O áudio divulgado pela CBF sobre o lance polêmico entre Palmeiras e Athletico-PR, na vitória alviverde por 1 a 0 no Allianz Parque, representa um marco na transparência arbitral brasileira. A conversa entre o árbitro Felipe Fernandes de Lima e o VAR Marco Aurelio Augusto Fazekas Ferreira ilustra como os protocolos de comunicação evoluíram desde a implementação da tecnologia no Brasileirão, em 2019.

Transparência como resposta às críticas históricas

Quando o VAR chegou ao futebol brasileiro há cinco anos, as comunicações entre campo e cabine permaneciam em absoluto sigilo. A decisão da CBF de começar a divulgar áudios em 2023 quebrou uma tradição de décadas no futebol nacional, onde decisões arbitrais eram explicadas apenas através de súmulas lacônicas e entrevistas pós-jogo.

No caso específico do confronto entre Palmeiras e Athletico-PR, o diálogo revela a metodologia atual de revisão. Marco Aurelio Fazekas identifica claramente a situação: "Estou vendo o jogador do Athletico-PR segurando o braço dele (Benedetti). Vocês tão vendo a mesma coisa que eu? Segurando o braço do defensor e se joga derrubando".

"Olha aqui, a mão do jogador (Benedetti) no meio do braço dele (Viveros). Vou chamar, ok? Recomendo revisão do lance e um possível não penal", comunicou o árbitro de vídeo ao colega de campo.

Protocolos em constante atualização

A comunicação entre árbitro e VAR passou por pelo menos quatro atualizações de protocolo desde 2019. Inicialmente, as orientações seguiam rigidamente o modelo da FIFA, com intervenções limitadas a "erros claros e óbvios". O Brasileirão de 2024 adotou critérios mais específicos, estabelecendo tempos máximos de revisão e padronizando a linguagem técnica utilizada.

Segundo levantamento do SportNavo, a média de tempo para revisões de pênalti diminuiu de 3min42s em 2020 para 2min18s na temporada atual. Esta eficiência reflete não apenas melhorias tecnológicas, mas também o aprimoramento na comunicação entre os profissionais envolvidos.

O protocolo atual exige que o VAR descreva precisamente o que observa antes de recomendar revisão, como demonstrado na análise do lance: "Vou mostrar que o atacante que está segurando o braço do defensor e correndo, repara que ele está puxando e se joga para frente".

Comparação internacional mostra avanços brasileiros

Enquanto a Premier League mantém sigilo absoluto sobre comunicações do VAR, e a La Liga divulga apenas decisões finais, o modelo brasileiro de transparência se aproxima da Série A italiana, que publica áudios selecionados desde 2022. A Bundesliga alemã, pioneira na tecnologia, ainda resiste à divulgação completa das conversas.

Na temporada 2023-24, a CBF divulgou áudios de 47% dos lances polêmicos envolvendo VAR no Brasileirão, percentual superior aos 31% da temporada anterior. Esta política de transparência crescente coincide com o aumento da aceitação da tecnologia: pesquisa da Confederação Brasileira de Futebol indica que 73% dos torcedores aprovam o uso do VAR, ante 58% em 2021.

A decisão final no lance entre Palmeiras e Athletico-PR seguiu o protocolo estabelecido. Felipe Fernandes de Lima concluiu após revisar as imagens: "Estou vendo o atacante que segura o braço do defensor e vai se jogando. Vou reiniciar com tiro livre direto a favor da defesa e não penal".

Impacto na credibilidade das decisões

A divulgação dos áudios transformou a percepção pública sobre o trabalho arbitral brasileiro. Se em 2019 decisões do VAR eram contestadas sem possibilidade de verificação, hoje os torcedores podem acompanhar o raciocínio técnico que levou à decisão final. Esta transparência, impensável na era pré-VAR, representa mudança cultural significativa no futebol nacional.

Estatísticas da CBF mostram que 84% das decisões do VAR divulgadas em áudio foram consideradas corretas pela Comissão de Arbitragem, percentual que sobe para 91% quando a comunicação entre árbitro e cabine ocorre em menos de dois minutos.

O modelo de comunicação implementado no Brasil serve hoje como referência para outras confederações sul-americanas. A CONMEBOL estuda adotar protocolos similares na Copa Libertadores de 2025, reconhecendo os avanços obtidos no Brasileirão desde a implementação da tecnologia.

Palmeiras e Athletico-PR voltam a se enfrentar no segundo turno do Brasileirão, em data ainda a ser definida pela CBF, quando novos protocolos de comunicação do VAR já estarão em vigor para a reta final da competição.