O silêncio durou apenas o tempo de um pênalti cobrado em câmera lenta. Depois, Mehdi Taj, presidente da Federação de Futebol da República Islâmica do Irã (FFIRI), falou à televisão estatal de Teerã com a serenidade de quem sabe que cada palavra será pesada em duas moedas diferentes — a esportiva e a diplomática. O anúncio, feito neste sábado (9), foi preciso: o Irã participará da Copa do Mundo de 2026, mas com dez exigências formais dirigidas aos países-sede Estados Unidos, Canadá e México. Não era um pedido. Era uma lista de condições.

O campo de guerra que chegou ao campo de futebol

Para compreender o peso dessas exigências, é preciso recuar ao fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel iniciaram operações militares diretas contra o Irã — um conflito que resultou no assassinato do líder supremo Ali Khamenei e reconfigurou o mapa político do Oriente Médio de maneira que ainda não encontrou paralelo na história recente. Num contexto assim, a pergunta sobre se o Irã jogaria ou não a Copa do Mundo deixou de ser protocolar e passou a carregar o peso de uma declaração de soberania nacional. Como o trânsito da Avenida Paulista às 18h de uma sexta-feira, a situação acumulou pressões em camadas — e a FFIRI escolheu avançar, não recuar.

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A federação iraniana publicou uma nota categórica:

"Definitivamente, participaremos da Copa do Mundo de 2026, mas os anfitriões devem levar em conta nossas preocupações. Estaremos no torneio sem qualquer recuo em relação às nossas crenças, cultura e convicções."
A frase não deixa margem para negociação sobre o essencial — a presença iraniana — mas abre um corredor tenso para o debate sobre as condições dessa presença.

As dez condições e o nó dos vistos para ex-combatentes

Entre as dez exigências formalizadas pela FFIRI, as mais sensíveis politicamente envolvem a concessão irrestrita de vistos e a garantia de segurança em aeroportos, hotéis e trajetos até os estádios. Mas o ponto de maior atrito está em um nome específico que Mehdi Taj pronunciou sem hesitar.

"Todos os jogadores e a comissão técnica, especialmente aqueles que cumpriram serviço militar no Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, como Mehdi Taremi e Ehsan Hajsafi, devem receber os vistos sem qualquer problema"
, declarou o presidente da FFIRI à TV estatal iraniana.

Taremi, atacante de 32 anos com passagem pela Inter de Milão, e Hajsafi, capitão histórico da seleção com mais de 130 partidas disputadas, figuram entre os jogadores que serviram ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) — organização classificada como terrorista tanto pelos Estados Unidos quanto pelo Canadá. A contradição é estrutural: a FIFA autorizou a participação iraniana dentro das regras do futebol, mas as regras de imigração dos países-sede constroem uma barreira paralela que nenhum estatuto da entidade consegue dissolver por decreto.

As demais exigências incluem respeito formal à bandeira e ao hino nacional iraniano durante a competição — um ponto que remete ao episódio da Copa do Mundo de 2022 no Catar, quando jogadores da própria seleção do Irã ficaram em silêncio durante a execução do hino em protesto ao governo, gerando tensão interna e pressão externa simultâneas. A FFIRI, ao incluir essa cláusula agora, deixa claro que não quer repetir aquele desgaste — mas desta vez a pressão vem de fora, não de dentro do vestiário.

O Irã no Grupo G e a força construída nas eliminatórias

Há um dado que torna esse impasse ainda mais relevante do ponto de vista esportivo: o Irã chegou à Copa de 2026 com uma campanha nas eliminatórias asiáticas que poucos esperavam. Foram sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota em dez jogos — números que posicionam a seleção persa entre as forças consolidadas da Ásia, ao lado de Japão e Coreia do Sul. A equipe foi sorteada no Grupo G, ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia, e representa sua quarta participação consecutiva em Copas do Mundo, sequência iniciada em 2014.

A FFIRI foi direta ao reafirmar essa legitimidade esportiva como argumento político: "Nenhuma potência externa pode privar o Irã de participar de uma Copa para a qual se classificou por mérito", destacou a federação em comunicado. O argumento é tecnicamente irrefutável dentro do regulamento da FIFA — o que não significa que seja operacionalmente simples de sustentar quando os países que precisam emitir os vistos consideram parte do corpo técnico como membros de uma organização terrorista.

Os cenários possíveis nas próximas semanas

A FIFA se vê agora numa posição que já conhece bem — árbitro involuntário de conflitos que transcendem o esporte — mas raramente enfrentou com essa intensidade geopolítica. Em 2022, a entidade suspendeu a Rússia após a invasão da Ucrânia, uma decisão que levou meses de pressão internacional. No caso iraniano, a lógica é inversa: o Irã é o país em situação de guerra que quer jogar, e os anfitriões são os beligerantes que precisam garantir as condições de participação.

O prazo para resolução é curto. A Copa do Mundo de 2026 começa em junho, e os procedimentos de credenciamento, acreditação e visto para delegações estrangeiras têm datas-limite que se aproximam. A FIFA precisará intermediar uma negociação entre a FFIRI, o Departamento de Estado americano, o governo canadense e o mexicano — quatro interlocutores com agendas que raramente convergiram mesmo em tempos de paz.

Se as exigências forem atendidas, o Irã estreia no Grupo G com uma seleção fisicamente preparada e politicamente carregada de simbolismo. Se alguma condição for recusada — especialmente a dos vistos para ex-membros do CGRI —, a FFIRI terá que decidir entre ceder em suas próprias exigências ou transformar uma ausência esportiva em declaração de Estado. Num cenário em que Taremi e Hajsafi ficam retidos em Teerã por negativa de visto americano, o futebol deixaria de ser apenas futebol: a pergunta que fica é se a FIFA tem coragem institucional de pressionar Washington a abrir exceção para jogadores de uma seleção que se classificou por mérito — e o que acontece com o Grupo G se a resposta for não.