"Vinte e dois anos é tempo demais para um clube deste tamanho." A frase não veio de Arteta nem de nenhum jogador do Arsenal — foi dita por um torcedor anônimo do Emirates Stadium que carregava uma bandeira desbotada com o escudo de 2004, o último ano em que os Gunners levantaram a taça da Premier League. Aquele detalhe — o tecido gasto, as cores quase apagadas — dizia mais sobre a espera do que qualquer discurso institucional poderia dizer.

No domingo, 24 de maio de 2026, o Arsenal cumpriu tabela diante do Crystal Palace no Selhurst Park — um confronto sem tensão esportiva, já que o Palace estava confortável em 15º com 45 pontos, longe do rebaixamento e fora de qualquer briga continental. O título já estava matematicamente garantido antes do apito inicial, mas o jogo funcionou como cerimônia de encerramento de um ciclo que Mikel Arteta construiu tijolo por tijolo desde que assumiu o clube em dezembro de 2019.

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O que os números revelam sobre a campanha dos Gunners

Quem acompanhou a temporada europeia 2025/26 de perto — e eu tive a oportunidade de seguir boa parte dela de Londres, onde ainda mantenho contatos na imprensa britânica — percebeu que o Arsenal não ganhou o título na reta final. Ele foi construído no pressing alto de outubro e novembro, quando os Gunners acumularam sequências defensivas que lembravam o melhor Atlético de Simeone, mas com transições ofensivas muito mais verticais. O gegenpressing que Arteta absorveu de Guardiola — seu mentor no Manchester City entre 2016 e 2019 — apareceu refinado, adaptado ao perfil físico de um elenco mais jovem e com mais profundidade de banco.

O Manchester City terminou a temporada em segundo lugar com 78 pontos — número que, em qualquer outra era da Premier League, seria suficiente para o título. O City encerrou sua campanha recebendo o Aston Villa, quarto colocado com 62 pontos e já classificado para a Champions League da próxima temporada. O Liverpool, em quinto com 59, ainda tentava alcançar o Villa na última rodada, o que tornava o duelo no Etihad Stadium o único jogo com algum sabor competitivo — ainda que não para os donos da casa.

"Guardiola faturou 20 taças pelo Manchester City. Se ele sair, sai como o maior treinador da história do clube — e talvez do futebol moderno." — síntese da cobertura da imprensa europeia especializada sobre o possível adeus do espanhol.

Guardiola e o silêncio que circula em Manchester

A grande sombra que paira sobre o Etihad Stadium — e que transforma este vice-campeonato em algo mais do que uma derrota pontual — é a possível saída de Josep Guardiola ao fim da temporada. A imprensa europeia, que raramente especula sem algum fundamento nos bastidores, circula a informação com uma consistência que vai além do rumor. Guardiola acumula 20 títulos sob o comando dos citizens: seis Premier Leagues, uma Champions League, quatro FA Cups e uma sequência de conquistas domésticas que transformou Manchester City em referência global de tiki-taka evoluído.

O que chama atenção — e aqui falo como alguém que viveu oito anos entre Barcelona e Londres e acompanhou de perto o ciclo Guardiola no Camp Nou — é que a saída, se confirmada, não representaria fracasso. Representaria o esgotamento natural de um projeto que chegou ao seu limite de renovação. Guardiola já sinalizou em outras ocasiões que prefere deixar antes de se tornar repetitivo. No Bayern Munique, saiu após três Bundesligas consecutivas. No Barcelona, após quatro anos de domínio absoluto. O padrão é o mesmo: vai embora no topo, ou próximo dele, antes que o ciclo vire rotina.

"Quando um técnico conquista tudo o que há para conquistar num clube, a pergunta não é se ele vai sair — é quando." — perspectiva recorrente entre analistas da imprensa inglesa consultados ao longo da temporada.

Arteta e o projeto que demorou mas chegou

Do outro lado da cidade — ou melhor, do outro lado de Londres, já que o Arsenal opera a partir do Emirates Stadium em Holloway — Mikel Arteta completou o que talvez seja o trabalho de construção mais paciente da Premier League dos últimos dez anos. O técnico espanhol, que chegou ao clube em dezembro de 2019 sem nunca ter comandado uma equipe profissional antes, transformou um Arsenal que oscilava entre o meio da tabela e as bordas do top-4 numa máquina coletiva capaz de sustentar uma temporada inteira no topo da tabela.

A comparação com o que Arteta absorveu do período em que foi assistente de Guardiola no City — entre 2016 e 2019 — é inevitável, mas também insuficiente. O Arsenal de 2026 não é uma cópia do City de 2018. O pressing é mais agressivo nas linhas defensivas, a construção pelo lado direito ganhou características próprias, e o bloco médio que o time usa quando perde a bola é mais compacto do que qualquer coisa que Guardiola já montou em Manchester. Arteta pegou o idioma tático do mestre e escreveu sua própria frase.

A última vez que o Arsenal foi campeão inglês foi em 2004 — a temporada dos Invencibles, o time de Thierry Henry, Patrick Vieira e Robert Pires que terminou a Premier League sem uma única derrota. Aquele feito entrou para a história como um dos maiores da era moderna do futebol europeu. O título de 2026 não tem a mesma aura mítica, mas carrega um peso diferente: o da reconstrução, da paciência e de um projeto que sobreviveu a críticas pesadas — especialmente após o Arsenal de 2022/23 liderar por meses e deixar o título escapar para o próprio City.

O Arsenal volta a campo na próxima temporada — a de 2026/27 — com o peso de ser o atual campeão inglês e o desafio de disputar a Champions League como cabeça de chave. O Manchester City, por sua vez, iniciará sua pré-temporada com a questão mais urgente do futebol europeu sobre a mesa: quem será o próximo técnico do clube se Guardiola confirmar a saída nos próximos dias.

O Arsenal esperou 22 anos. O City pode esperar muito mais para encontrar outro Guardiola.