— "Cara, o Ashley Young ainda joga?" — "Joga. No Lens. Como zagueiro." — "Espera... aquele ponta do Manchester United virou zagueiro na França com 40 anos?" — "Exatamente. E está em campo há 15 jogos nesta temporada."
Esse diálogo acontece com frequência quando o nome de Ashley Young aparece numa conversa de futebol europeu. A estranheza é compreensível — mas ela revela mais sobre os nossos preconceitos do que sobre o jogador. Porque há algo genuinamente raro acontecendo no norte da França: um atleta inglês de 40 anos, formado como atacante, reinventado como lateral e agora estabelecido como zagueiro na Ligue 1, continua sendo titular e contribuindo com números concretos.
O dado que ninguém olha mas explica tudo
Na temporada 2024/2025, Ashley Young disputou 36 jogos pelo Lens — um número que, isolado, já seria impressionante para um jogador na casa dos 39 anos. Mas o que realmente chama atenção é a consistência de presença: 36 partidas numa liga de alto nível físico como a Ligue 1, onde o ritmo de jogo exige mobilidade lateral constante e duelos aéreos frequentes. Para efeito de comparação, Paulo Maldini — o paradigma da longevidade defensiva europeia — disputou 30 jogos na Serie A em sua última temporada completa, a de 2006/2007, quando tinha 38 anos. Young, um ano mais velho, superou essa marca sem alarde.
O dado de 36 jogos em 2024/2025 não é anedota. É evidência de que o corpo e a cabeça do jogador ainda operam num nível que os clubes da elite europeia reconhecem como aproveitável — e que o Lens, especificamente, decidiu remunerar com minutos reais, não com presença simbólica.
Como ele chega a esse número
A trajetória de Young até essa longevidade tem uma lógica interna que só fica clara quando se olha o arco completo da carreira. Nascido em Stevenage em 9 de julho de 1985, ele começou no Watford — clube que, nos anos 1980 e 1990, funcionava como uma espécie de laboratório inglês de jogadores rápidos e verticais, o tipo de perfil que Graham Taylor transformou em filosofia de jogo. Young foi promovido ao time principal do Watford em 2003 e desenvolveu ali a base técnica que o distinguiria: velocidade de decisão, leitura de espaços e capacidade de operar em diferentes faixas do campo.
O salto para o Manchester United — onde conquistou a Premier League em 2012/2013, a Copa da Inglaterra em 2015/2016, a Copa da Liga Inglesa em 2016/2017 e a Liga Europa da UEFA em 2016/2017 — foi o período em que Young começou a migrar do ataque para o setor defensivo. A reconversão em lateral-esquerdo, que parecia uma adaptação de emergência nos primeiros anos, revelou-se uma segunda natureza. Quando chegou à Internazionale e conquistou o Campeonato Italiano em 2020/2021, já era um lateral completo, com entendimento defensivo refinado pela convivência com Antonio Conte — um treinador que, vale lembrar, transformou a Juventus dos anos 2010 numa máquina de 102 pontos em 2013/2014, exatamente por exigir de cada jogador uma leitura tática quase obsessiva da posição.
A chegada ao Lens e a migração definitiva para a zaga representam o terceiro ato dessa reinvenção. Com 175 cm e 65 kg — dimensões que não intimidam pelo volume físico — Young precisou compensar com antecipação e posicionamento. É o tipo de zagueiro que a Europa dos anos 1990 chamaria de libero moderno: aquele que lê o jogo antes de precisar correr.
Os outros números que falam o mesmo idioma
Na temporada atual de 2025/2026, Young acumula 15 jogos e 1 assistência — números que, numa leitura rasa, parecem modestos. Mas para um zagueiro de 40 anos, a assistência não é detalhe: ela indica que o jogador ainda participa ativamente da construção ofensiva, que seu posicionamento na saída de bola é confiável o suficiente para que o treinador o inclua nos circuitos de criação. Em 2024/2025, foram 1 gol e 3 assistências em 36 jogos — uma contribuição ofensiva que, somada à presença defensiva, justifica a confiança do Lens.
O SportNavo compilou os dados das últimas temporadas de Young e o padrão é claro: não há queda abrupta de desempenho, há uma curva de adaptação gradual, com o jogador administrando carga e encontrando maneiras de se manter relevante. É o oposto do que aconteceu com a maioria dos laterais ingleses da geração de Young — atletas que, ao cruzar os 35 anos, viram seus clubes não renovar contratos por falta de confiança na durabilidade física.
Na Seleção Inglesa, Young foi titular na Eurocopa de 2012 — torneio em que a Inglaterra chegou às quartas de final antes de ser eliminada pela Itália nos pênaltis. Era um jogador diferente então: veloz pela esquerda, criativo no um contra um. O que existe hoje em Lens é uma versão destilada daquele atleta, sem a explosão dos 27 anos, mas com uma inteligência posicional que só a experiência acumula.
O risco de confiar só nesse dado
Há, evidentemente, um limite para o que os números podem contar. Trinta e seis jogos numa temporada — ou 15 nos primeiros meses da atual — não dizem nada sobre a intensidade dos duelos, sobre quantas vezes Young precisou ser poupado em semanas de sequência pesada, ou sobre como o Lens estrutura o jogo defensivamente para proteger as limitações físicas naturais de um atleta de 40 anos. A Ligue 1 — uma liga que, nos anos 2000, revelou Zidane, Thuram e Desailly antes de exportá-los para a elite europeia — tem hoje um nível técnico e físico que não permite presença decorativa.
O risco real, nos próximos 12 meses, é que qualquer contusão muscular mais séria — o tipo que um corpo de 40 anos leva mais tempo para recuperar — interrompa esse ciclo de disponibilidade que é, hoje, o principal argumento de Young para continuar em campo. A longevidade de um jogador nessa faixa etária é frágil por natureza: não se trata de talento, mas de uma equação delicada entre gestão física, motivação e o contexto tático que o clube oferece.
O cenário mais realista para 2026/2027 é que Young encerre o contrato com o Lens e avalie se ainda existe algum clube disposto a apostar em sua experiência — talvez num papel de liderança dentro de um grupo jovem, como o próprio Lens tem sido nos últimos anos. O que parece improvável é que ele simplesmente desapareça do futebol profissional sem que a decisão seja dele. Quarenta anos, 15 jogos nesta temporada, e ainda com assistência no currículo: Ashley Young ainda não terminou de surpreender.










