Diz-se que Pierre-Emerick Aubameyang ainda tem faro de gol suficiente para se sustentar no futebol europeu de alto nível. Os números desta temporada — 18 gols e nove assistências em 45 partidas entre clube e seleção — parecem confirmar isso. O problema é que nenhum clube contrata apenas um centroavante; contrata também um ser humano dentro de um vestiário, e é aí que o gabonês voltou a comprometer tudo o que construiu dentro de campo.

O extintor, Bob Tahri e a gota d'água no CT do Marselha

A cena aconteceu no centro de treinamento do Olympique de Marselha: Aubameyang à frente de um grupo de dez jogadores, circulando por diferentes cômodos da instalação e causando confusão. O momento que selou sua punição foi quando o atacante disparou o conteúdo de um extintor de incêndio contra Bob Tahri, o responsável pela organização do local. Tahri relatou o episódio à diretoria, que convocou uma reunião de emergência antes de tomar qualquer decisão.

O presidente interino Alban Juster e o futuro presidente Stéphane Richard se reuniram com o elenco para ouvir as versões dos envolvidos. A conclusão foi direta: Aubameyang foi afastado e não foi relacionado para o jogo deste domingo (10) contra o Le Havre, pela Ligue 1. Segundo o L'Équipe, o próprio atacante admitiu que queria apenas "animar um pouco as coisas" e se desculpou com a diretoria — mas a desculpa não foi suficiente para evitar a sanção.

"Queria apenas animar um pouco as coisas", disse Aubameyang à direção do Marselha, segundo o L'Équipe.

Quando o talento não basta — a história que o futebol europeu já conhece de cor

Quando Aubameyang chegou ao Borussia Dortmund em 2013, vindo do Saint-Étienne, o futebol europeu descobriu um atleta de velocidade e frieza raros. Quando saiu do Arsenal em janeiro de 2022 — afastado por Mikel Arteta após episódios de indisciplina, incluindo uma viagem não autorizada — o mesmo futebol percebeu que o talento tinha um custo de gestão alto demais para a maioria dos clubes.

O extintor, Bob Tahri e a gota d'água no CT do Marselha Aubameyang disparou exti
O extintor, Bob Tahri e a gota d'água no CT do Marselha Aubameyang disparou exti

O paralelo histórico que me vem à cabeça é o de Adrian Mutu no Chelsea de 2004: um jogador com qualidade indiscutível, punido e demitido por conduta fora dos padrões exigidos pelo clube, numa época em que Roman Abramovich acabara de transformar Stamford Bridge num projeto de poder. Mutu tinha 25 anos. Aubameyang tem 36. A diferença de idade não é detalhe — é o argumento central contra qualquer tentativa de reabilitação em um clube de ponta.

Quando o talento não basta — a história que o futebol europeu já conhece de cor
Quando o talento não basta — a história que o futebol europeu já conhece de cor

Quando faz o que fez no Arsenal — viagem proibida, chegada atrasada, confronto com a comissão técnica — Aubameyang perde um contrato milionário e vai para o Barcelona buscar reconstrução. Quando faz o que fez agora no Marselha — extintor, baderna coletiva, funcionário atingido — ele não tem mais Barcelona esperando na fila. O mercado europeu para atacantes de 36 anos com histórico disciplinar como o seu é, para dizer o mínimo, estreito.

O Marselha na tabela e o que o afastamento revela sobre o projeto do clube

O Olympique ocupa a 7ª posição na Ligue 1 com 53 pontos, fora da zona de classificação para a Champions League. Num clube que tenta se reposicionar sob nova gestão — a chegada de Stéphane Richard à presidência é parte de uma reestruturação mais ampla —, tolerar episódios como o do extintor seria mandar uma mensagem errada para o vestiário inteiro.

A decisão de afastar Aubameyang publicamente, antes mesmo de um jogo, tem um componente pedagógico que vai além do atacante gabonês. Roberto De Zerbi, técnico do Marselha, construiu sua reputação no Brighton e na Serie A justamente pela capacidade de criar ambientes de trabalho coesos — o oposto do que Aubameyang protagonizou no CT. Manter o atacante em campo após o episódio com Tahri seria minar a autoridade do treinador numa fase em que o clube ainda tenta definir sua identidade.

Segundo fontes do clube ouvidas pelo L'Équipe, a diretoria do Marselha considerou o comportamento de Aubameyang incompatível com os padrões exigidos pelo novo projeto do clube.

Há um dado que contextualiza bem a situação: desde que deixou o Arsenal, Aubameyang passou por Barcelona, Chelsea e Al-Qadsiah antes de chegar ao Marselha em 2023. São quatro clubes em quatro anos — uma rotatividade que, isolada, poderia ser explicada por fatores táticos ou financeiros, mas que, somada ao histórico disciplinar, forma um padrão difícil de ignorar para qualquer diretor esportivo europeu.

O contrato de Aubameyang com o Marselha se encerra em junho de 2026, e o clube ainda não sinalizou renovação. Com o afastamento desta semana, a probabilidade de uma extensão caiu sensivelmente. A pergunta que fica para as próximas semanas é concreta: se o Marselha decidir rescindir antes do prazo, qual clube europeu — ou de qualquer outra liga de primeiro nível — estará disposto a absorver um centroavante de 36 anos com esse currículo comportamental, mesmo que ele ainda marque gols?