Uma fundação rachada não vira arranha-céu com tinta nova. A imagem é crua, mas traduz com precisão o que a Federazione Italiana Giuoco Calcio enfrenta nesta quarta-feira, 3 de junho, quando a Azzurra entra em campo no Stade de Luxembourg diante de Luxemburgo sob comando interino. Silvio Baldini, técnico da seleção sub-21, herda um time que não disputa uma Copa do Mundo desde o Brasil de 2014 — doze anos de ausência que cobrem três edições consecutivas do torneio mais assistido do planeta.

A narrativa do colapso pontual precisa ser desmontada

Circula nos bastidores do futebol europeu a leitura de que a Itália perdeu a vaga para a Copa do Mundo de 2026 por um episódio isolado: a derrota nos pênaltis por 4 a 1 para a Bósnia-Herzegovina em Zenica, após empate em 1 a 1 no tempo regulamentar da repescagem. A narrativa é sedutora porque concentra a culpa num único momento dramático e poupa a análise mais desconfortável. Os números, porém, não colaboram com essa versão.

Na fase de grupos das Eliminatórias Europeias para 2026, a Itália perdeu para a Noruega por 3 a 0 em Oslo e por 4 a 1 em casa — duas goleadas que expõem uma fragilidade estrutural, não um acidente de percurso. Gennaro Gattuso chegou no início de 2025 e conseguiu quatro vitórias consecutivas nas Eliminatórias, o que gerou uma sensação de estabilização. Mas o ciclo terminou da forma mais traumática possível, e Gattuso pediu demissão imediatamente após a eliminação, reconhecendo que o projeto havia chegado ao limite.

Para entender a profundidade da crise, basta recorrer ao registro histórico. A Itália foi campeã mundial em 1934, 1938, 1982 e 2006 — quatro títulos que a colocam entre as três seleções mais vencedoras da história da competição. Em 2006, em Berlim, Gianluigi Buffon, Fabio Cannavaro, Andrea Pirlo e Alessandro Del Piero construíram o último capítulo glorioso. Vinte anos depois, como registrado pelo SportNavo em cobertura das Eliminatórias, o nome que conecta aquela geração à atual é outro Gianluigi: Donnarumma, goleiro do Manchester City, com 81 jogos pela Nazionale e único jogador consolidado no grupo convocado por Baldini.

O que Baldini encontrou no vestiário e o que isso revela

O técnico interino convocou 24 jogadores com média de idade de 20 anos e seis meses, dos quais 19 nunca haviam vestido a camisa da seleção principal. Os outros três com experiência na equipe adulta são Marco Palestra, do Cagliari, Niccolò Pisilli, da Roma, e Francesco Pio Esposito, da Inter de Milão. O grupo é, na prática, uma seleção sub-21 com Donnarumma no gol — uma combinação que lembra, em estrutura, a reconstrução alemã iniciada após a eliminação na fase de grupos da Copa de 2018, quando Joachim Löw apostou em jovens antes de ser substituído por Hansi Flick em 2021.

A comparação com a Alemanha pós-2018 serve como parâmetro, mas também como alerta. Os alemães tinham uma base de clubes com poder financeiro e formação técnica consolidada — Bayern de Munique, Borussia Dortmund, RB Leipzig — para sustentar a renovação. A Itália de 2026 aposta em talentos de Cagliari, Roma e Inter, mas a FIGC ainda não definiu sequer quem será o técnico permanente: as eleições presidenciais da federação estão previstas para este mês de junho, o que transforma o amistoso contra Luxemburgo numa partida sem dono de verdade no banco.

"Baldini convocou um grupo jovem com a missão de dar minutos a quem nunca teve oportunidade na seleção principal. Não é um amistoso comum — é uma triagem em campo aberto", segundo análise publicada pela imprensa italiana após o anúncio da lista.

O adversário desta quarta-feira ocupa a 102ª posição no ranking da FIFA e não conquistou um único ponto na fase de grupos das Eliminatórias contra Alemanha, Eslováquia e Irlanda do Norte. A equipe de Jeff Strasser — que teve o contrato renovado até junho de 2028 — reagiu em março ao vencer Malta nas duas partidas do playoff de rebaixamento da Nations League com agregado de 5 a 0 (2 a 0 fora e 3 a 0 em casa), garantindo permanência na Liga C. É um adversário gerenciável, mas não inofensivo para um time sem entrosamento.

O amistoso de 3 de junho e o que ele realmente testa

Num campo molhado de incertezas institucionais, a partida em Luxemburgo funciona como um temporal sem trovão — a pressão está no ar, mas ainda não descarregou. Baldini precisa observar se os jovens convocados conseguem manter a linha defensiva organizada sem a referência de um técnico definitivo e sem um projeto de jogo consolidado. Após este amistoso, a Itália enfrentará a Grécia, num segundo teste antes que a FIGC anuncie o substituto permanente de Gattuso.

O que Baldini encontrou no vestiário e o que isso revela Baldini convoca 19 estr
O que Baldini encontrou no vestiário e o que isso revela Baldini convoca 19 estr
  • Donnarumma — 81 jogos pela Nazionale, único pilar de continuidade
  • Niccolò Pisilli (Roma) — um dos três com experiência na equipe principal
  • Francesco Pio Esposito (Inter) — referência ofensiva entre os jovens convocados
  • Marco Palestra (Cagliari) — quarto jogador com passagem pelo time adulto

A leitura mais precisa do momento italiano não é a de um colapso repentino nem a de uma geração perdida. É a de uma federação que atrasou por anos o investimento em formação de base e que agora colhe a conta em forma de ausências consecutivas em Copas. A Espanha de 2008 a 2012 dominou o futebol mundial porque a geração de La Masia amadureceu ao mesmo tempo. A França de 2018 e 2022 chegou às finais com jogadores formados em academias que o estado francês financiou na periferia de Paris. A Itália não teve esse ciclo — e o amistoso de amanhã é o primeiro dia do que promete ser um processo longo.

Após o jogo contra Luxemburgo, a Azzurra tem o confronto com a Grécia como segundo compromisso deste período de junho. A FIGC precisará anunciar o técnico permanente antes do início da próxima edição da Nations League, em setembro de 2026, quando o novo ciclo eliminatório para a Copa de 2030 já terá começado a tomar forma.