A negociação está travada, a proposta de 10 milhões de euros do Shakhtar Donetsk segue sem resposta definitiva, e o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, já sinalizou internamente que prefere ver Ryan Roberto partir sem gerar receita a dobrar os braços diante de empresários. Só então fica claro o tamanho do impasse que envolve uma das maiores joias reveladas pela base do Flamengo nos últimos anos.
Ryan Roberto tem 18 anos, contrato até março de 2027 e, nesta semana, ganhou mais um pano de fundo dramático: enquanto o clube comemorava a confirmação do W.O. por 3 a 0 sobre o Independiente Medellín na Libertadores — decisão da Comissão Disciplinar da Conmebol publicada na quinta-feira, 21 de maio —, os bastidores ferviam com um conflito de poder que pode custar dezenas de milhões de euros ao caixa rubro-negro.
O que o Shakhtar ofereceu e por que a proposta não avança
A oferta do clube ucraniano é concreta e, sob qualquer perspectiva técnica de mercado, razoável para um jogador de 18 anos ainda sem sequência consolidada no futebol adulto de alto nível: 10 milhões de euros fixos — aproximadamente R$ 64 milhões — acrescidos de 2 milhões de euros em metas atreladas a desempenho, totalizando até R$ 76,8 milhões. O Lille, da França, também chegou a discutir valores próximos dos 10 milhões de euros, mas recuou justamente por um fator que se tornou o epicentro do problema: a presença de diferentes empresários conduzindo a negociação em paralelo.
Segundo informações da ESPN publicadas nesta sexta-feira, 22 de maio, o diretor de futebol José Boto considera a proposta do Shakhtar aceitável e trabalha por uma saída que não represente ruptura total. Bap, no entanto, sustenta posição diferente: queria a renovação contratual, e os agentes do jogador apresentaram exigências salariais que o Flamengo avalia como incompatíveis com o perfil de um atleta de 18 anos — independentemente do talento demonstrado.
Segundo fontes ouvidas pela ESPN, Bap adotou postura rígida neste caso específico como recado ao mercado, demonstrando que o departamento de futebol do Flamengo não pode ceder a pressão externa.
A lógica é dura, mas não é nova no futebol de alto nível.
O princípio que Bap defende e o paralelo europeu
O que para o dirigente argentino costuma ser tratado como pragmatismo — vende-se qualquer jogador pelo preço certo, sem questionar quem assina a procuração — para o gestor português é frequentemente uma questão de governança institucional: o clube não pode ser refém da constelação de agentes que orbita em torno de um atleta. Bap, formado no ambiente corporativo e com passagem pelo conselho de administração do próprio Flamengo antes de assumir a presidência, parece operar mais próximo da segunda lógica.
A postura tem precedentes no futebol europeu. O Barcelona, ao lidar com a saída de Ansu Fati em 2023, adotou posição semelhante ao recusar aceitar condições impostas pela representação do jogador — e acabou vendendo o atacante por valor abaixo do potencial de mercado, mas preservou o princípio de que o clube define os termos. O Flamengo, ao sinalizar que pode deixar Ryan Roberto sair gratuitamente em março de 2027, faz o mesmo cálculo: a perda imediata de receita vale menos do que a mensagem enviada ao mercado de agentes.
O risco é enorme. Perder um jogador revelado na base sem receber nada é exatamente o tipo de fracasso administrativo que corrói a credibilidade de uma gestão.
O W.O. que alivia o clima e o contexto da fase de grupos
Enquanto o imbróglio Ryan Roberto consome energia nos bastidores, o Flamengo recebeu nesta semana uma notícia que organiza melhor sua campanha na Libertadores. A Conmebol aplicou o artigo 24.2 do Código Disciplinar para atribuir ao clube carioca a vitória por 3 a 0 sobre o Independiente Medellín — partida que havia sido cancelada em 7 de maio após incidentes de segurança no Estádio Atanasio Girardot, em Medellín.
O clube colombiano, além de perder os três pontos, foi multado em aproximadamente 116.278,90 dólares — cerca de R$ 582 mil — e terá de disputar suas próximas cinco partidas como mandante em torneios da Conmebol com portões fechados, mais dois jogos sem torcida como visitante.
Com os pontos confirmados, o Flamengo chegou a 13 pontos em cinco partidas e garantiu matematicamente a liderança isolada do Grupo A, competição em que já havia assegurado a classificação para as oitavas ao vencer o Estudiantes por 1 a 0 no Maracanã. O encerramento da fase de grupos está marcado para terça-feira, 26 de maio, contra o Cusco, do Peru — uma partida sem pressão classificatória, mas que Jardim deve usar para ajustar peças e testar variações de elenco.
O destino de Ryan Roberto, porém, não se resolve em campo. Com o contrato expirando em março de 2027, a janela de negociação mais favorável ao Flamengo é a do segundo semestre de 2026. Se Bap mantiver a posição atual e os empresários não recuarem nas exigências, o clube entra nessa janela sem acordo e com o risco real de assistir ao jovem atacante de 18 anos assinar um pré-contrato com qualquer clube europeu a partir de setembro — de graça, e sem que o Flamengo receba um centavo dos 10 milhões que o Shakhtar já colocou sobre a mesa.









