Diz-se que o Flamengo depende de Arrascaeta mais do que qualquer outra seleção depende de um único meia. A afirmação parece exagerada — até você perceber que, na Copa do Mundo de 2022, o uruguaio foi o autor dos dois únicos gols da Celeste na competição, ambos na vitória por 2 a 0 sobre Gana, e que sem ele a equipe não criou uma única chance limpa nos outros dois jogos. O Uruguai não foi eliminado por falta de estrutura coletiva. Foi eliminado por falta de Arrascaeta. O que aconteceu nesta terça-feira, 2 de junho, joga esse dado de volta à mesa com força total.

Uma clavícula, um músculo e 13 dias para uma decisão

Giorgian de Arrascaeta deixou o treino da seleção uruguaia com dores musculares e será submetido a exames para determinar a gravidade da lesão. A informação foi publicada pelo El País de Montevidéu, e a Rádio Carve Deportiva foi ainda mais direta:

"Giorgian De Arrascaeta sentiu fisicamente e está muito complicado de cara para a Copa do Mundo."
O Telemundo Deportes chegou a afirmar que o meia está com "um pé fora do Mundial". A Federação Uruguaia de Futebol não se pronunciou até o momento.

O contexto torna o caso mais delicado. Arrascaeta não entra em campo desde 29 de abril, quando fraturou a clavícula direita em jogo contra o Estudiantes pela Copa Libertadores. A lesão exigiu cirurgia, e o Flamengo liberou o jogador com antecedência para que ele seguisse o tratamento junto ao departamento médico uruguaio. Ou seja: um atleta ainda em processo de recuperação de fratura óssea agora apresenta dores musculares — o tipo de combinação que nenhum médico quer ver a 13 dias de uma estreia em Copa do Mundo.

Há um paralelo histórico que merece atenção. Na Copa de 2006, a Alemanha perdeu Michael Ballack para problemas musculares acumulados durante a Bundesliga e chegou ao torneio com o meia em ritmo de treino, não de jogo. Klinsmann manteve ele na lista, apostou na recuperação, e Ballack foi decisivo na campanha que levou a Mannschaft ao terceiro lugar. A diferença é que Ballack tinha 29 anos e um corpo que já havia completado aquela temporada. Arrascaeta, aos 30, carrega uma clavícula cirurgiada há pouco mais de um mês.

O que o Uruguai perde sem o camisa 10 do Flamengo

Para entender o impacto tático, o próprio Arrascaeta forneceu a melhor análise. Em entrevista ao Sofascore publicada antes da lesão muscular desta terça, o meia foi preciso sobre seu estilo:

"Quem entende de futebol sabe disso. Sou um cara de jogo associado, não tão intenso. Mas a gente tem que saber a forma que o treinador quer jogar, o que pede de você."
Essa descrição — jogo associado, proximidade ao gol, construção ofensiva — é exatamente o que o esquema de Marcelo Bielsa no Uruguai não tem em nenhum outro nome da convocação com a mesma consistência.

Na temporada de 2025, sob o comando de Filipe Luís no Flamengo, Arrascaeta somou 25 gols e 19 assistências. São números que colocam o meia entre os cinco jogadores mais produtivos do futebol sul-americano naquele período. O próprio jogador creditou parte da performance ao trabalho do técnico: "Ele tentava me deixar o mais confortável possível dentro de campo, perto do gol", disse sobre Filipe Luís. No Uruguai de Bielsa, a função é diferente — mais desgastante, mais física — mas a criatividade que Arrascaeta carrega é insubstituível no catálogo uruguaio.

A Copa do Mundo de 2026 apresenta ao Uruguai um Grupo H que, no papel, parece acessível: Arábia Saudita na estreia em 15 de junho, em Miami, seguida por Cabo Verde e Espanha. Mas basta lembrar o que aconteceu na Copa de 2022, quando a Celeste precisou vencer Portugal na última rodada, não conseguiu e foi eliminada, para entender que nenhum grupo é simples quando o criador central da equipe está em dúvida.

Quem pode ocupar o espaço de Arrascaeta na Celeste

A lista de convocados uruguaios não tem um substituto natural para o papel de Arrascaeta como meia-atacante criativo. O nome mais próximo taticamente é Facundo Pellistri, do Manchester United, que possui velocidade e capacidade de driblar em espaços reduzidos, mas opera mais pelas beiradas do que pelo centro onde Arrascaeta é mais letal. Mathías Olivera, do Napoli, é outra peça do grupo com experiência europeia, mas cumpre função defensiva como lateral-esquerdo.

Há um precedente que Bielsa conhece bem. Na Copa América de 1995, o Uruguai perdeu Enzo Francescoli para uma lesão muscular antes da semifinal contra o Brasil e precisou reorganizar o meio-campo em menos de 48 horas. A equipe foi eliminada. Não por colapso tático, mas porque ninguém no plantel conseguia fazer o que Francescoli fazia no espaço entre as linhas. Trinta e um anos depois, a geometria do problema é idêntica: um meia que conecta setores, que sabe onde o gol está antes de receber a bola, e nenhum clone disponível no banco.

A opção mais realista para Bielsa seria recalibrar o sistema para um 4-4-2 mais compacto, apostando na dupla Darwin Núñez e Edinson Cavani como referências de área e na intensidade física para compensar a ausência de criatividade. Funcionou em 2010, quando Diego Forlán carregou o Uruguai até a semifinal com um elenco sem meio-campo de categoria europeia. Mas aquele Forlán estava em forma de carreira. Darwin Núñez, em 2026, ainda não mostrou a consistência que seu talento promete.

Uma clavícula, um músculo e 13 dias para uma decisão Arrascaeta sente dores musc
Uma clavícula, um músculo e 13 dias para uma decisão Arrascaeta sente dores musc

A estreia contra a Arábia Saudita e o peso de cada ausência

A Arábia Saudita, adversária do Uruguai em 15 de junho, não é a mesma equipe que eliminou a Argentina em 2022 num resultado que paralisou o mundo do futebol. O ciclo que gerou aquele 2 a 1 histórico foi construído por Hervé Renard com anos de trabalho e um grupo específico que já passou. A seleção saudita atual é mais previsível, mais defensiva, e tende a recuar após o primeiro gol sofrido. Contra esse perfil de adversário, a ausência de Arrascaeta dói menos do que dói contra Espanha, que fecha o grupo e exige criação ofensiva de alto nível.

Ainda assim, estrear numa Copa do Mundo sem o jogador que mais criou na temporada anterior — e que o próprio Arrascaeta apontou França, Espanha e Argentina como as três favoritas ao título, colocando o Uruguai fora desse rol — é uma fragilidade que a imprensa uruguaia já reconhece. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta semana de preparação, o caso Arrascaeta se tornou o maior ponto de atenção da Celeste antes mesmo de a Copa começar.

Os exames médicos realizados nas próximas horas definirão se o meia entra na lista dos cortados — como Christoph Baumgartner, da Áustria, que publicou carta emocionante ao ser cortado por lesão no quadríceps — ou se consegue chegar à estreia como opção de banco, à espera de que seu corpo responda ao que a cabeça já sabe fazer. O prazo é curto. A margem para erro, menor ainda. Se Arrascaeta for cortado, o Uruguai vai à Copa do Mundo sem seu principal meia criativo e com uma única certeza: terá de vencer de outro jeito.

Sem Arrascaeta, o Uruguai não é favorito. Com ele lesionado no banco, também não.