Confesso: em 2024 eu achei que o Fortaleza era o clube nordestino com maior potencial de crescimento financeiro. Campanhas internacionais, gestão séria, torcida mobilizada. Parecia o caminho mais óbvio. Errei feio.

Os números de 2025 chegaram e deixaram a discussão sem sentido. O Bahia registrou receita de R$ 562,2 milhões — maior da história do clube e quase o dobro do segundo colocado regional. Não é crescimento. É outro nível.

O que o Grupo City enxergou no Bahia que ninguém mais via

Quando o City Football Group assumiu o controle do Bahia em 2023, parte do mercado tratou o movimento como mais uma aposta de portfólio. O grupo já controlava Manchester City, New York City FC, Girona, Montevideo City Torque e outros clubes espalhados pelo mundo. O Bahia seria mais um número na planilha.

Não foi. O CFG trouxe para Salvador um modelo operacional testado globalmente: modernização de infraestrutura, recrutamento orientado por dados, expansão de receitas comerciais e fortalecimento da marca em canais digitais. O resultado apareceu rápido. O clube passou a atrair patrocinadores de outro calibre e ampliou contratos de transmissão com base em uma audiência crescente.

Nas redes sociais, o impacto é mensurável. O perfil oficial do Bahia no Instagram ultrapassou 2 milhões de seguidores em 2025, com taxa de engajamento acima da média dos clubes brasileiros fora do eixo Rio-São Paulo. Cada postagem de bastidores ou lançamento de uniforme viraliza em minutos — e isso tem valor direto para marcas parceiras.

"O Grupo City não comprou um time de futebol. Comprou uma plataforma de entretenimento com 6 milhões de torcedores", resumiu um executivo de marketing esportivo ouvido pela página Futebol Baiano Interativo, que divulgou o levantamento das receitas.

R$ 562 milhões contra o restante do Nordeste — a distância que assusta

O ranking regional de 2025 expõe uma concentração de poder financeiro sem precedentes. O Fortaleza, segundo colocado, registrou R$ 303,5 milhões — número expressivo, mas que representa pouco mais da metade do que o Bahia movimentou. O Ceará aparece em terceiro com R$ 254,9 milhões, mesmo oscilando entre Série A e Série B nos últimos anos.

O Vitória soma R$ 200,2 milhões em quarto lugar, num crescimento que acompanha a retomada esportiva do clube. Fecha o top-5 o Sport, com R$ 182,8 milhões — e aqui a ironia dói: o Leão da Ilha terminou o Brasileirão de 2025 na lanterna, com o pior desempenho de um clube nordestino na história do torneio, quebrando um recorde que ninguém queria ter.

Quem não tem cão caça com gato — e os clubes do Nordeste sem SAF ou investidor estrangeiro precisaram ser criativos para crescer. Fortaleza e Ceará apostaram em gestão profissional e campanhas continentais. Funcionou até certo ponto. Mas o capital do CFG colocou o Bahia numa categoria diferente de competição.

"A diferença entre o Bahia e o restante do Nordeste hoje não é de talento ou torcida. É de modelo de negócio", apontou análise publicada pelo Futebol Baiano Interativo ao divulgar os dados do levantamento.

De onde vem o dinheiro e o que ainda falta responder

A receita de R$ 562,2 milhões não vem de uma fonte só. O Bahia diversificou as entradas: crescimento no programa de sócio-torcedor, que já passa de 80 mil membros ativos; novos contratos de patrocínio master com marcas nacionais e internacionais atraídas pelo alcance digital do clube; premiações em competições nacionais; e participação em torneios da Conmebol, que injetam dólares diretamente no caixa.

Os direitos de transmissão também pesam. Com o Brasileirão cada vez mais valorizado no exterior — e o CFG usando sua rede global para ampliar a visibilidade do Bahia —, o clube passou a negociar cotas com mais poder de barganha do que tinha antes de 2023.

R$ 562 milhões contra o restante do Nordeste — a distância que assusta Bahia fat
R$ 562 milhões contra o restante do Nordeste — a distância que assusta Bahia fat

A questão que o torcedor e o mercado ainda não têm resposta completa é sobre sustentabilidade. O modelo depende de resultados esportivos para manter o ciclo virtuoso: presença em Libertadores garante receita extra, que financia elenco competitivo, que gera resultados, que atrai patrocinadores. Qualquer quebra nessa corrente — uma temporada ruim, uma eliminação precoce — testa a solidez do projeto.

O Bahia volta a campo pelo Brasileirão 2026 ainda no primeiro semestre, com o objetivo de brigar pelo G-4 e garantir vaga na fase de grupos da Libertadores de 2027. Manter a receita acima de R$ 500 milhões depende diretamente desse resultado — e o CFG sabe disso melhor do que ninguém.

Confesso: em 2024 eu achei que o Fortaleza era o clube nordestino com maior potencial de crescimento financeiro. Os números de 2025 chegaram e deixaram a resposta sem sentido.