O vestiário ainda cheirava a gesso quando Álvaro Arbeloa pegou o microfone na coletiva desta sexta-feira, 22 de maio. Um corte na cabeça de Federico Valverde, uma briga com Aurélien Tchouaméni, multas de 500 mil euros para cada um — e o treinador ali, tentando explicar que saiu em boas condições com quase todo mundo. A palavra "quase" pesou mais do que qualquer número de pontos conquistados.
Arbeloa, 43 anos, assumiu o Real Madrid em janeiro de 2026 como solução emergencial após a demissão de Xabi Alonso, que caiu logo depois da derrota na Supercopa da Espanha para o Barcelona. A missão era estabilizar. O resultado foi um segundo lugar na La Liga e a eliminação nas quartas de final da Champions League pelo Bayern de Munique. Estabilização parcial, portanto.
Quatro meses, 27 jogos e um vestiário que Arbeloa não escolheu
Os números de Arbeloa no comando merengue são, na superfície, razoáveis: 17 vitórias, 2 empates e 8 derrotas em 27 partidas. Uma taxa de aproveitamento próxima de 63%, que em qualquer outra temporada seria suficiente para garantir a continuidade. Mas o contexto importa mais do que a planilha.
Ele mesmo admitiu isso na coletiva de sexta-feira, com uma frase que resume bem o dilema de quem herda uma crise já instalada:
"Eu sei em que estado a equipe estava quando cheguei. Com o que tive de lidar. Se eu tivesse começado desde o início, teria sido diferente. Mas foi isso que me foi dado, e tentei fazer isso da melhor maneira possível."
A briga entre Valverde e Tchouaméni foi o episódio mais simbólico de um ambiente que já estava fragmentado antes de Arbeloa sequer escalar sua primeira equipe. O capitão uruguaio acabou hospitalizado com um corte, e os dois jogadores foram multados em 500 mil euros cada pelo clube — punição que não resolveu nada do ponto de vista do vestiário. Quem trabalhou no futebol europeu sabe que esse tipo de conflito raramente nasce do nada: é o acúmulo de semanas, às vezes meses, de tensão mal administrada.
Para quem acompanhou o Real Madrid dos anos 2000, a cena tem um paralelo incômodo com a temporada 2008-09, quando Bernd Schuster foi demitido em dezembro com o clube em crise interna e Juande Ramos assumiu sem conseguir consertar o que estava quebrado. A diferença é que Arbeloa, ao menos, entregou o vice-campeonato espanhol — Ramos terminou em terceiro lugar.
O que Arbeloa construiu e o que ele deixa por resolver antes do último jogo
Neste sábado, 23 de maio, o Real Madrid recebe o Athletic Bilbao no Santiago Bernabéu na última rodada de La Liga. É o jogo de despedida de Arbeloa como treinador da equipe principal — e ele deixou claro que quer aproveitá-lo ao máximo.
"Tomara que seja um até logo. Sempre considerei o Real Madrid minha casa. São 20 anos de clube, é a minha casa. É meu último jogo nesta temporada, não sei se será o último da minha vida como treinador do Real, nunca sabemos."
Vinte anos de clube — como jogador, coordenador de base e técnico do Real Madrid B antes de chegar ao time principal. Essa trajetória explica tanto a lealdade quanto a limitação: Arbeloa foi promovido de dentro para resolver uma emergência, sem o tempo de pré-temporada, sem a chance de montar um elenco e sem autoridade suficiente para impor disciplina a jogadores que o conheceram em outros papéis institucionais.
A eliminação para o Bayern nas quartas da Champions foi o golpe definitivo nas pretensões de continuidade. Em La Liga, o Barcelona termina campeão — e o segundo lugar, embora honroso em circunstâncias normais, soa insuficiente para um clube que entre 2016 e 2018 venceu três Champions Leagues consecutivas e que, em 2021-22, conquistou a liga espanhola com 86 pontos.
O que Mourinho herda e por que a terceira passagem será diferente das anteriores
José Mourinho é o nome mais cotado para assumir o Real Madrid na temporada 2026-27, e Arbeloa foi direto ao ponto quando perguntado sobre uma possível colaboração:
"Mourinho tem uma comissão técnica fantástica, muito bem apoiado. Se ele vier, virá com a sua própria equipe, como deve ser. Não há possibilidade de eu me juntar a ele."
Mourinho no Real Madrid não é novidade. Entre 2010 e 2013, o português conquistou uma La Liga histórica — a temporada 2011-12 com 100 pontos, recorde absoluto do campeonato espanhol até hoje. Mas também deixou rastros de conflito: a relação deteriorada com Iker Casillas, o choque com Sergio Ramos, a tensão permanente com a imprensa catalã. Mourinho ganhou muito. E também deixou cicatrizes.
A diferença estrutural agora é que o elenco de 2026 não tem as mesmas referências de liderança daquela época. Casillas, Ramos, Xabi Alonso — figuras que absorviam pressão e mediavam conflitos internos — foram substituídos por gerações que ainda não consolidaram esse papel. Valverde é capitão, mas o episódio com Tchouaméni mostrou que a armadura ainda está incompleta.
Mourinho, aos 63 anos, chega a uma terceira passagem num clube que ele conhece profundamente — mas que mudou. O modelo de gestão do presidente Florentino Pérez segue o mesmo, com decisões de mercado centralizadas e expectativa de resultados imediatos. O técnico português terá de reconstruir a hierarquia do vestiário enquanto compete em Champions League, La Liga e Copa del Rey simultaneamente, sem margem para um período longo de adaptação.
É o mesmo cenário que Carlo Ancelotti viveu em 2013, quando retornou ao Real Madrid após anos longe da Espanha e precisou recompor um grupo que havia acabado de passar por uma temporada turbulenta — só que agora a aposta é num treinador com perfil de confronto direto, não de conciliação.










