmos ao calor, ao sol e à humidade"
, explicou o jogador. Na véspera do jogo, Bruno Fernandes, do Manchester United, reforçou o argumento com um toque de impaciência:
"Foi algo que já estava planeado e que faz parte da adaptação. Se não estivéssemos na praia, teríamos que estar fechados no quarto de hotel. O que provavelmente não é o melhor para a questão física"
.

O corpo que desafia a biologia e os recordes que Ronaldo persegue

Seria injusto chamar de disciplina o que Cristiano Ronaldo pratica — mas é uma disciplina em escala industrial. Aos 41 anos, o atacante mantém uma rotina alimentar baseada em proteínas de baixo custo, hidratação rigorosa e sono fracionado, protocolo que ele aperfeiçoou ao longo de duas décadas e que seus preparadores físicos descrevem como determinante para que ele continue competindo em alto nível. O resultado concreto está nas estatísticas: nenhum outro jogador da história chegou a uma sexta Copa do Mundo como atacante titular.

A escalação confirmada por Roberto Martínez para a estreia foi: Diogo Costa; João Cancelo, Tomás Araújo, Renato Veiga e Nuno Mendes; João Neves, Vitinha e Bruno Fernandes; Pedro Neto, Cristiano Ronaldo e Bernardo Silva. Portugal entrou em campo sem desfalques, com força máxima. O único jogador da história a também ter disputado seis Mundiais é o mexicano Antonio Carbajal, goleiro que participou das edições de 1950 a 1966 — e que, como Maier, não estava ali para marcar gols.

Com 8 gols em Copas — distribuídos entre 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022 —, Ronaldo precisa de 9 tentos para superar Miroslav Klose e se tornar o maior artilheiro da história do torneio. O número é alto para uma única edição, mas a matemática não é o que importa aqui: cada gol que ele marcar em Houston, Kansas City ou onde quer que Portugal avance nesta Copa do Mundo 2026 reduzirá essa distância e alimentará uma narrativa que o futebol raramente produz. Portugal ainda busca seu primeiro título mundial, e Ronaldo, que tem 41 anos e 17 dias nesta estreia, sabe que este é, provavelmente, o último capítulo disponível para escrevê-lo — em matéria do SportNavo, os números da campanha no Grupo K, que ainda conta com Uzbequistão e Colômbia, serão acompanhados jogo a jogo. A segunda rodada de Portugal está prevista para a próxima semana, quando o adversário será definido pela chave.