Uma bomba de fragmentação com estopim de 13 dias. É assim que se lê, nos dados, o impacto do áudio vazado em 13 de maio que registra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobrando dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. Só no parágrafo seguinte a metáfora faz sentido completo: o estrago não foi instantâneo — levou cinco dias para se materializar em números, mas quando chegou, chegou em todas as direções ao mesmo tempo.
O que os dados mostram antes e depois do dia 13 de maio
Uma semana de campo. É o intervalo que separa dois mundos eleitorais distintos. A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg (registro TSE nº BR-06939/2026), com 5.032 entrevistados pelo método de Recrutamento Digital Aleatório entre os dias 13 e 18 de maio, entregou um retrato que o PL preferiu não ver. Flávio, que disputava tecnicamente o segundo turno com Lula (PT) — a diferença era de apenas 0,3 ponto percentual na rodada de abril —, recuou para 41,8% enquanto o presidente avançou para 48,9%. Uma virada de quase 7 pontos em uma única janela de medição.
No primeiro turno, o movimento foi igualmente expressivo. Flávio tinha 39,7% em abril no cenário com mais candidatos; caiu para 34,3% — recuo de 5,4 pontos percentuais. Lula foi de 46,6% para 47,0%, variação dentro da margem de erro de 1 ponto percentual do levantamento. A leitura técnica é direta: o petista ficou estável; quem se moveu foi o bolsonarista.
- Queda no 2º turno: de ~47,5% para 41,8% (–5,7 pp)
- Queda no 1º turno: de 39,7% para 34,3% (–5,4 pp)
- Rejeição de Flávio: subiu de 49,8% para 52,0%
- Rejeição de Lula: caiu de 51,0% para 50,6%
- Margem de erro: ±1 pp, nível de confiança de 95%
Para quem trabalhou com ciência de dados antes de cobrir eleições: uma queda de 5 a 6 pontos em cinco dias de campo, com margem de erro de 1 ponto, equivale a um sinal estatístico de altíssima confiança. Não é ruído. É tendência.
A fotografia regional que complica a narrativa do PL
O PL tentou enquadrar o levantamento nacional como metodologicamente viciado — e o argumento tem alguma substância técnica. O partido pediu ao Tribunal Superior Eleitoral a impugnação da pesquisa, argumentando que o questionário, com 48 perguntas, incluía 8 blocos sobre o caso Vorcaro em sequência progressiva: "medo eleitoral; comparação Lula x Flávio; fraude financeira; Banco Master; Daniel Vorcaro; conversas vazadas; possível envolvimento direto; impacto sobre voto". O partido sustenta que essa cadeia "produz contexto, não mera medição". A Justiça Eleitoral ainda não se manifestou.
O problema para a tese do PL é que os dados regionais, coletados em janelas distintas, apontam na mesma direção. No Amazonas, pesquisa AtlasIntel (BR-03812/2026, 1.244 entrevistados, campo de 8 a 14 de maio) mostrou Flávio numericamente à frente no primeiro turno — 43,9% a 40,9% — mas o campo coincidiu exatamente com o dia do vazamento. Parte dos entrevistados amazonenses já sabia do áudio; parte não. O resultado é uma fotografia borrada de um momento de transição.
No Rio Grande do Norte, pesquisa AtlasIntel (BR-06594/2026, 962 entrevistados, campo de 22 a 27 de maio) já captura o eleitorado pós-crise: Lula aparece com 58,3% no primeiro turno contra 28,6% de Flávio — diferença de 29,7 pontos. No segundo turno simulado, o petista chega a 61,1% contra 31,8% do senador. São recortes estaduais, com margens de erro de ±3 pp, mas a consistência da direção é difícil de ignorar.
O que a rejeição de 52% significa para uma candidatura presidencial
Aqui mora o dado mais revelador de toda a série. Rejeição eleitoral funciona como um teto de vidro: você pode crescer em intenção de voto até bater nele, e aí para. Quando 52% do eleitorado declara que não votaria em Flávio Bolsonaro de jeito nenhum, o universo de votos disponíveis para ele se comprime drasticamente — mesmo que o restante dos 48% se divida entre candidatos menores no primeiro turno.
Para efeito de comparação histórica: em outubro de 2022, Lula encerrou o primeiro turno com rejeição em torno de 47% segundo o Datafolha — e ainda assim venceu a eleição. A diferença é que sua rejeição já estava precificada há anos no eleitorado; a de Flávio acaba de cruzar a barreira dos 50% pela primeira vez, o que representa uma deterioração de imagem aguda, não crônica. Deteriorações agudas são mais difíceis de reverter porque chegam com narrativa instalada.
"Das 48 perguntas, 8 tratam, em claro induzimento, do suposto envolvimento de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro e o Banco Master. Essa cadeia produz contexto, não mera medição", afirmou o PL em petição ao TSE pedindo a impugnação do levantamento.
A avaliação geral de Flávio no levantamento Latam Pulse Brasil (AtlasIntel/Bloomberg, divulgado em 28 de maio) reforça o quadro: o senador aparece com apenas 38% de avaliação positiva — o pior índice entre os presidenciáveis testados — enquanto Lula, mesmo com 51% de avaliação negativa, lidera o campo com 48% de aprovação. Ter mais aprovação do que o adversário mesmo sendo reprovado por maioria é uma das anomalias que só fazem sentido em eleitorados polarizados: os campos são assimétricos em tamanho.
A próxima rodada de pesquisas nacionais, prevista para as primeiras semanas de junho, vai medir se a queda de Flávio se estabiliza ou aprofunda. O PL ainda aguarda a decisão do TSE sobre a impugnação — mas mesmo que o tribunal acolha o pedido, os números regionais do Amazonas e do Rio Grande do Norte, coletados por metodologias distintas, já estão registrados e apontam para o mesmo vetor. É o mesmo cenário que Eduardo Campos viveu em julho de 2014, quando a tragédia aérea congelou uma candidatura em ascensão antes que ela pudesse ser testada em campo — só que agora a aposta é diferente: o dano não veio de fora, veio de dentro de um áudio de 13 de maio.








