Três coisas: 22 anos, um placar apertado e um técnico que chegou a duvidar de si mesmo. Tudo se explica daí.

O Arsenal venceu o Crystal Palace por 2 a 1 no Selhurst Park neste domingo (24) e conquistou a Premier League pela primeira vez desde 2004 — quando Arsène Wenger comandava o lendário time dos Invencíveis e Thierry Henry era o melhor atacante do continente. Dois anos e dois títulos de liga separam aquela geração desta. O intervalo entre eles, porém, contou com 22 temporadas de oscilações, projetos interrompidos e a sombra constante de um passado glorioso que pesava mais do que qualquer placar adverso.

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O homem que quase desistiu antes de chegar ao topo

Mikel Arteta assumiu o comando do Arsenal em dezembro de 2019, vindo diretamente da comissão técnica de Pep Guardiola no Manchester City — o que, por si só, já carregava uma ironia bonita: o aprendiz precisaria superar o mestre para chegar ao título. O espanhol encontrou um clube com identidade fragmentada, elenco envelhecido em pontos críticos e uma torcida que havia aprendido, nos anos de Wenger pós-2006, a conviver com a decepção como parte do calendário anual.

O processo não foi linear. Houve momentos em que o próprio Arteta questionou sua capacidade de conduzir o projeto. Ele admitiu isso abertamente na coletiva pós-título, com uma sinceridade que raramente se vê num futebol europeu tão avesso à vulnerabilidade pública.

"Existem dúvidas e a compreensão de que talvez você não seja a pessoa certa. Graças a Deus que conseguimos. Sinto muita alegria e também muito alívio. Todos tiveram um papel a desempenhar", disse o treinador à Sky Sports.

O técnico agradeceu nominalmente ao ex-diretor esportivo Edu Gaspar e ao dirigente Tim Lewis — ambos já fora do clube — pelo apoio nos momentos de maior pressão. Essa menção tem peso: revela que a reconstrução do Arsenal foi, antes de qualquer coisa, um exercício coletivo de paciência institucional. Algo que, quem acompanhou os bastidores do futebol inglês de perto sabe, não é trivial numa liga onde o ciclo de demissão de técnicos gira em torno de 14 meses.

Saka, Odegaard e o pressing alto que mudou a cara do clube

A identidade tática que Arteta construiu ao longo de seis temporadas bebeu diretamente na escola de Guardiola — pressing alto, saída de bola pelos laterais, posse com propósito —, mas ganhou uma personalidade própria que vai além do rótulo de tiki-taka. O que o Arsenal apresentou na temporada 2025-2026 foi um time capaz de alternar entre blocos defensivos compactos e transições verticais rápidas, algo que nenhuma equipe de Wenger chegou a executar com essa consistência.

Bukayo Saka — nascido em Ealing, formado na academia do clube — foi o símbolo mais visível dessa transformação. O atacante de 24 anos viveu sua melhor temporada como profissional, combinando números ofensivos expressivos com uma participação defensiva que poucos wingers do continente conseguem replicar. Martin Odegaard, capitão norueguês que chegou em definitivo em 2021 por cerca de 35 milhões de euros, foi o metronomo que organizou tudo à frente da defesa — o tipo de meia que os espanhóis chamam de cerebro, aquele que decide o ritmo antes que a bola chegue nos pés dos criadores.

Na avaliação do SportNavo, o que diferenciou este Arsenal das campanhas anteriores — inclusive a de 2022-2023, quando o clube chegou perto do título antes de desmoronar — foi a consistência defensiva. O time sofreu menos gols do que qualquer outra equipe do top-6 inglês na temporada, um número que equivale ao total de gols concedidos pelo Arsenal em três meses durante a crise de 2020.

O City de Guardiola como termômetro da excelência

Arteta fez questão de contextualizar o título dentro do nível de concorrência enfrentado. O Manchester City de Pep Guardiola — que havia conquistado quatro das últimas seis edições da Premier League antes desta temporada — permaneceu como adversário direto até as rodadas finais, pressionando cada ponto conquistado pelos Gunners com uma intensidade que poucos clubes do mundo conseguiriam sustentar.

"Na minha opinião, tínhamos a melhor equipe da história desta competição nos pressionando. Pep Guardiola é, de longe, o melhor treinador do mundo", declarou Arteta, sem qualquer hesitação.

Há algo revelador nessa declaração — um campeão que homenageia o adversário vencido não está sendo condescendente, está dimensionando a própria conquista. Superar um City montado com um orçamento acumulado superior a 1,5 bilhão de euros nos últimos oito anos e ainda assim carregar a taça para o Norte de Londres tem um peso específico que os números isolados não capturam.

O Arsenal terminou a temporada à frente de um rival — o próprio Manchester City — que, nos últimos dez anos, havia vencido mais títulos de liga do que qualquer outro clube europeu fora do Bayern de Munique. Para se ter dimensão: o City acumulou, nesse período, mais pontos de Premier League do que Arsenal e Tottenham somados nas mesmas dez temporadas.

Com o título doméstico garantido, o Arsenal já mira a próxima etapa. O clube retorna à fase decisiva da Champions League — competição que o clube não vence desde 2006, quando chegou à final contra o Barcelona — e Arteta não escondeu a ambição: ao ser questionado sobre o duelo contra o PSG, o treinador foi direto. "Estou convencido de que vamos conseguir", afirmou, em tom que mistura confiança conquistada com a mesma determinação que levou sete anos para colocar a Premier League de volta nas mãos do Arsenal. A primeira partida da fase decisiva europeia está marcada para a semana que vem, em Paris.