O papel amassou na gaveta. Algum dirigente do Corinthians assinou um contrato com a Mega Assessoria Operacional sem que a outra ala da diretoria soubesse — ou ao menos foi o que as versões internas divergiram quando o Ministério Público de São Paulo começou a puxar o fio. Esse desalinhamento de narrativas, documentado pelo MP, é o centro da investigação que agora ameaça expor não apenas uma contratação irregular, mas a arquitetura de decisões tomadas no vácuo de poder deixado pelo afastamento do ex-presidente Augusto Melo.
O que o MP encontrou nos bastidores da transição de poder
A investigação conduzida pelo Ministério Público paulista identificou que a contratação da Mega Assessoria Operacional ocorreu nos meses imediatamente posteriores ao afastamento de Augusto Melo e ao início da gestão interina de Osmar Stabile. A empresa assumiu o controle de acesso ao Parque São Jorge, ao CT Joaquim Grava e à Neo Química Arena — três instalações estratégicas do clube, cujo monitoramento envolve fluxo de pessoas, dados de segurança e controle patrimonial. Segundo documentos obtidos pelo MP, o valor do contrato firmado com a Mega Assessoria chegou a R$ 676 mil, cifra que passou por aprovações internas cujos registros apresentam inconsistências de datas e assinaturas.

As divergências apontadas pelo MP não são de natureza contábil apenas. Dirigentes ouvidos em diferentes momentos da investigação apresentaram versões contraditórias sobre quem autorizou a contratação, em que reunião a decisão foi tomada e se o processo seguiu o rito estatutário do clube. Essa fragmentação de relatos é, na linguagem do Ministério Público, um sinal de que pelo menos parte dos envolvidos tinha interesse em obscurecer a cadeia decisória.
"As versões apresentadas pelos representantes do clube não se sustentam quando confrontadas com os documentos internos", segundo apuração do MP descrita em manifestação encaminhada ao Judiciário.
Por que o controle de acesso virou alvo da investigação
Terceirizar o controle de acesso a estádios e centros de treinamento não é, por si só, uma irregularidade. Clubes de todo o Brasil fazem isso. O problema, no caso da Mega Assessoria, está na ausência de licitação ou processo competitivo documentado, na ausência de registro em ata de qualquer deliberação formal sobre a escolha da empresa e na velocidade com que o contrato foi firmado — menos de 30 dias após a mudança de gestão, segundo o cronograma reconstituído pelo MP a partir de e-mails e documentos internos.
A Mega Assessoria Operacional não constava do cadastro de fornecedores habituais do Corinthians antes de 2025. Sua habilitação como prestadora de serviços de segurança e controle de acesso foi inserida no sistema do clube sem o parecer técnico que o regimento interno exige para contratos acima de R$ 200 mil. Esse desvio de procedimento é o que permite ao MP enquadrar a contratação não como erro administrativo, mas como possível ato de gestão irregular.
"A empresa foi contratada sem que o clube comprovasse ter seguido os critérios mínimos de transparência exigidos pelo estatuto", conforme trecho do relatório do Ministério Público obtido por fontes próximas à investigação.
O que a gestão Stabile precisa responder nas próximas semanas
Osmar Stabile assumiu a presidência do Corinthians em caráter interino após o Conselho de Orientação votar pelo afastamento de Augusto Melo, em dezembro de 2025. A gestão de transição, que deveria ser de contenção e auditoria, acabou gerando novos contratos — e pelo menos um deles, o da Mega Assessoria, está agora sob escrutínio judicial. O MP deu prazo de 15 dias úteis para que o clube apresente a documentação completa da contratação, incluindo atas de reunião, propostas de outros fornecedores e o parecer jurídico que eventualmente tenha embasado a decisão.
Se o Corinthians não conseguir apresentar esses documentos de forma coerente, o MP tem base para pedir ao Judiciário a abertura de uma ação civil pública por improbidade administrativa contra os dirigentes que assinaram o contrato. Nesse cenário, os nomes diretamente ligados à aprovação da Mega Assessoria — ainda não formalmente indiciados — passariam a responder individualmente, com risco de inabilitação para cargos de gestão em entidades desportivas por até oito anos, conforme prevê a Lei Pelé.
O prazo dado pelo MP vence na segunda semana de junho de 2026. A defesa do clube ainda não se manifestou publicamente sobre as contradições apontadas. O Corinthians responde ao MP — e o MP já tem as perguntas prontas.








