Diz-se que a Argentina de Scaloni tem um dos ataques mais versáteis do futebol mundial. Na verdade, não tem — e os números desta Copa do Mundo expõem isso com uma clareza que desconforta. Lionel Messi marcou os 5 gols da seleção argentina na fase de grupos, contra Argélia (3 a 0) e Áustria (2 a 0). Julián Álvarez, Lautaro Martínez, Enzo Fernández — nenhum deles balançou a rede. Essa concentração ofensiva em um único jogador de 39 anos, que se recuperou recentemente de uma lesão muscular, é exatamente o tipo de dado que os adversários das oitavas de final já estão mapeando.
Quem ganha com a poupança de Messi contra a Jordânia
O técnico Lionel Scaloni foi direto ao ponto quando questionado sobre o rodízio planejado para o jogo de sábado, em Arlington, no Texas:
"A ideia é dar à maioria dos jogadores a chance de jogar. Acho que eles merecem isso e, sempre que a partida permitir, faremos isso", disse Scaloni a jornalistas.
Os beneficiados imediatos são claros. Julián Álvarez, que entrou como reserva nas duas primeiras partidas e admitiu não ter chegado na melhor condição física aos amistosos pré-Copa, deve ganhar minutos preciosos. O próprio atacante reconheceu a evolução:
"Não cheguei na melhor forma para disputar os amistosos, mas me sinto muito bem agora. Apoiando a equipe e cumprindo o papel que me foi atribuído", declarou Álvarez.
Nicolás Tagliafico e Leandro Paredes, também em processo de retomada após lesões recentes, devem ganhar espaço. Na defesa, com Cristian Romero fora por contusão sofrida contra a Áustria, o veterano Nicolás Otamendi assume a vaga — um sinal de que Scaloni prefere experiência à experimentação quando o setor defensivo ainda não foi testado por adversários de peso.
O vazio que Nico Paz precisa preencher — e o que a história ensina
A dependência ofensiva de uma seleção em torno de um único astro não é novidade no futebol de Copa do Mundo. Quem acompanhou a França de 1998 sabe que Zinedine Zidane respondia por toda a criatividade do meio-campo — e quando ele foi expulso na fase de grupos contra a Arábia Saudita, os franceses mal funcionaram. A diferença é que Aimé Jacquet tinha Thierry Henry e David Trezeguet como opções de peso. Scaloni, hoje, aposta em Nico Paz, o meia do Como que fez uma temporada 2025/2026 de alto nível na Serie A italiana — o mesmo campeonato onde trabalhei como correspondente por quatro anos e aprendi que jovens de 20 anos costumam crescer exatamente sob pressão de palco grande.
Paz não é um substituto natural de Messi no sentido posicional. Messi opera como falso 9, organizador de último terço e finalizador. Paz é um meia-atacante com vocação para a construção e o passe vertical. A Argentina, sem o camisa 10, tende a perder a referência de movimentação entre as linhas — aquele espaço que Messi ocupa instintivamente e que nenhum outro jogador do elenco ocupa da mesma forma.
Comparativamente, é como a Espanha de 2010 sem David Villa: funcionava, mas perdia o gatilho. Villa marcou 5 gols naquela Copa, e a Roja dependia dele para converter o domínio de posse em placar. A Argentina de hoje replica essa estrutura com Messi como finalizador supremo — e o jogo contra a Jordânia será o primeiro teste real de como a equipe se reorganiza sem ele.
Quem sai perdendo e o efeito cascata para as oitavas
O adversário das oitavas de final será o segundo colocado do Grupo H, com o confronto marcado para 3 de julho, em Miami. Esse rival já terá assistido ao jogo contra a Jordânia — e qualquer fragilidade ofensiva da Argentina sem Messi será registrada, analisada e explorada. A Jordânia, em sua estreia histórica no torneio, foi eliminada após derrotas para Áustria (3 a 1) e Argélia (2 a 1), mas o técnico Jamal Sellami afirmou que o confronto contra os atuais campeões do mundo será uma oportunidade de deixar uma marca positiva.
O efeito cascata é duplo: se a Argentina marcar com facilidade mesmo sem Messi, Scaloni ganha argumentos para rodar o elenco também nas oitavas, preservando o craque para um eventual confronto nas quartas. Se a equipe patinar ofensivamente — placar magro, chances desperdiçadas, Álvarez apagado — o técnico terá de repensar o quanto pode poupar Messi nas fases seguintes sem comprometer o desempenho coletivo.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta fase de grupos, a defesa argentina ainda não enfrentou um adversário capaz de criar pressão real. Argélia e Áustria foram superadas com conforto, mas nenhuma delas testou a linha de quatro com transições rápidas. Otamendi no lugar de Romero é uma solução de emergência que funciona em jogos controlados — e pode ser exposta em oitavas contra equipes com mais velocidade no contra-ataque.
O que o jogo contra a Jordânia realmente decide
Classificação? Já resolvida. Liderança do grupo? Garantida.
Mas há uma pergunta que vale mais do que qualquer resultado de sábado:
A Argentina consegue criar, finalizar e marcar sem Messi — ou é apenas uma seleção de um homem só disfarçada de coletivo?
A resposta a essa pergunta não será dada pelo placar contra a Jordânia, uma equipe eliminada que joga pelo orgulho de sua estreia histórica. Será dada em Miami, no dia 3 de julho, quando o nível do adversário subir e Scaloni precisar decidir se Messi entra do início ou é poupado para mais tarde. Nico Paz tem talento de sobra para ser protagonista nesta Copa — mas o palco das oitavas de final é outro planeta comparado ao que ele enfrentou até aqui. Está pronto — falta o adversário que realmente o exija.










