Três gols decisivos. Esse é o legado mais concreto que Juninho deixou no Flamengo antes de ser vendido ao Pumas, do México, por 5 milhões de euros — cerca de R$ 32,3 milhões na cotação da época. O atacante marcou o título carioca sobre o Fluminense, abriu o placar na estreia da Libertadores contra o Táchira e decidiu a virada sobre o Sport que foi peça-chave na conquista do Brasileirão. Com esse currículo de momentos decisivos, a pergunta que o torcedor rubro-negro não consegue engolir é simples e incômoda: por que o Flamengo o vendeu?

O investimento de R$ 52,7 milhões que virou remorso em Gávea

A tensão começa nos números da contratação.

O Flamengo desembolsou R$ 52,7 milhões para tirar Juninho do Qarabag, do Azerbaijão, numa das apostas mais ousadas da gestão Bap. O atacante chegou como produto de um trabalho de scout minucioso — não foi uma contratação de vitrine, foi uma aposta técnica. Em 32 partidas com o Manto Sagrado, porém, apenas sete foram como titular. Quatro gols no total, mas três em momentos que valeram títulos. A matemática do aproveitamento esconde uma contradição: o jogador rendia quando chamado, mas raramente era chamado para começar.

A venda gerou um prejuízo contábil de aproximadamente R$ 20 milhões na operação bruta — comprou por R$ 52,7 milhões, vendeu por R$ 32,3 milhões. Mas o custo real pode ser maior. No Pumas, Juninho acumula 8 gols e 4 assistências em apenas 20 partidas, números que colocam o atacante entre os mais produtivos do futebol mexicano neste momento. O SportNavo acompanhou a trajetória do jogador desde a chegada ao Ninho do Urubu e a evolução no exterior reforça o que Bap acabou admitindo publicamente.

Bap e o peso da confissão sobre Juninho no videocast

A autocrítica pública de um presidente de clube grande é rara — e por isso ela pesa.

No videocast Sport Insider, do canal N Sports no YouTube, Luiz Eduardo Baptista foi direto ao ponto ao ser questionado sobre as contratações de sua gestão:

"Eu estou muito satisfeito com as contratações que a gente fez desde que eu assumi o clube. Até uma que não deu tão certo como a do Juninho. Eu entendo que não foi por causa do atleta, foi um erro nosso. Léo Pereira demorou quanto tempo para ser abraçado pela torcida do Flamengo? Um ano e meio. Michael? Mais de um ano. Rodinei? Quase dois. Pulgar? Um ano."

A lista citada por Bap não é aleatória. Léo Pereira chegou ao Flamengo em 2021 sendo vaiado, questionado e comparado desfavoravelmente a David Luiz. Hoje é capitão, titular absoluto e um dos zagueiros mais valorizados do Brasil. O paralelo é doloroso porque o próprio presidente reconhece que o clube tem histórico de paciência com jogadores que demoraram a engrenar — e não aplicou essa mesma paciência a Juninho.

"É que hoje o jogador chega e todo mundo quer que ele chegue voando, arrebente a boca do balão. Não é simples jogar em um clube como o Flamengo. Nível de exposição, de cobrança, a pressão… É um pacote", declarou Bap.

A fala do presidente aponta para uma pressão que vai além do campo. O Flamengo tem uma das maiores torcidas do planeta, e o escrutínio sobre cada contratação é imediato e implacável. Juninho chegou sem o holofote de um nome consagrado, enfrentou comparações injustas com titulares estabelecidos e saiu antes de ter a chance de construir a identidade que Michael, Rodinei e Léo Pereira tiveram tempo de consolidar.

O que a saída de Juninho revela sobre a gestão do elenco rubro-negro em 2026

A confissão de Bap expõe uma fissura estrutural no processo decisório do clube.

O Flamengo de 2026 enfrenta um setor ofensivo que precisa de profundidade e versatilidade. Com Juninho no plantel, o técnico teria à disposição um atacante que já demonstrou capacidade de decidir em jogos de pressão máxima — exatamente o perfil que clubes grandes pagam caro para manter. A venda por 5 milhões de euros, valor inferior ao investimento inicial, sugere que a decisão foi tomada sob pressão de curto prazo, não por avaliação técnica de longo prazo.

O padrão de comportamento identificado por Bap — a impaciência coletiva com jogadores em adaptação — não é exclusivo do Flamengo, mas clubes com orçamento menor têm menos margem para errar. O Mengão investiu R$ 52,7 milhões, deu sete jogos como titular ao atacante e vendeu. Esse ciclo, se repetido, transforma o departamento de futebol em uma esteira de contratações caras e subaproveitadas.

A próxima janela de transferências do Flamengo abre em julho, e o clube já monitora atacantes no mercado europeu para reforçar o setor. O nome de Juninho, agora em alta no México com 8 gols em 20 jogos, deverá aparecer nas reuniões internas como o exemplo que ninguém quer repetir — o atacante que custou R$ 52,7 milhões, decidiu três títulos e foi embora antes de completar um ano.