Costuma-se dizer que o Arsenal de Arsène Wenger era inimitável — que o clube havia chegado ao seu teto histórico naquele invicto de 2003/2004, os 49 jogos sem derrota, os 90 pontos, o apelido de Invincibles. Na prática, não era um teto: era um patamar que esperava alguém com paciência suficiente para alcançá-lo. Mikel Arteta chegou lá em maio de 2026, 22 anos depois, e o Arsenal já tratou de garantir que o arquiteto dessa reconstrução não vá a lugar nenhum.

A conquista da Premier League foi sacramentada na terça-feira, 19 de maio, depois do tropeço do Manchester City diante do Bournemouth fora de casa. O título chegou sem que os Gunners precisassem entrar em campo — exatamente como aconteceu com o Manchester United em 1993, quando a derrota do Aston Villa para Oldham Athletic, numa segunda-feira de abril, entregou o caneco para Ferguson sem uma bola chutada pelos Reds. Há uma poesia cruel nessa mecânica do futebol inglês.

Bournemouth - Manchester City

O que vale o título de Arteta em libras e em história

Arteta recebe atualmente cerca de 11,5 milhões de euros por temporada, mais bônus por classificação à Champions League. O novo contrato — cujas tratativas já avançaram significativamente, segundo a imprensa inglesa — deve elevar esse valor a um patamar próximo ao de Diego Simeone no Atlético de Madrid, hoje o técnico com maior salário no futebol mundial. Para efeito de comparação: quando Simeone chegou ao Atlético em dezembro de 2011, recebia algo em torno de 3 milhões de euros anuais. Quinze anos de títulos e fidelidade depois, está na casa dos 40 milhões. Arteta ainda não chegou lá, mas a trajetória começa a desenhar a mesma curva.

O contrato atual do espanhol vai até 2027. A tendência é de que o novo acordo estenda esse vínculo e inclua um aumento salarial expressivo, com desfecho esperado após a final da Champions, marcada para 30 de maio. Na avaliação do SportNavo, a diretoria do Emirates tem razão em agir com velocidade: no mercado de técnicos de alto nível, a janela de lealdade fecha rápido quando os títulos começam a aparecer.

"Um técnico que constrói identidade num clube durante seis ou sete anos vale mais do que qualquer contratação de estrela no mercado — porque ele já conhece a casa por dentro", disse um diretor esportivo europeu de longa data ao ser questionado sobre o fenômeno da fidelização de treinadores.

Arteta herda o vácuo de Guardiola na Premier League

Há um detalhe que vai além do salário. Com a provável saída de Pep Guardiola do Manchester City, Arteta se tornará o treinador há mais tempo no comando de um único clube na Premier League. Isso tem peso simbólico e tático: significa acumulação de cultura, de linguagem interna, de jogadores moldados à sua imagem. Ferguson ficou 26 anos no United e construiu três gerações distintas de equipes — a dos Cantona e Keane, a dos Beckham e Scholes, a dos Ronaldo e Rooney. Arteta está apenas no início dessa conta, mas a renovação sinaliza que o Arsenal quer dar a ele o mesmo horizonte temporal.

Quando o espanhol chegou ao Emirates em dezembro de 2019, o clube havia terminado a temporada 2018/2019 em 5º lugar, com 70 pontos — o pior desempenho em 25 anos. Na temporada 2021/2022, o Arsenal terminou em 2º lugar com 89 pontos, a melhor pontuação do clube desde o título de 2004. A progressão é linear e documentada: cada temporada com Arteta representou uma melhora mensurável no saldo de gols, no aproveitamento em casa e no número de pontos conquistados fora.

O mercado de técnicos e o novo patamar salarial que Arteta vai ocupar

O futebol europeu passou por uma inflação salarial de técnicos impressionante desde os anos 2000. Carlo Ancelotti recebia cerca de 2,5 milhões de euros anuais quando conquistou a Champions com o Milan em 2003. Guardiola, em seu primeiro contrato no City em 2016, estava na faixa dos 15 milhões. Hoje, os contratos de elite — Simeone, Klopp antes de sair do Liverpool, os principais nomes da Premier League — gravitam entre 15 e 40 milhões anuais. Arteta, a 11,5 milhões, estava tecnicamente subvalorizado em relação ao que entregou.

A renovação com aumento corrige essa assimetria. Mais do que isso, ela fecha a janela para que qualquer clube europeu — e o Real Madrid, o Barcelona e o PSG estarão atentos — tente abrir uma conversa informal nos próximos meses. O Arsenal de Stan Kroenke aprendeu a lição amarga de 2023, quando perdeu o título para o City na última reta do campeonato com 84 pontos — um total que teria sido suficiente para ser campeão em 15 das últimas 20 edições da Premier League. Deixar Arteta escapar agora seria repetir o mesmo erro em outra frequência.

Os detalhes finais da renovação devem ser anunciados após 30 de maio. Até lá, o Arsenal ainda tem uma final de Champions pela frente — e Arteta, um título inglês no bolso que leva 22 anos de espera embutidos. Uma receita que, como qualquer bom soufflé, exigiu temperatura certa, tempo preciso e a coragem de não abrir o forno antes da hora.