O chão do Estádio UNO, em La Plata. O silêncio dos jogadores do Flamengo ao redor de Arrascaeta deitado no gramado dizia mais do que qualquer placar. Aos 16 minutos do primeiro tempo da terceira rodada da Copa Libertadores, uma dividida com o zagueiro Piovi resultou na pior notícia possível para o time rubro-negro: fratura na clavícula direita do camisa 10 uruguaio. O empate em 1 a 1 com o Estudiantes ficou em segundo plano. O que realmente abalou a delegação foi a saída prematura do jogador mais criativo do elenco.

A lesão, a cirurgia e os 45 dias que mudam tudo

Ainda na Argentina, Arrascaeta foi encaminhado a um hospital próximo ao estádio para exames de imagem. O diagnóstico confirmou a fratura na clavícula direita. Na madrugada de quinta-feira (30), o clube oficializou a decisão: o uruguaio passaria por cirurgia no Rio de Janeiro, com a equipe formada pelos especialistas Márcio Schiefer e Bruno Tebaldi, além de Fernando Sassaki, chefe do departamento médico do Flamengo. O procedimento foi realizado nesta quinta.

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O Flamengo trabalha internamente com um prazo de 45 dias para o retorno do jogador aos gramados — estimativa que se encaixa nos casos de cirurgia para correção desse tipo de fratura. Para se ter ideia da referência, o meia Montoro, do Botafogo, passou por situação semelhante durante o Mundial Sub-20 do ano passado com a seleção argentina e levou 41 dias para voltar a jogar. A evolução, no entanto, é individual e depende da resposta fisiológica de cada atleta.

A esposa de Arrascaeta, Camila Bastiani, usou o Instagram para mandar uma mensagem emocionante ao marido.

"Existem situações que só podem ser compreendidas através da fé que depositamos em Deus. Estamos te esperando aqui, pai, para juntos nos recuperarmos", escreveu Camila.

A lesão, a cirurgia e os 45 dias que mudam tudo Arrascaeta fratura a clavícula e
A lesão, a cirurgia e os 45 dias que mudam tudo Arrascaeta fratura a clavícula e

O buraco que Arrascaeta deixa no meio-campo

Os números falam por si. Em 2025, Arrascaeta acumula 5 gols e 7 assistências — 12 participações diretas em gols, a melhor marca entre os jogadores de meio-campo do Flamengo na temporada. Ele não é apenas um criador de jogadas: é o metrônomo que dita o ritmo ofensivo, o responsável por ligar o setor de criação ao ataque. Sem ele, o Flamengo joga em outra velocidade.

Em La Plata, a diferença foi perceptível já nos primeiros minutos após sua saída. Carrascal entrou em seu lugar ainda com o placar em 0 a 0, e o colombiano participou da jogada que culminou no gol de Luiz Araújo aos 33 minutos do primeiro tempo — um lance de qualidade. Mas o segundo tempo mostrou um Flamengo menos fluido, que permitiu o empate de Guido Carrillo aos 10 minutos da etapa final e precisou de três grandes defesas de Agustín Rossi para não sair derrotado. A análise do SportNavo mostra que o time perdeu consistência justamente no momento em que o desgaste aumentou e a necessidade de criação era maior.

La Plata, a arbitragem e um empate que dói mais pelo contexto

O clima no Estádio Jorge Luis Hirschi era de guerra desde o aquecimento. A violência do Estudiantes dentro de campo gerou revolta generalizada nos jogadores do Flamengo, que acusaram o árbitro chileno Piero Maza de omissão em lances graves. O zagueiro Danilo foi direto na zona mista:

"Erro claro. O árbitro esteve muito abaixo do nível do espetáculo. O cara deu uma tesoura na canela do Emerson Royal. O outro zagueiro, de forma maldosa, foi no Bruno Henrique. No lance do Bruno Henrique, não estou nem pedindo cartão vermelho direto, mas sim um segundo amarelo, claro e evidente. Qualquer pessoa daria esse cartão", disparou o defensor.

Emerson Royal também saiu do campo machucado — dores na costela, na perna e no pescoço, segundo o próprio lateral. Ele revelou o diálogo com Piero Maza após a entrada de Farías com a famosa "tesoura":

"Ele me disse que o jogador não usou força excessiva para receber cartão vermelho. Eu respondi: uma tesoura por trás precisa quebrar a perna para ser considerada força excessiva?"
O VAR não interveio em nenhum dos lances polêmicos.

Apesar do ambiente hostil e da arbitragem questionável, o diretor de futebol José Boto preferiu exaltar o comportamento do elenco. "Nossos jogadores estiveram com uma performance impecável a nível mental. Não perderam a cabeça", afirmou o dirigente português após a partida. O ponto conquistado manteve o Flamengo na liderança do Grupo A, com 7 pontos, dois à frente do Estudiantes.

Quem assume e o que muda no restante da Libertadores

Com Arrascaeta fora por cerca de 45 dias, Filipe Luís terá de remodelar o meio-campo para as próximas rodadas da fase de grupos. Carrascal é o nome mais natural para assumir a posição, mas o colombiano ainda não tem a mesma consistência do uruguaio em jogos de alta pressão. Gerson e De la Cruz ganham ainda mais responsabilidade como condutores do jogo.

O Flamengo volta a campo já neste domingo (3), às 16h (horário de Brasília), no Maracanã, contra o Vasco pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro — o primeiro teste real sem Arrascaeta. Depois, o calendário aperta: os rubro-negros ainda têm ao menos mais três rodadas na fase de grupos da Libertadores, com a classificação às oitavas dependendo de resultados consistentes. Se o prazo de 45 dias for cumprido, o camisa 10 pode retornar justamente para o início do mata-mata — mas qualquer complicação na recuperação pós-cirúrgica pode comprometer até sua participação pela seleção uruguaia na Copa do Mundo, cuja estreia está marcada para 15 de junho, contra a Arábia Saudita.